Opinião: Dia Internacional dos Boinas-Azuis, por António Guterres
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29 maio 2017

Leia a versão em português do editorial escrito pelo secretário-geral das Nações Unidas e publicado na edição do jornal The Boston Globe desta segunda-feira, 29 de maio de 2017.

“Quando eu entrei no prédio do Secretariado das Nações Unidas pela primeira vez como secretário-geral em janeiro, minha primeira ação foi depositar uma coroa de flores homenageando mais de 3,5 mil funcionários da ONU que morreram à serviço da paz. Mais tarde naquela mesma semana, dois capacetes-azuis foram mortos na República Centro-Africana, onde trabalhavam para prevenir que confrontos violentos entre comunidades se transformassem em assassinatos em massa. Os soldados de paz das Nações Unidas colocam-se à frente do perigo todos os dias, entre grupos armados que tentam se matar ou causar danos aos civis.

Um número incontável de vidas foram salvas e melhoradas pelos serviços de manutenção de paz da ONU nos últimos 70 anos; incontável número de famílias destruídas pelas guerras ganharam um novo começo. Pesquisas independentes mostram o valor da manutenção da paz: previne que a violência se espalhe; e tipicamente reduz o número de civis mortos em mais de 90%, comparado com índices antes das tropas de paz chegarem.

Também sabemos que a manutenção da paz tem um custo-benefício. O orçamento das missões de paz da ONU é de menos de 1% dos gastos militares globais, e é compartilhado entre todos os 193 Estados-membros da ONU. Estudos dos Estados Unidos mostram que as missões de paz tem um custo-benefício oito vezes maior  do que quando os Estados Unidos agem sozinhos. Esse investimento compensa muito mais quando consideramos o crescimento econômico e a prosperidade que surgem com o aumento da estabilidade e da segurança após missões de paz de sucesso.

No nosso mundo interconectado, o surgimento do terrorismo global significa que a instabilidade em qualquer lado é uma ameaça em todos os lugares. As operações de paz das Nações Unidas estão na linha de frente dos nossos esforços em prevenir o aparecimento de regiões sem leis, onde insegurança, crime transnacional e extremismo podem prosperar. São um investimento na paz global, na segurança e na prosperidade.

Nossas missões tem contribuído para um legado de estabilidade, desenvolvimento e crescimento econômico, de El Salvador a Namíbia, de Moçambique ao Camboja. 54 operações de paz completaram seus mandatos e foram encerradas; outras duas, na Libéria e na Côte d’Ivoire, vão fechar nos próximos meses.

Enquanto as Nações Unidas enfrentam desafios e falhas em nossos esforços para a manutenção da paz, devemos também reconhecer os sucessos da nossa missão pela paz.

A República Centro-Africana enfrentava a ameaça do genocídio quando os boinas-azuis chegaram no país há dois anos. Atualmente, o país elegeu um novo governo, num processo pacífico e democrático, e está lutando para seguir para o caminho da paz e da estabilidade, do desarmamento e do Estado de Direito. Nossa missão, Minusca, está fornecendo apoio crucial para reduzir a ameaça imposta pelos grupos armados, mas a situação continua sendo um desafio. É assustador imaginar as consequências trágicas caso os soldados de paz não estivessem no país.

No Sudão do Sul, os boinas-azuis da ONU oferecem refúgio para mais de 200 mil civis que fugiram quando suas casas foram destruídas pelos confrontos. Enquanto a fome assola o país, os soldados de paz estão fornecendo segurança para que agências humanitárias consigam entregar ajuda que pode salvar vidas.

A paz mundial, como conceito, pode parecer algo muito abstrato, mas a paz no terreno depende de um trabalho altamente sacrificante que se prolonga um dia atrás do outro, em circunstâncias tão difíceis quanto perigosas. O mundo confia nas equipes de manutenção da paz das Nações Unidas, que estão presentes onde ninguém mais pode ou quer estar, apesar dos vários obstáculos que enfrentam.

Muitas vezes, nas operações de paz das Nações Unidas encontramos uma brecha entre nossos objetivos e os meios que temos para alcança-los. Em muitos locais, os boinas-azuis são enviados onde os lados em conflito mostram pouco comprometimento com a paz. Nossas missões são cada vez mais alvo das partes em conflito e de extremistas violentos.

Lidar com essa nova realidade requer uma reforma estratégica séria da nossa parte, baseada em análises dos mandatos e das capacidades das nossas missões e das nossas parcerias com governos. Devemos adaptar as operações de paz aos ambientes perigosos e desafiadores que enfrentam.

Já fizemos reformas que reduziram de forma significativa os custos e nos deram maior flexibilidade para enviar soldados de paz de forma rápida. Mas muito mais precisa ser feito. Estou determinado a trabalhar com governos, organizações regionais e outros parceiros para garantir que as forças de manutenção da paz tenham os intrumentos e regras necessárias.

A reputação das missões de paz das Nações Unidas ficou marcada nos últimos anos por casos lamentáveis de exploração sexual e de abusos, que são uma violação chocante de tudo o que valorizamos. Combater esse flagelo é uma prioridade para todo o sistema das Nações Unidas. Eu apresentei um plano aos Estados-membros que busca acabar com a impunidade, e criar postos de defensores dos direitos das vítimas, tanto nas missões de paz quanto nos escritórios da ONU. Eu pretendo fazer com que os líderes mundiais participem desses passos críticos.

Quando as pessoas ao redor do mundo são questionadas sobre suas prioridades, de Nova Iorque a Nova Déli, do Cairo à Cidade do Cabo, elas dão a mesma resposta. Elas querem segurança, criar seus filhos em paz e fornecer educação e oportunidades necessárias para moldar seu futuro.

Os boinas-azuis da ONU são uma de nossas maneiras de contribuir para essa aspiração universal e tornar o mundo um lugar mais seguro para todos.”

 

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