Pedro Conceição: “Desigualdades em áreas como educação e saúde às vezes são esquecidas”

14 janeiro 2019

Economista português dirige escritório que produz o Relatório de Desenvolvimento Humano desde 1 de janeiro; em entrevista à ONU News, explica quais são os seus objetivos para o cargo.

O primeiro Relatório de Desenvolvimento Humano foi publicado há quase 30 anos.

Na altura, a pesquisa desafiou o mundo a olhar para o desenvolvimento de uma forma diferente. Pedro Conceição é desde 1 de janeiro o diretor do escritório que produz esta pesquisa.

Nesta entrevista com a ONU News, o especialista português fala sobre as suas grandes prioridades para o cargo, a importância dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, ODSs, e um dos temas que vai dominar o relatório nos próximos anos: a desigualdade.   

Pedro Conceição em entrevista no estúdio da ONU News, by ONU News

ONU News: Começo por lhe perguntar como é que este relatório mudou a forma como o mundo olha para o desenvolvimento?

Pedro Conceição: No final dos anos 80 e na transição para os anos 90, do século passado, houve um grande enfoque, principalmente, no crescimento económico. E o que este relatório veio interpelar a todos nós foi o que de facto interessa quando pensamos no desenvolvimento. Se os países crescerem, isso é de facto o que interessa? Ou há outros elementos que são importantes?

O conceito de desenvolvimento humano é um conceito muito simples que diz apenas que as pessoas devem viver as vidas de acordo com aquilo que elas valorizam e de acordo com aquilo que lhes dá uma maior satisfação económica ou social. O que o Índice de Desenvolvimento Humano veio fazer foi fazer refletir o progresso e o desenvolvimento, incluindo aspectos ligados ao crescimento econômico e ao rendimento, mas também outros fatores. A introdução deste conceito, deste Índice, representa um pouco o ponto de inflexão para uma consideração mais sistemática de aspectos sociais que são tão importantes para o desenvolvimento como aqueles que são ligados ao desenvolvimento económico.

ON: Passados todos estes anos, como é que o relatório pode continuar a ser relevante?

PC: Penso que, talvez por coincidência, ou não, estamos a assistir a uma inflexão, uma transição, semelhante à que vivemos há cerca de 30 anos. Essa transição está expressa, na minha opinião, nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e na Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

Na verdade, é a primeira vez que temos uma agenda para o desenvolvimento que é universal, se aplica a todos os países. Uma agenda que olha não só para os aspetos económicos, sociais, que foi a inflexão que o conceito de desenvolvimento humano trouxe nos anos 90, mas também para outros aspetos, como sustentabilidade ambiental e a importância de nos focarmos nas pessoas, mas também de olharmos para o ambiente e outros aspetos que são importantes para o bem-estar das pessoas.

Uma agenda que olha não só para os aspetos económicos, sociais, que foi a inflexão que o conceito de desenvolvimento humano trouxe nos anos 90, mas também para outros aspetos, como sustentabilidade ambiental.

Portanto, de alguma forma, estamos a assistir a uma inflexão semelhante à que estávamos a observar na transição dos anos 80 para os anos 90. Dado que se celebra, em 2020, o 30º aniversário da publicação do Relatório de Desenvolvimento Humano penso que vai ser oportuno, ao longo dos próximos meses, do próximo ano, fazer uma reflexão sobre a forma como o relatório e o conceito de desenvolvimento humano se deve conciliar e alinhar com esta nova inflexão e este novo entendimento de desenvolvimento.

ON: Quais são as suas principais ideias? Como é que o relatório pode ajudar a cumprir os ODSs?

PC: Eu acho que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a Agenda 2030, tem inspirado governos, tem inspirado setor privado, tem inspirado o público em geral. Mas, para conseguirmos acelerar o progresso para os ODSs, temos de investir mais para perceber como devemos dar prioridade a diferentes investimentos, de como devemos ter uma perspectiva mais integrada dos diferentes sistemas, económico, social, ambiental, como é que todas estas coisas se ligam umas com as outras. Penso que o conceito de desenvolvimento humano pode ajudar a ter essa reflexão mais aprofundada, a forma como diferentes sistemas interagem, como se deve pôr as pessoas à frente, como prioridade, e como isso tem implicações noutros sistemas, como o ambiental. Por isso, penso que pode dar uma contribuição importante para ajudar os países a aceleram o progresso para os ODSs. 

ON: Quais vão ser as suas grandes prioridades no cargo?

PC: Ainda estou numa fase de consulta e de auscultação. Tentar perceber quais são as expetativas, quais são as aspirações e de que forma o relatório pode vir a ser útil.  Mas há duas áreas que já começam a emergir como muito importantes. Uma relaciona-se com a desigualdade. A desigualdade de rendimento, a desigualdade económica, que já tem vindo a ter muita atenção. Mas a desigualdade também noutros aspetos do desenvolvimento humano. Eu penso que isso é uma reflexão que o Relatório do Desenvolvimento Humano pode trazer. As desigualdades que se manifestam em áreas como a educação, como a saúde, como outros aspetos, que as vezes são esquecidos quando se fala apenas em desigualdade económica e que nem sempre estão correlacionados com a desigualdade económica. Portanto, tentar perceber, de uma forma mais abrangente, o domínio das desigualdades.

Diria que outro aspecto que vai ser muito importante também é tentar perceber como é que se concilia o conceito de desenvolvimento humano com o conceito de sustentabilidade económica, social, mas também ambiental. Penso que há uma reflexão aprofundada que é preciso fazer sobre esse tema.

ON: O diretor do Pnud, quando anunciou a sua nomeação, disse que queria que este Escritório fosse uma fonte de conhecimento, de pesquisa, de informação. Como é que isso vai acontecer?

PC: Vai acontecer através da mobilização da pequena equipa que trabalha comigo, mas também muito com a ideia de que o escritório é, no fundo, uma plataforma aberta para outras pessoas contribuírem, como peritos, pessoas do meio académico que vamos tentar envolver, decisores políticos, decisores do setor privado. Mas também tentando ter um diálogo com o público, de forma mais abrangente, para perceber de que forma é que este conceito pode ser relevante.

Portanto, para além do trabalho analítico que faremos, o trabalho da produção do Índice de Desenvolvimento Humano, a reflexão em torno de eventuais modificações ao Índice de Desenvolvimento Humano, queremos que o relatório e o gabinete sejam uma plataforma para atrair outras pessoas para o conceito de desenvolvimento humano.

  

 

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