Afrodescendentes têm maior propensão a viver em pobreza crônica, diz Banco Mundial

30 agosto 2018

Novo estudo também reconhece que houve melhoras na última década e traz recomendações para aumentar a inclusão social; 91% dos afrodescendentes vivem no Brasil e na Venezuela.

Um relatório* lançado pelo Banco Mundial nesta quarta-feira afirma que os afrodescendentes representam um quarto da população da América Latina, cerca de 133 milhões.

Noventa e um por cento deles estão no Brasil e na Venezuela e, o restante, espalhado desigualmente por outros países.

Baixa representação

O documento também revela que, comparados aos brancos ou mestiços, os afrodescendentes da América Latina são 2,5 vezes mais propensos a viver em pobreza crônica.

No Brasil, Colômbia, Equador, Panamá, Peru e Uruguai, os afrodescendentes representam cerca da metade da população em extrema pobreza.

Além disso, eles têm menos anos de ensino concluído, estão desempregados com mais frequência e têm baixa representação em cargos decisórios públicos e privados.

Apresentado na Costa Rica, país com a primeira vice-presidente negra da América Latina, o estudo ajuda a entender melhor as condições em que os afrodescendentes vivem. E, a partir daí, criar políticas que promovam a inclusão social e econômica. Flavia Carbonari, coautora do relatório, fala sobre o tema.

Igualdade racial

“O Brasil, que é o segundo país no mundo com a maior população afrodescendente, atrás apenas da Nigéria, é um caso que chama a atenção na nossa análise. É o país que fez mais esforços para alcançar a igualdade racial e conquistou muitos avanços que são importantes para o resto da região. Ao mesmo tempo, é um dos países que mais apresentam desigualdades entre afrodescendentes e não-afrodescendentes.”

Crianças afrodescendentes deslocadas na Colombia. , by Acnur/B.Heger

Segundo o relatório, apesar dos desafios contínuos, houve notável melhora nas condições de vida na última década. Por exemplo, mais de 50% das famílias afrodescendentes saíram da situação de pobreza no Brasil e no Uruguai. No Equador e no Peru, foram 20%.

 Outros progressos foram a inclusão dos afrodescendentes no censo de vários países e o surgimento de uma classe política negra. O documento ainda aponta as ações afirmativas, campanhas de conscientização e leis antirracismo como conquistas importantes.

No caso brasileiro, Flávia Carbonari destaca os avanços no acesso às universidades.

Desempenho 

“O país possui, por exemplo, o conjunto mais abrangente de políticas de ação afirmativa para o ensino superior. E diversos estudos mostram que elas tiveram grande impacto na composição étnico-racial dessas instituições, ao mesmo tempo em que mantiveram ou melhoraram o desempenho dos estudantes. Apesar disso, essas políticas ainda precisam tratar da diferença entre o alcance educacional e a inserção no mercado de trabalho. Também faltam políticas mais fortes de inclusão escolar não apenas para garantir que as universidades recebam mais estudantes afrodescendentes, mas que eles representem os segmentos mais vulneráveis da população”.

Para enfrentar o problema da exclusão, ainda é necessário fazer muito mais. Entre outras recomendações, o estudo cita: aprofundar a coleta de indicadores sociais sobre os afrodescendentes; eliminar os estereótipos raciais; e capacitar as organizações de afrodescendentes para aumentar sua participação e poder de negociação.

*Com reportagem de Mariana Ceratti, do Banco Mundial, Brasil.
 

 

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