Destaque ONU News Especial - Situação Econômica Mundial e Perspectivas 2019

21 janeiro 2019

Neste Destaque ONU News Especial, a especialista do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, Desa, Helena Afonso, fala sobre o relatório Situação Econômica Mundial e Perspectivas 2019.

A economia mundial atingiu um pico, mas deve continuar a crescer cerca de 3% nos próximos dois anos.

A conclusão é do relatório Situação Económica Mundial e Perspectivas, apresentado esta segunda-feira em Nova Iorque.

A especialista em assuntos econômicos Helena Afonso, do Departamento de Assuntos Económicos e Sociais da ONU, Desa, foi uma das autoras da pesquisa.

ONU News (ON): Quais são as principais conclusões deste relatório?

Helena Afonso (HA): A primeira seria que, à primeira vista, os números principais da economia global parecem relativamente robustos. Mas, na verdade, os riscos aumentaram bastante e também existem vulnerabilidades e deficiências na qualidade do crescimento. Essas deficiências põem em perigo, a longo prazo, a sustentabilidade do crescimento e acontecem a nível da dimensão financeira, social e ambiental.

À primeira vista, os números principais da economia global parecem relativamente robustos. Mas, na verdade, os riscos aumentaram bastante e também existem vulnerabilidades e deficiências na qualidade do crescimento. Essas deficiências põem em perigo, a longo prazo, a sustentabilidade do crescimento e acontecem a nível da dimensão financeira, social e ambiental.

ON: Pode falar um pouco sobre quais são esses riscos e quais são principais tendências?

HA: Por um lado, observamos que as economias mais desenvolvidas estão perto do potencial.  Prevemos que a economia global cresça cerca de 3% este ano e 3% no ano que vem, sendo que cresceu 3,1% no ano passado, segundo as nossas estimativas. Portanto, existe uma aparência de robustez e estabilidade. No entanto, há algumas observações que devem ser feitas, também, como, por exemplo, o crescimento global é capaz de ter atingido um pico. Nós acreditamos que esse seja o caso porque econômicas, por exemplo, como os Estados Unidos e a China irão desacelerar este ano e no ano que vem. Mesmo a União Europeia apresenta riscos, sobretudo, negativos. Ou seja, o crescimento poderá ser mais baixo do que aquele que prevemos. 

Por outro lado, a economia global enfrenta uma confluência de riscos que podem desacelerar a atividade econômica no curto prazo e o desenvolvimento no longo prazo. Estes riscos incluem, por exemplo, a diminuição do apoio a abordagens multilaterais, as tensões comerciais entre países, vulnerabilidades financeiras, como por exemplo o alto e crescente nível de endividamento em vários países, tanto desenvolvidos como em desenvolvimento e por último, mas não menos importante, a intensificação de riscos climáticos. Face a este cenário, são necessárias políticas que sustentem o crescimento global mas também melhorem a sua qualidade para que seja mais sustentável a longo prazo.

ON: Em relação aos países lusófonos, para o Brasil, apontam uma ligeira recuperação. Pode falar sobre os motivos dessa recuperação e também relação aos outros países?

HA: Os países lusófonos estão a melhorar em termos económicos.

Para o Brasil, nós prevemos um crescimento de 2,1% para este ano e 2,5% no ano que vem. Isto no seguimento de um crescimento alto decepcionante em 2019, de 1,4%. Esta recuperação será sustentada por um maior investimento privado, maior consumo das famílias e continuação de uma política monetária acomodativa e inflação moderada. Os riscos estão equilibrados, mas dependem muito de o novo governo ser capaz de implementar reformas macroeconômicas favoráveis ao mercado e conseguir restaurar a confiança.

Do ponto de vista de desenvolvimento sustentável seria importante que os planos do governo para liberalizar, desregulamentar e privatizar tivessem em conta também as consequências sociais, por exemplo os povos indígenas e os mais pobres, e as consequências ambientais.

Em relação a Angola, a situação está a melhorar, tivemos um crescimento de 2,4% este ano, e 3% no próximo ano, sustentado por maior procura interna. Há um aumento da produção petrolífera e de diamantes. Mas também pelos efeitos das reformas econômicas em andamento, deverá melhorar o clima dos negócios. No entanto, a performance da economia angolana depende muito da evolução do preço do petróleo, o qual prevemos que se mantenha, apesar de tudo, acima de 70 dólares este ano.

A performance da economia angolana depende muito da evolução do preço do petróleo, o qual prevemos que se mantenha, apesar de tudo, acima de 70 dólares este ano.

Em relação a Moçambique, a economia moçambicana ainda não recuperou de vários choques negativos. Nomeadamente a descoberta de dívida oculta em 2016. Este ano prevemos que o ritmo de crescimento se mantenha igual ao do ano passado. Ou seja, 3,4%. E para o ano prevemos um ligeiro aumento para 4%. Para termos uma comparação, a economia moçambicana cresceu cerca 7% ao ano entre 2004 e 2015. A nossa previsão é baseada num crescimento moderado do consumo privado e um maior investimento direto estrangeiro. Particularmente, em megaprojetos de gás natural e liquefeito. Em termos de riscos, o maior seria sem dúvida o pesado fardo da dívida do setor público que se encontra acima de 100% do PIB e uma falta de acordo nas negociações sobre a dívida.

ON: Estava a falar dos riscos globais sobre a dívida, as guerras comerciais. Esses riscos podem ter efeitos sobre esses países?

HA: Sim, podem, sem dúvida. Por exemplo o efeito das tensões comerciais entre Estados Unidos e China, caso afetem o crescimento na China de uma forma maior do que esperamos, podem afetar os países produtores de petróleo. O estado da economia global afeta muito a economia desses países.

ON: Outro ponto a que dão muita atenção nesse relatório é a citação da mudança climática. Por que vocês decidiram dar tanta atenção a este tema?

HA: Bem, na verdade, já fazemos isso há vários anos. Por um lado, há uma atividade econômica mais forte, mas também um número crescente de eventos climáticos extremos, com consequências graves nos países mais vulneráveis. E também maiores emissões globais de dióxido de carbono. Ora, neste ritmo não vamos conseguir realizar os objetivos do Acordo de Paris. E para mudar esta tendência, são necessárias mudanças, nomeadamente ao nível econômico.

Uma mudança fundamental seria mudar a forma como geramos a energia que fomenta o crescimento econômico. Ou seja, é preciso usar menos energia provenientes de combustíveis fosseis, mas sem prejudicar a economia. Isto pode ser feito através de algumas medidas, por exemplo criar mais regras de eficiência energética, criar preços para o carbono, ou reduzir os subsídios aos combustíveis fósseis. A ideia é criar uma transição para padrões de consumo e produção mais sustentáveis para a economia e para o planeta.

 

 

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