Discurso: sessão especial sobre “Cooperação para Paz: Combatendo as Causas das Crises Globais”

30 janeiro 2017
Discurso do secretário-geral da ONU na sessão especial sobre “Cooperação para Paz: Combatendo as Causas das Crises Globais”
“Muito obrigada, Professor Schwab. É bom retornar a Davos, ainda que eu comece dizendo que estamos vivendo num mundo perigoso.
Vemos a proliferação de novos conflitos; velhos conflitos parecem nunca ter fim. Os conflitos estão tornando-se cada vez mais interconectados, e mais ligados à nova ameaça do terrorismo global.
Em muitos casos, são conflitos internos, assimétricos, com violações terríveis da lei humanitária internacional e da lei de direitos humanos. Eles são resultados das fragilidades dos Estados, de instituições, de sociedades, e num mundo onde as relações de poder tornaram-se confusas – não apenas a imprevisibilidade e a impunidade tendem a proliferar-se, mas também é muito difícil para a comunidade internacional evitar as crises e resolvê-las a tempo.
Ao mesmo tempo, se alguém observa a interconexão das grandes tendênciais mundiais – crescimento da população e movimentos das pessoas, mudança climática, insegurança alimentar e escassez de água – nós vemos que elas estão cada vez mais associadas, aumentando uma a outra e criando situações nas quais mais pessoas tornam-se deslocadas ou onde podem surgir tensão e conflitos.
E mesmo avistando os maravilhosos resultados da globalização e do progresso tecnológico, um enorme aumento da riqueza mundial, o facto de que o comércio tenha multiplicado enormemente nas últimas décadas. Se observarmos como as condições de vida melhoraram e como a pobreza absoluta foi reduzida drasticamente, a verdade é que as desigualdades também cresceram terrivelmente e isso criou, especialmente por causa da globalização da comunicação, uma situação em que todos agora sabem o que está acontecendo em todas as partes do mundo. Isso criou uma enorme frustração em muitos setores da população, uma frustração que leva ao divórcio entre a opinião pública, sociedades e não apenas os establishments políticos, mas também organizações internacionais incluindo as Nações Unidas.
Neste contexto, está claro de que precisamos de um aumento da diplomacia para a paz, e eu penso que esta é uma das funções-chave do secretário-geral: de envolver-se pessoalmente na tentativa de criar as condições de resolver pelo menos alguns desses conflitos.
Eu acredito que existe apenas uma maneira de fazer isto. É a de convencer que os lados do conflito e dos países que têm influência sobre aquelas partes entendam que as guerras de hoje não produzem vencedores; todos estão perdendo, e de que as guerras estão se tornando não apenas uma fonte terrível de sofrimento das populações dos países em questão, mas também uma ameaça à estabilidade regional. E se olharmos hoje para a Síria ou o Iraque ou o Afeganistão, eles também são responsáveis por este tremendo aumento no terrorismo global.
Por isso, eu penso estar claro que com a ameaça, os países envolvidos devem compreender que eles precisão se unir e colocar um fim no conflito. Eu acredito que umas das funções do secretário-geral das Nações Unidas é de ser capaz, de juntamente com vários atores, e também respeitando as lideranças dos países-membros, de pressionar de modo mais forte, com o objetivo de pelo menos minimizar algumas das terríveis consequências que estamos enfrentando agora.
Mas para mim, está claro de que a prioridade para uma organização como as Nações Unidas, e eu diria a prioridade para a comunidade internacional, deve ser a prevenção -, prevenção de conflito, mas não apenas do conflito – prevenção de desatres naturais e de um certo número de outras ameaças que minam o bem-estar da população e do nosso planeta.
A prevenção não pode ser – especialmente quando falamos de prevenção de conflito – não pode ser reduzida a algum tipo de ação diplomática. Não. A prevenção precisa de uma abordagem ampla, e para uma organização como a ONU, a prevenção precisa de combinar os três pilares da ação: paz e segurança, desenvolvimento sustentável e direitos humanos. E precisa ainda reconhecer que a melhor prevenção ao conflito e a melhor prevenção para outros impactos negativos sobre as sociedades, é claro, o desenvolvimento sustentável e inclusivo.
E com relação a este ponto, nós precisamos tirar proveito dos ambiciosos acordos firmados no ano passado. O Acordo de Paris sobre Mudança Climática e o acordo para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030, para concordarmos em mobilizar, não apenas os governos, mas a sociedade civil, a academia e o setor de negócios. Precisamos aproveitar estes acordos e sermos capazes, numa nova forma de parceria, de transformá-los em áreas de ação que evitem os conflitos e outros dramas que enfrentamos hoje no mundo.
E isto significa que precisamos investir na resiliência das sociedades. Precisamos investir na força das instituições estatais e das sociedades civis. Precisamos investir na proteção dos direitos humanos. Nós precisamos investir na autonomia das mulheres. Mas também respondendo ao flagelo do desemprego juvenil, que é provavelmente o pior problema que enfrentamos atualmente, com consequências não apenas para o bem-estar das pessoas envolvidas e as sociedades, mas também para a segurança global, à medida que jovens desempregados em várias partes do mundo são a maior área de recrutamento para grupos terroristas.
Mas também para investir na resolução das necessidades básicas da população – da educação à saúde, água, saneamento, e para juntar os atores humanitários e de desenvolvimento, nomeadamente em situações frágeis que encaramos em várias partes do mundo.
E ao mesmo tempo, admitindo que todas as sociedades são agora multiétnicas, multireligiosas e multiculturais, para investir na coesão social dessas sociedades; para a diversidade tornar-se uma riqueza, não uma ameaça. Para que as pessoas possam ser capazes de ver que suas identidades são valorizadas, mas também para que elas sintam que pertencem a uma comunidade maior, para que as sociedades sejam inclusivas, e não se tornem uma fonte de confrontação, instabilidade, como infelizmente vemos em várias partes incluindo o mundo desenvolvido.
Agora, num contexto como este, e para sermos capazes de responder a estes desafios, eu penso ser muito importante que a ONU reconheça a necessidade de reforma. E eu selecionaria três áreas principais de reforma: a primeira de todas -, a reforma da estratégia e da arquitetura da paz. Hoje, essencialmente a ONU é conhecida por suas missões de paz, e essas missões consomem cerca de 70% do nosso orçamento. E a maioria de nossas operações ocorre em países onde não existe paz para ser mantida. Os capacetes azuis acabam tornando-se inevitavelmente parte do conflito, e em várias situações, isto cria ambientes extremamente difíceis e facilita o tipo de abusos que também mancham a imagem da ONU.
Nós precisamos assegurar que a prevenção e a consolidação da paz em países que finalmente emergem de conflito devem ser a prioridade das prioridades, e esperamos limitar nossos esforços de manutenção da paz no futuro ainda mais, graças a nossa capacidade de prevenir crises e permitir a preservação da estabilidade nas sociedades.
A reforma das áreas de paz e segurança da ONU, a reforma do sistema de desenvolvimento, baseado na coordenação e na prestação de contas, sermos capazes de apoiar inteiramente os países na implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, e a implementação do Acordo de Paris sobre Mudança Climática e finalment a nossa reforma de gerenciamento. As regras de pessoal, as regulamentações financeiras, as regras de orçamento da ONU – se elas fossem resultado de uma conspiração para não deixar a ONU trabalhar, elas se assemelhariam bastante às regras que temos agora. Obviamente, não existe nenhuma conspiração, mas o que acontece é o seguinte: na lógica da burocracia, o controle central tende a não permitir o desenvolvimento normal dos procedimentos adequados – descentralizando, simplificando as coisas; e a situação difícil entre o G-77 na Assembleia Geral e a chamada Quinta Comissão, com a desconfiança que existe, isto criou uma tendência ao chamado microgerenciamento, que por exemplo, não permite a criação de um posto num nível profissional baixo em nenhuma parte do mundo, sem que o mesmo seja aprovado pela Assembleia Geral.
Nós precisamos envolver todos os Estados-membros para lhes fazer compreender que existe uma estratégia na qual todos ganham, se a mesma estiver ancorada na simplificação, na descentralização, em mais flexibilidade e numa cultura de transparência e prestação de contas. Apenas uma ONU renovada pode tornar-se o motor de uma comunidade internacional capaz de transformar a prevenção numa prioridade real, e nós sabemos que isso não será fácil, porque as câmeras não estão lá quando um conflito é evitado; as câmeras apenas aparecem quando o conflito finalmente ocorre.
E o segundo aspecto que eu acredito ser absolutamente fundamental é o crescimento de uma nova geração de parcerias, parcerias não apenas com governos, não apenas com a sociedade civil e a academia, mas parcerias com a comunidade empresarial no contexto da perspectiva da implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e do Acordo de Paris sobre mudança climática, criando as condições para um desenvolvimento inclusivo e sustentável – o melhor caminho para prevenir crises e conflitos no mundo atual.
Eu penso que é importante notar, quando olhamos para o debate que ocorre aqui no Fórum Econômico Mudial, que existe hoje uma consciência perfeita de que o tarefa dos negócios não é apenas o negócio em si; e nós vimos como a responsabilidade corporativa desenvolve-se, vimos como a filantropia expandiu-se tremendamente nos últimos anos. Mas, o que me interessa particularmente é o alinhamento do negócio com o setor privado com as metas estratégicas da comunidade internacional.
Eu acho que já avançamos bastante, quando consideramos a economia verde e quando olhamos para os esforços de deter as mudanças climáticas. Mas está claro agora que existe um bom negócio a ser feito na economia verde, e que ela criou um grande número de oportunidades para o investimento lucrativo no setor privado. Eu diria que quando olhamos as ameaças que existem hoje entre a mudança climática e a possibilidade de uma ação de menor apoio por parte de alguns governos, os melhores aliados de todos estes que querem assegurar que o Acordo de Paris seja implementado, os melhores aliados hoje no mundo estão provavelmente no setor empresarial, e é muito importante mobilizá-los inteiramente.
Mas até na implementação da Agenda 2030, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, foi feito um cálculo recente que mostra que o retorno dos investimentos nesta área podem gerar, no caso da implementação completa das metas, algo em torno de US$ 30 bilhões (ou US$ 30 mil milhões) por ano. Isto significa que temos aqui uma oportunidade de gerar investimentos que são atrativos para o setor privado e simultaneamente permitir que o setor privado desempenhe um papel absolutamente essencial em assegurar que os Objetivos sejam efetivamente atingidos. Sem o setor privado não conseguiremos a inovação necessária, nós não teremos a capacidade necessária para descobrir novos mercados, novos produtos, novos serviços e sermos capazes de desenvolver novas áreas na economia. Sem o setor privado, não criaremos novos postos de trabalho suficientes, não traremos dinamismo e estabilidade às sociedades que precisam ser realçadas com a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
E por isso eu acredito que existe agora uma nova oportunidade para uma plataforma inédita de parceria, em alto nível. Uma plataforma para parceria que possa server não apenas à implementação dos objetivos e a definir o passado, mas a responder aos desafios que nós iremos enfrentar em relação ao futuro e nomeadamente os impactos que já foram discutidos tantas vezes neste Fórum Econômico Mundial, a chamada quarta revolução industrial, e os desafios que a comunidade internacional enfrenta em áreas como engenharia genética ou inteligência artifical e os problemas do espaço cibernético, nos quais, de acordo com a minha profunda convicção, apenas com um diálogo muito forte e uma parceria entre governos, organizações internacionais e o setor privado, seria possível transformá-los em instrumentos que nos permitam um crescimento fantástico no bem-estar das pessoas e a evitar os riscos que seriam um pesadelo para a Humanidade, como infelizmente, uma forma totalmente desregulada de pesquisa em algumas destas áreas poderiam eventualmente acabar gerando.”
Davos, 19 de janeiro de 2017.

 

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