Guterres: "sem um sistema multilateral, corremos o risco de retornar a uma espiral de conflitos"
BR

11 novembro 2018

Em evento paralelo às celebrações que marcam o centenário do fim da Primeira Guerra Mundial, chefe da ONU disse haver elementos nos dias atuais semelhantes aos que levaram ao conflito.

O secretário-geral António Guterre, participou este domingo na cerimônia de abertura do primeiro Forum de Paris sobre a Paz.

O evento organizado pelo presidente da França, Emmanuel Macron, aconteceu como parte das celebrações do centenário do fim da Primeira Guerra Mundial.

A presidente da Alemanha também participou da cerimônia de abertura do Fórum.

Primeira Guerra Mundial

Em seu discurso, Guterres disse que “nos últimos 100 anos, o desejo de resolver conflitos pacificamente com base em regras comuns foi convertido em um sistema universal de instituições nas esferas política, econômica, social e ambiental.”

O chefe da ONU acrescentou que este sistema tem como base os “valores afirmados no Preâmbulo da Carta das Nações Unidas e na Declaração Universal dos Direitos Humanos” que foi adotada em Paris há 70 anos. Para Guterres, “o Fórum de Paris sobre a Paz e o entusiamo que demonstra pelas soluções coletivas nunca foi tão importante.”

Crise Econômica

António Guterres disse ver no mundo de hoje vários elementos semelhantes aos do início do Século 20 e dos anos 30, e que estes são motivos para “temer que uma cadeia de eventos imprevisível possa acontecer.”

O chefe da ONU disse que entre estes elementos estão a crise financeira de 2008. Em comparação, Guterres citou a quebra da bolsa de 1929, que ocorreu 10 anos antes do início da Primeira Guerra Mundial.

Para Guterres, apesar de uma grande depressão ter sido evitada na crise de 2008 e do retorno do crescimento da economia global, um ajuste de contas aconteceu nas “eleições de 2016 nos dois lados do Atlântico, e mais amplamente na Europa e em outros lugares.”

O secretário geral declarou que os resultados demonstraram uma “vingança política contra a lógica macroeconômica, refletindo a desestabilização das classes médias, o impacto da estagnação salarial na redução da mobilidade social, as crescentes desigualdades e a indignação das pessoas pelo que chamou “traição das elites”.

Totalitarismo

O segundo elemento citado por Guterres foi que em 1930, “as democracias foram arrastadas por uma onda de totalitarismo”. Para o secretário-geral, o mundo não está na mesma situação, mas “o que estamos vendo hoje é a polarização da vida política e da própria sociedade, o que está levando à uma perigosa erosão dos direitos e liberdades fundamentais, dos princípios democráticos e do Estado de direito.”

O chefe da ONU acrescentou que “o preconceito relacionado com a identidade, o terrorismo e a corrupção da informação estão colocando à prova os sistemas políticos e as Constituições .” Para Guterres, sociedades “anteriormente apoiados por múltiplas vertentes de vida e cultura...

O secretário-geral lembrou que “essas amargas paixões alimentaram os retrocessos nacionalistas e o anti-semitismo dos anos 1930”, e que é importante nunca se esquecer deste fato.

Espírito Democrático

Guterres destacou que o “enfraquecimento do espírito democrático de compromisso e uma indiferença às regras coletivas são venenos para o multilateralismo.” O chefe da ONU disse que a divisão do Conselho de Segurança em temas como o conflito na Síria, a tendência para o confronto comercial e a crise de confiança enfrentada pela União Européia são sinais deste enfraquecimento.

Como exemplos de sucesso do multilateralismo, Guterres citou a queda de 36% para 8% no número de pessoas vivendo na extrema pobreza, a erradicação da varíola como resultado das campanhas de vacinação pela Organização Mundial da Saúde, OMS, a poliomielite, que está quase erradicada e o melhor acesso ao tratamento da Aids, que evitou a morte de 7,6 milhões de pessoas.

Capacetes Azuis

Nas áreas de manutenção da paz e segurança, o chefe da ONU disse que os “capacetes azuis são agora uma marca no mundo”. Guterres lembrou que “mais de 1 milhão de homens e mulheres de 125 países têm atuado em missões de paz nos últimos 70 anos para evitar a disseminação de crises, proteger civis e apoiar processos políticos.”

Um outro exemplo citado por António Guterres na área de não-proliferação nuclear foi “a unidade do Conselho de Segurança nos casos do Irã e da Coréia do Norte, que abriu a possibilidade de uma solução negociada em 2015 e 2018".

Multilateralismo

Para o secretário-geral , o multilateralismo é uma “necessidade e uma esperança” para os jovens da República Centro Africana, e também para os 65 milhões de refugiados e deslocados no mundo hoje.

Por outro lado, para Guterres, “a intervenção unilateral, ou a intervenção de apenas um grupo de Estados, não garante sucesso nem custo-benefício.” Como exemplo, o chefe da ONU mencionou a intervenção no Iraque, que teria sido “negativamente, em favor do multilateralismo.”

Desafios

Para o secretário-geral, está claro que os governos não podem sozinhos satisfazer as expectativas de proteger as suas populações na ausência de cooperação internacional, especialmente contra os grandes desafios da humanidade como um todo, como mudança climática, população, migração, e desafios tecnológicos.

Guterres destacou que "a combinação desses três desafios vem em um momento de grande ansiedade e desordem geopolítica, o que aumenta os riscos de confrontos” e que o “nosso mundo parece caótico neste momento”.

O secretário-geral acrescentou que “sem um sistema multilateral e respeito pelas regras internacionais, há um risco de retorno apenas para as relações de poder, mecanismos de recompensa e sanções, e uma espiral de conflitos latentes .”

Guterres defendeu um multilateralismo inclusivo e intimamente relacionado com a sociedade civil e a comunidade empresarial, e que seja guiado pela luta contra as desigualdades no mundo.

 

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