Primeiro-ministro da Guiné-Bissau diz que é preciso promover eleições e estabilidade
BR

1 setembro 2018

Após discursar no Conselho de Segurança, Aristides Gomes afirmou que comunidade internacional precisa perceber nuances do processo de estabilização que vão além de votações; para ele, é preciso dar meios reais e levar todas as partes do país a trabalharem pela estabilidade política de forma duradoura.

A Guiné-Bissau deve eleger um novo Parlamento em 18 de novembro. A votação está sendo organizada pelas autoridades do país em parceria com a comunidade internacional.  

Mas para o atual primeiro-ministro guineense, mais do que uma votação, o novo pleito precisa representar o consenso para um trabalho rumo à estabilidade duradoura do país africano, de língua portuguesa.

Meio

Aristides Gomes falou à ONU News logo após uma reunião no Conselho de Segurança, em Nova Iorque, na quinta-feira.

“As eleições são indispensáveis, são incontornáveis para a estabilização, mas não basta fazer as eleições para se ter a estabilidade é preciso trabalhar para se ter a estabilidade. A eleição é um simples meio para nós trabalharmos para termos a estabilidade. Há este aspecto. O segundo aspecto é que é preciso nós termos consciência de que as boas eleições não se fazem, simplesmente, sob pressão. É preciso dar meios reais para que as boas eleições tenham lugar. Portanto, é preciso que a comunidade internacional tenha sempre presente em como sem que os meios estejam desbloqueados e, sobretudo, na devida altura não pode haver boas eleições.”

Sociedade e líderes

Desde 2015, a Guiné-Bissau vivia um impasse político após a demissão do primeiro-ministro, Domingos Simões Pereira, pelo presidente José Mário Vaz.

Após o encontro, o atual chefe de governo guineense disse que está ajudando a promover o entendimento entre várias partes incluindo a sociedade e os líderes políticos com o apoio de organizações regionais e internacionais como as Nações Unidas.

Aristides Gomes foi primeiro-ministro da Guiné-Bissau de 2005 a 2007. Ele volta ao governo após representantes da comunidade internacional e autoridades guineenses decidirem sobre um nome de consenso para ocupar o posto.

Estratégia

A decisão foi tomada com base no Acordo de Conacri para levar uma resolução política ao conflito.

Na quinta-feira, o tema da Guiné-Bissau voltou ao Conselho de Segurança numa sessão da qual participaram também o representante especial do secretário-geral em Bissau, José Viegas Filho, e o embaixador do Brasil junto à ONU, Mauro Vieira. O país dirige a estratégia para a Guiné-Bissau na Comissão de Consolidação da Paz.

 

ONU/Manuel Elias
Representante especial do secretário-geral na Guiné-Bissau, José Viegas Filho.

Leia um trecho da entrevista do primeiro-ministro Aristides Gomes a Eleutério Guevane, da ONU News.

ONU News: Já foi primeiro-ministro de 2005 a 2007. Qual é a diferença agora?

AG: Bom, a diferença é que neste momento é um governo que, paradoxalmente, tem mais força porque é um consenso que está na base. É mais difícil manobrar porque é preciso discutir sempre com toda a gente.

Mas o papel é mais exaltado também porque digamos a ambição é muito mais renovada. É uma ambição de toda uma sociedade que quer que os problemas sejam resolvidos por um governo em que está toda a gente.

Portanto, em 2005, quando eu fui primeiro-ministro é verdade que também era de um governo, em que havia todos os partidos políticos, mas havia o grau de conflitualidade, era maior. Era um contexto também de crise, mas o grau de conflitualidade era maior e então nós vimos a maneira como as coisas acabaram por desembocar.

Neste momento, é um governo que quando arrancou, arrancou numa base em que as pessoas chegaram a um entendimento em como era necessário parar e chegar-se a um entendimento sobre as grandes questões. Nós pegamos este fio do entendimento e continuamos a puxar esse fio para ver se levamos o barco até as eleições e preparamos as condições para ver que o governo que vier possa ter uma base de sustentação muito mais pacífica.

ON: Esteve com a comunidade internacional. Há algo a dizer dessas conversas?

AG: Gostaria de dizer duas coisas. A primeira coisa é que há uma espécie de hábito, de linguagem que leva toda a gente a dizer que ‘é preciso eleições para que a Guiné-Bissau possa estabilizar-se’. Não é fácil, mas é preciso sempre introduzir uma nuance, portanto, que se fizemos as eleições, mas se não trabalharmos bem para que os atores possam se entender, quer dizer as eleições em si não levam à estabilização. Portanto, é preciso sempre termos em consciência esta realidade em como esta verdade é uma grande verdade, mas plena de nuances. As eleições são indispensáveis, são incontornáveis para a estabilização, mas não basta fazer as eleições para se ter a estabilidade é preciso trabalhar para se ter a estabilidade. A eleição é um simples meio para nós trabalharmos para termos a estabilidade. Há este aspecto. O segundo aspecto é que é preciso nós termos consciência de que as boas eleições não se fazem, simplesmente, sob pressão. É preciso dar meios reais para que as boas eleições tenham lugar. Portanto, é preciso que a comunidade internacional tenha sempre presente em como sem que os meios estejam desbloqueados e, sobretudo, na devida altura não pode haver boas eleições, portanto estas duas vertentes têm que estar na nossa mente quando nós falamos em ajudar a Guiné-Bissau a estabilizar-se.

ON: Sobre as eleições, previstas para 18 de novembro, e a estabilização da Guiné-Bissau, nós conversamos com o primeiro-ministro da Guiné-Bissau. Primeiro-ministro, muito obrigado! Foi um prazer tê-lo cá.

 

 

 

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