ONU: batalha por Alepo na Síria pode ser considerada crime de guerra
BR

1 março 2017

Alerta consta de relatório preparado pela Comissão Internacional Independente de Inquérito chefiada pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro; documento cita ataques deliberados a hospitais e comboios humanitários.

Edgard Júnior, da ONU News em Nova Iorque.

A Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre a Síria, chefiada pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, afirmou que a batalha pelo controle da cidade de Alepo pode ser considerada crime de guerra.

O relatório divulgado esta quarta-feira em Genebra cita a campanha de bombardeio com ataques deliberados a hospitais e a comboios humanitários na região entre julho e dezembro do ano passado.

O chefe da comissão, Paulo Sérgio Pinheiro, disse que o relatório mostra à comunidade internacional “o contínuo e cínico desprezo pelas leis de guerra pelas partes em conflito na Síria”.

De Genebra, em entrevista à ONU News, Pinheiro falou sobre os crimes de guerra.

“A extensão dos crimes de guerra é muito larga. Eu vou dizer alguns: em consequência aos ataques aéreos pela Síria ou pela Rússia, o uso de bombas incendiárias e de armas químicas proibidas e o ataque ao comboio humanitário de 17 caminhões. Nós só podemos atribuir a responsabilidade da Síria no caso do comboio humanitário e o uso do cloro como arma química proibida. Em relação aos outros eventos nós não tivemos condições de atribuir à Rússia nenhuma responsabilidade específica.”

Pinheiro falou também sobre o impasse político para resolver o conflito.

“O impasse político é devido ao envolvimento de vários Estados-membros das Nações Unidas que não se põem de acordo em relação ao cumprimento da resolução do Conselho de Segurança que propôs um plano para chegar a um governo de transição. Agora mesmo em Genebra, está havendo negociações e nós temos esperança que essas negociações possam continuar a ser aprofundadas.”

Guerra medieval

A comissão de inquérito realizou quase 300 entrevistas, inclusive com moradores de Alepo, analisou imagens de satélite, fotografias, vídeos e documentos médicos.

Os especialistas da ONU registraram os bombardeios realizados pelas forças sírias e russas no leste de Alepo durante vários meses e que destruíram várias infraestruturas básicas vitais com consequências desastrosas para a população civil.

O relatório diz que ao usar “táticas de cerco brutais reminiscentes de uma guerra medieval para forçar a rendição dos rebeldes”, as forças do governo sírio e seus aliados impediram a população de ter acesso à comida e suprimentos básicos.

A comissão de inquérito afirmou que em novembro do ano passado, as forças pró-governo sírio assumiram o controle do leste de Alepo. Nenhum hospital ou clínica de saúde estava funcionando. Para os investigadores, o ataque intencional a essas instalações de saúde significam crimes de guerra.

Estratégia

A comissão documentou também como grupos armados atacaram áreas urbanas no oeste de Alepo causando muitas mortes de civis.

Os especialistas explicam que muitas dessas operações foram feitas sem uma estratégia militar e tiveram como objetivo nada mais do que aterrorizar a população civil.

Escudo humano

O ataque matou 14 trabalhadores humanitários, destruiu 17 caminhões carregados de ajuda e suspendeu toda e entrega de assistência no país, agravando ainda mais a situação dos civis.

O relatório diz ainda que os bombardeios deliberados destruíram também escolas, orfanatos, mercados e residências tornando a vida da população impossível e precipitando a rendição.

Os investigadores afirmaram que na região leste de Alepo, grupos armados dispararam contra a população civil para evitar que as pessoas fugissem da área, basicamente usando-as como escudo humano.

As forças pró-governo sírio executaram vários rebeldes combatentes ou so que pareciam apoiar a oposição, incluindo seus parentes.

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