Cepal: pobreza extrema na América Latina atinge o nível mais alto desde 2008
BR

15 janeiro 2019

Relatório Panorama Social 2018 aponta que 184 milhões de pessoas viviam na pobreza no ano passado; América Latina e Caribe continua sendo área mais desigual no mundo.

Após os aumentos registrados em 2015 e 2016, a taxa geral da pobreza, medida pela renda, se manteve estável na América Latina em 2017. Porém, a proporção de pessoas em situação de extrema pobreza continuou crescendo, seguindo a tendência observada desde 2015.

Segundo o relatório Panorama Social 2018, apresentado nesta terça-feira pela Comissão Econômica da América Latina e do Caribe, Cepal, o número de pessoas vivendo na pobreza em 2017 chegou a 184 milhões, o que representa 30,2% da população da região. Destas, cerca de 62 milhões de pessoas, ou 10,2% da população, se encontravam na extrema pobreza. Esta foi a porcentagem mais alta desde 2008.

Proporção de pessoas em situação de extrema pobreza continua crescendo. Foto: © Unicef/UNI40798/DeCesare

Diferenças

O estudo aponta diferenças entre os países em relação aos níveis de pobreza e de pobreza extrema. Somente no Chile e no Uruguai a taxa de pobreza é inferior à 15% da população. Em outros sete países, a taxa está entre 15% e 25% e em outras seis nações a pobreza afeta mais do que 25% da população.

Para 2018 a expectativa é que o crescimento do PIB contribua para uma pequena redução na taxa de pobreza e que a taxa de pobreza extrema se mantenha a mesma.

Em entrevista à ONU News, o diretor do escritório da Cepal no Brasil, Carlos Mussi, disse que o relatório indica uma certa continuidade no combate à pobreza na região, e que por mais que ela tenha permanecido estável a pobreza na América Latina está bem menor do que no início do século.

“Acho que isso mostra um certo esforço da região, dos governos e de sua sociedade de combater a pobreza. Seja através de mercados de trabalho e dos programas de transferência de renda que tanto estão presentes em vários países da região. E depois, um certo empenho em termos de discussão da desigualdade que não era muito falado na região e que agora começa a ser debatido de uma forma mais ampla.”

Desigualdade

O relatório destaca também que, apesar de ainda ser a região mais desigual no mundo, a desigualdade de renda tem diminuído consideravelmente na América Latina desde o início da década de 2000. A média simples dos índices de Gini de 18 países da América Latina, onde 0 representa ausência de desigualdade e 1 desigualdade máxima, baixou de 0,543 em 2002 para 0,466 em 2017.

Entretanto, o ritmo de redução diminuiu nos últimos anos. Entre 2002 e 2008 a diminuição anual média do índice foi de 1,3%, entre 2008 e 2014, de 0,8%, e entre 2014 e 2017, de 0,3%. Segundo a Cepal, os sistemas de proteção social tiveram um papel importante nos últimos anos para conter deteriorações distributivas.

© Unicef/UN028161/Zehbrauskas
Estudo aponta diferenças entre os países em relação aos níveis de pobreza e de pobreza extrema.

Pobreza Extrema

O relatório também indica uma relação direta entre as taxas de pobreza e de pobreza extrema. Argentina, Chile, Costa Rica e Uruguai têm taxas de extrema pobreza abaixo de 5%, Brasil, Equador, El Salvador, Panamá, Paraguai, Peru e República Dominicana têm taxas entre 5% e 10% e o restante dos países apresentam taxas acima de 10%. 

Ao analisar os países com maiores reduções da pobreza entre 2012 e 2017, se observa que no Chile, El Salvador e República Dominicana o aumento da renda do trabalho nos domicílios com menores recursos foi a fonte que mais contribuiu para essa diminuição. Já na Costa Rica, Panamá e Uruguai os principais fatores foram as pensões e transferências recebidas pelos domicílios com menores recursos.

Na América Latina, 77% do trabalho não remunerado é realizado pelas mulheres. Foto: © Unicef/UNI36894/Versiani

Mulher

De acordo com Carlos Mussi, além das questões de pobreza e desigualdade, o estudo traz alguns temas importante como o papel de políticas públicas de apoio ao emprego e o papel da mulher no mercado de trabalho.

Em 2017, a participação das mulheres no mercado de trabalho continuou sendo menor do que a dos homens, 50,2% e 74,4% respectivamente, embora nesse mesmo ano o desemprego feminino, com 10,4%, se manteve acima dos homens, com 7,6%.

“Isso tem ainda um impacto que do passado em tempos que as mulheres não iam para o mercado formal, que ainda estavam muito direcionados a serviços domésticos na própria casa ou em casas de terceiros, mas se você vê a população mais jovem, especialmente em países com uma grande proporção da população urbana, como é o caso do Brasil, Argentina e México, você já vê uma população feminina muito mais educada e muito mais indo ao mercado de trabalho. Eu creio que ao longo do tempo nós vamos ver uma taxa de participação incrementando das mulheres especialmente se existir mecanismos de apoio para que ela fique no mercado de trabalho.”

De acordo com o relatório, mais da metade das mulheres ocupadas, 51,8%, são empregadas em setores de baixa produtividade e delas, 82,2% não estão afiliadas ou não contribuem para um sistema de pensões.

Já a baixa participação das mulheres no mercado de trabalho remunerado contrasta com a alta participação delas no trabalho não remunerado para o próprio domicílio. Segundo dados das pesquisas de uso do tempo, na América Latina, 77% do trabalho não remunerado é realizado pelas mulheres.

 

 

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