Destaque ONU News Especial - 04 de setembro de 2018

4 setembro 2018

O #DestaqueONUNewsEspecial entrevista o representante especial do secretário-geral na Guiné-Bissau, José Viegas Filho. O embaixador brasileiro participou na reunião do Conselho de Segurança que debateu a situação do país.

 

Os temas da conversa incluem os motivos para estar otimista, a preparação das eleições legislativas de novembro, como melhorar a participação dos jovens e o que os Estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Cplp, podem dar.  

Na quinta-feira da semana passada, decorreu uma reunião da configuração da Comissão de Consolidação da Paz da Guiné-Bissau presidida pelo Brasil.

ONU News (ON):  Olá, como vai? Bem-vindo ao Destaque ONU News Edição Especial, hoje recebendo o representante especial do secretário-geral da ONU na Guiné-Bissau. O nome dele é José Viegas Filho. Embaixador de carreira, ele já representou o Brasil na Malta, na Espanha, na Itália, na Rússia e foi também ministro da Defesa do Brasil.

Em maio, José Viegas Filho chegou a Bissau para ocupar o seu novo posto e cooperar com os esforços de consolidação da paz no país africano de língua portuguesa. Embaixador, bem-vindo à ONU News em português.

Special Representative for Guinea-Bissau, Jose Viegas Filho.jpg , by ONU News

Viegas Filho (VF): Muito obrigado, é um prazer estar aqui, na ONU e em Nova Iorque.

ON: O prazer é nosso. Com relação à situação na Guiné-Bissau, que foi discutida no Conselho de Segurança, o senhor está otimista. Porquê

VF: Pelo seguinte, por várias razões. Primeiro, porque o país tem o desejo de se aprimorar, de se recuperar, sabe.

Embora haja na classe política de muitos países do mundo um grande debate e às vezes uma certa desunião, eu noto, embora eu tenha só três meses no posto, eu noto um esforço pronunciado de coalizão, de identidade de pensamento e, sobretudo, de levar o país para a frente.

O que aconteceu, no passado recente, foi que a comunidade internacional unificou a sua posição. E unificou a sua posição muito de acordo com o feitio da posição recomendada pela ONU. Aí, há um jogo. A ONU representa a comunidade internacional, mas a comunidade internacional se beneficia muito de uma orientação da ONU e isso aconteceu.

Então as eleições... hoje mesmo, o primeiro-ministro esteve aqui no Conselho de Segurança e ele disse, sem nenhuma ressalva, que as eleições, sim, serão realizadas a 18 de novembro, que era a parte essencial da luta.

Então, confirmando-se isto, abre-se um novo horizonte. Em maio, junho do ano que vem haverá as eleições presidenciais. Então, no segundo semestre de 2019, nós teremos um governo totalmente novo, uma elite política totalmente nova na Guiné-Bissau. E aí vamos ver o que vai acontecer.

ON: Isso ocorre depois de um impasse político que começou em meados de 2015, não é isso? E agora essa esperança das eleições de novembro, eleições em 2019 para presidente, como diz o senhor, fechando o ciclo. Qual é o papel da ONU, brevemente, nesses dois pleitos?

VF: É um papel crucial. Hoje, na sessão do Conselho de Segurança, eu notei que a ONU conquistou a liderança da condução internacional do processo político, da reação internacional ao processo político em Guiné-Bissau.

Representante especial do secretário-geral na Guiné-Bissau, José Viegas Filho. , by ONU/Manuel Elias

Então, nós estamos vivendo um momento, de grande coordenação entre a comunidade internacional e a ONU do ponto de vista do aprimoramento da vida política da Guiné-Bissau, sendo bem-recebida pela própria elite política da Guiné-Bissau. Então nós estamos formando uma conjuntura muito positiva.

Vamos esperar. Não vamos colocar o cavalo na frente dos bois, o carro na frente dos bois. Mas havendo a eleição, o caminho vai se despejar, como se diz em espanhol, o caminho vai-se alargar, o sol vai brilhar. E eu estou muito entusiasmado a esse respeito, sendo chefe do Uniogbis, um nome horroroso, mas sendo chefe do Uniogbis, eu estou muito esperançoso de conseguir fazer um bom trabalho lá, um bom resultado, e desenvolver a cooperação internacional com a Guiné-Bissau, que eles estão muito precisados disso.

ON: Falando em cooperação, o senhor é embaixador, foi embaixador do Brasil em várias capitais, tem muita experiência. O Brasil está coordenando, tem coordenando há vários anos, essa estratégia de paz, da Comissão de Consolidação da Paz para a Guiné-Bissau. Mas também outros países de língua portuguesa têm cooperado, têm ajudado. Como é que essa cooperação na mesma língua, que deveria até ser mais rápida e mais fácil, pode ser melhorada?

VF: De muitas maneiras. Por exemplo, para você dar cursos de formação técnica para a população jovem da Guiné-Bissau você tem que falar português. Sabe, então, eles têm uma necessidade enorme na Guiné-Bissau de ter cursos de formação, em tecnologia. Não digo nem tecnologia, no domínio de uma profissão, sabe. Por exemplo, pescadores têm muito que aprender em matéria de refrigeração, em matéria de comercialização, em matéria de administração. Os catadores de castanhas de caju têm muito que aprender, sem tecnologia nenhuma, mas com organização, com ordem. Isso requer cursos, requer formação, requer formação de uma carreira, por exemplo, em alguns casos.

A ONU está pronta para fazer esse tipo de coisa, mas falando português. Então, nós vamos ter de pegar no Brasil, em Moçambique, em Angola, Portugal, gente, professores, que sejam capazes de dar essa formação. Isso não é caro, é relativamente barato, e tem um efeito social muito grande, porque revitaliza a economia do país, e cria uma nova juventude.

Por exemplo, o Senai no Brasil. O Senai tem esses cursos, e tem esses cursos lá em Bissau. A gente pode associar o Senai numa programação da ONU para fazer formação de pessoal. Acho isso muito importante. E isso é apenas uma avenida que está aberta, há muitas outras.

ON: E projetos como esse poderiam acontecer ainda esse ano?

Representante especial do secretário-geral para a Guiné-Bissau, José Viegas Filho, e Monica Grayley, da ONU News. , by ONU News

VF: Se Deus quiser, mas não depende de mim. Eu sou um coordenador, eu sou um iniciador de coisas. Eu sou um negociador também, mas eu não tenho dinheiro. Então, é preciso um sponsor, é preciso que um país, ou a própria ONU, nos ajude.

ON: Então, estamos à espera, dessa cooperação, financeira também, não é? O senhor citou juventude. Esse ano nós sabemos que há um grande esforço para que a juventude participe na organização dessas eleições, na preparação. Como é que o seu escritório também pode explorar, digamos assim, esse potencial jovem?

VF: O que eu percebi na Guiné-Bissau foi que a ONU é muito bem-vinda. Então, se a agente consegue realmente conseguir manter a imagem da ONU bem alta, vai ser natural que haja uma atração pela ONU. Mas isso terá de ser objeto de programas específicos, não só de cooperação, mas também de orientação. Isso ainda está por fazer. Ainda não passou pela minha cabeça, está entrando agora.

A minha missão tem dois períodos. O período inicial, esses três meses, que é o período de aclimatação, de conhecimento, de ajustamento. Depois vem as eleições. Aí, depois das eleições, começará o período da fortificação. Então, a gente tem de esperar aí uns oito meses. Mas se Deus quiser, tudo vai dar certo, e a gente vamos fazer um bom trabalho de aproximação com a Guiné-Bissau. E que seja um programa muito saudável para o país, que é um país para o qual estou desenvolvendo um certo gosto.

ON: A língua já ajuda, não é embaixador?

VF: A língua já ajuda, a comida é notável. Você come uma carne, um arroz com carne lá, precioso. Melhor que no Brasil.

ON: É uma cultura maravilhosa. Senhor embaixador José Viegas Filho, muito obrigado pela sua entrevista à ONU News em português.

VF: Muito obrigado.