De refugiado em Moçambique a diretor de escola nos Estados Unidos

4 janeiro 2019

Conheça a história de vida inspiradora de Bertine Bahige; O Acnur falou com refugiado que encontrou novas oportunidades nos Estados Unidos.

Bertine Bahige viu sua vida mudar da noite para o dia quando sua cidade, no leste da República Democrática do Congo, foi invadida por rebeldes que o recrutaram para fazer parte de um grupo armado. Ele tinha apenas 13 anos.

Após conseguir fugir do seu país, o menino chegou a Moçambique, onde viveu por cinco anos num campo de refugiados. O jovem foi encaminhado para um programa de reassentamento, que o transferiu para os Estados Unidos, onde Bertine teve a oportunidade de cursar faculdade e de se tornar professor.

Vida na RD Congo

Bertine Bahige, ex-refugiado congolês reassentado nos EUA, foi à sede da ONU, em Nova Iorque, para participar de evento sobre o novo Pacto Global sobre Refugiados, by Acnur/Andrew Kelly

Bertine Bahige deu aulas de matemática por dez anos, antes de se tornar diretor de uma escola de ensino fundamental em Gillette, no Wyoming.

Crescendo em Bukavu, na República Democrática do Congo, Bertine Bahige estudava muito para se tornar médico. Aos 13 anos, ele já tinha toda a sua vida planejada. Mas tudo mudou no dia em que o grupo rebelde Mai Mai invadiu sua cidade no leste do país, indo de casa em casa para sequestrar jovens que deveriam integrar suas forças armadas.

Com a voz trêmula, Bertine lembra, em entrevista à Agência da ONU para Refugiados, Acnur, esse dia. Ele disse que “olhar nos olhos dos seus pais e saber que está prestes a se separar completamente de tudo que já conheceu na vida” foi o momento mais difícil da sua vida.

O garoto passou dois anos em cativeiro. Ao longo desse período, ficou horrorizado com a forma como as crianças espalhavam o terror entre si.

Bertine conta que “tinha que ser implacável para subir na hierarquia.”

O jovem não conseguiu suportar a violência e decidiu fugir.

Chegada a Moçambique

Bertine viajou por milhares de quilômetros. Cruzou o lago Tanganica no barco de um pescador, que foi solidário e permitiu que ele embarcasse de graça. Escondeu-se na traseira de um caminhão cheio de peixes secos. Durante três dias, isso foi tudo o que Bertine comeu. O congolês explica que foi “a primeira refeição gourmet em muito tempo.”

Bertine posa com os filhos. Foto: © Acnur/Cynthia Hunter

Exausto, Bertine desmaiou embaixo de uma árvore. Quando acordou, viu-se rodeado de pessoas que falavam uma língua que ele não entendia. O congolês não tinha ideia do país onde estava — Moçambique. Por cinco anos, o jovem morou no campo de refugiados de Maputo, administrado pelo Acnur.

Após meia década de estadia no acampamento, o refugiado congolês começou a se preocupar com o futuro de sua educação, não existia ensino médio no local. Após algumas entrevistas, Bertine foi informado de que ele seria encaminhado para um programa de reassentamento, mas o menino não tinha certeza sobre o que isso significava.

Educação

Em 2004, Bertine desembarcou em Baltimore, no estado de Maryland, nos Estados Unidos. Uma sensação calorosa cresceu dentro dele.

O primeiro trabalho de Bertine foi no Burger King, onde ele começou jogando o lixo fora e, depois, tornou-se caixa.

Trabalhando em três empregos diferentes ao mesmo tempo, Bertine ingressou na faculdade comunitária da cidade e nunca perdeu uma aula. Como ele não tinha um carro, percorria quase dez quilômetros de bicicleta para chegar às aulas noturnas.

O então universitário foi tão bem no curso que conseguiu uma bolsa de estudos para a Universidade de Wyoming. Quando contava a seus amigos sobre o estado, ninguém entendia para onde estava indo.

Mas o Wyoming logo se tornou o lar de Bertine. Na universidade, conheceu sua esposa e, depois de se formar em Matemática, tornou-se professor de ensino médio em Gillette. Hoje, com 38 anos, ele tem dois filhos e é o diretor da Escola de Ensino Fundamental Rawhide.

Conheça neste vídeo, em inglês, a história de Bertine: 

Oportunidades

Em uma recente visita a Nova Iorque para uma cerimônia na sede da ONU, Bertine usava um chapéu preto com listras amarelas e roxas e duas letras ‘C’ grandes, costurados na frente. É a logo do colégio de ensino médio onde ele ensinou matemática por dez anos e onde ainda treina o time de futebol após o horário escolar.

O ex-refugiado compartilhou sua história nas Nações Unidas em apoio ao novo Pacto Global sobre Refugiados. O acordo tem como objetivo fortalecer a assistência aos refugiados e aos países que os abrigam. Entre as soluções propostas para crises de deslocamento forçado, o documento recomenda mais oportunidades de reassentamento, como foi o caso de Bertine.

Por conta do que viveu quando criança, Bertine gosta muito de trabalhar com jovens em situação de vulnerabilidade e é capaz de se conectar com eles num nível mais profundo do que um professor regular.

*Reportagem Acnur/ Tradução ONU Brasil

 

 

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