Especial: As caixas que financiam sonhos em Moçambique

7 novembro 2016

Comunidades contornam dificuldades financeiras, falta de emprego e problemas do clima que afetam a produção; governo, Nações Unidas e ONGs estimulam empreendimentos locais que movimentam progressos onde não há bancos.

Eleutério Guevane, da Rádio ONU em Nova Iorque.

Em Závora, província moçambicana de Inhambane, milhares acreditam em ideias próprias que, sem gastar muito dinheiro, podem mudar as suas comunidades. Nas áreas rurais, mais de 53% de moçambicanos vivem abaixo da linha de pobreza.

Grupos de créditos e poupança ajudam as pessoas a ir atrás dos seus projetos na área banhada pelo Oceano Índico. Em Moçambique, seis em cada 10 pessoas não têm acesso a um banco.

Comunidades

As dificuldades financeiras, a falta de emprego e o clima que afeta a produção no país são desafios que, nessa área, juntam-se à grande distância para chegar aos bancos. Para movimentar dinheiro é preciso viajar pelo menos 25 km.

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Pnud, apoia uma iniciativa de adaptação nas zonas costeiras em colaboração com o governo. O administrador de Inharrime, Luís Simbine, vê as comunidades a dirigirem o seu próprio avanço.

Recursos e Benefícios

“Temos recursos. Temos muitos recursos. O problema é transformar esses recursos em benefícios para nós mesmos.”

Para moradores de Závora, todos os problemas ainda não são motivos para se deixar abalar. A Rádio ONU também testemunhou o dia-a-dia de vários moçambicanos que celebram por terem ultrapassado essas privações.

Galinhas

Uma sala de cimento do tamanho de um pequeno contêiner chama as atenções no povoado. Centenas de galinhas poedeiras estão organizadas em fileiras e em níveis diferentes. O projeto é um dos exemplos de como essas comunidades se juntam para encontrar saídas para desenvolver-se.

Felizarda Cumbane e Angélica Nhakalele são sócias no negócio. Elas dão de comer e beber às aves enchendo as várias vasilhas.

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Foto: Rádio ONU

As parceiras no empreendimento têm também em comum o facto de serem mães e cuidarem sozinhas das suas famílias. Quando abraçaram o negócio, viviam em casas precárias, mas agora cuidam de um projeto que as faz sonhar mais alto.Prédio

Felizarda disse que a sua meta é construir uma casa de cimento, mobilar, vedar o terreno de mais de um hectar e levar os seus cinco meninos à escola.

Angélica quer comprar um carro e construir um prédio na área. Ela não vai descansar até dirigir o seu próprio veículo.

A dupla é famosa por garantir que os mais de 2 mil habitantes locais não tenham falta de ovos. O alimento é também servido a centenas de turistas que se hospedam numa instância internacional que fica a poucos metros do negócio.

O dinheiro dos grupos locais fez nascer e crescer vários projetos com o apoio de  ONGs que seguem a sua execução. A Diretora Provincial da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural, Felizarda Mangoele, disse que a transformação da área é visível.

Prosperar

“Há uma grande concorrência. Há necessidade de trabalhar para conseguir trazer dinheiro para a caixa. Isso é muito importante para os moçambicanos. Trabalhar para o país desenvolver.”

Depois da recolha dos fundos para a caixa, a entrega dos fundos é uma decisão do grupo que analisa e aconselha a quem concorre. Várias famílias contam que prosperaram com o financiamento que depois é devolvido em prestações.

Helena Norberto começou com porcos mas já cria coelhos que esgotaram porque saem a menos de um dólar cada. Uma das poucas fêmeas que restam está prenha e é por ela acariciada no quintal onde também são vendidos frangos.

Ela conta que trata com cuidado os suínos porque foram a primeira compra depois de receber o financiamento.

Casa

Ela confirma que e chegava a caminhar horas para ter uma lata de água. Hoje pode ter o quanto quiser em casa.

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Foto: Rádio ONU

A caixa financia sistemas que distribuem água, alimentados por painéis de energia solar. As energias poupadas da caminhada para a busca de água servem para planear a construção de infraestruturas como matadouros de frangos e porcos.A comunidade espera que os bancos chegem e encontrem as mulheres que antes analfabetas, passam a dominar contas e argumentar porque querem fundos para resolver os seus problemas.

O administrador do Banco de Moçambique, Valdemar de Sousa, disse que neste tipo de atividades os bancos comerciais devem fazer a sua parte.

Emprego

“Temos que encontrar mecanismos de como estas pessoas tenham acesso aos serviços financeiros para que realizem várias iniciativas no quadro de empreendedorismo porque a capacidade de absorção de emprego não é feita pelo sistema formal.”

A mudança para uma vida com mais qualidade é celebrada com família, vizinhos e amigos. António Mazivila, chefe comunitário vê-se a liderar um projeto urbano.

“Se isto assim continuar, Sihane vai crescer como acontece com uma cidade. Será como bairro e não um povoado. Com esta poupança que elas andam a fazer todos vamos ter emprego.”

Cada novo negócio é para esta comunidade de  Závora pretexto para um compasso de dança à espera da banca para dar mais dinheiro e ampliar sonhos.

O Pnud apoia Moçambique em iniciativas de áreas como governação, coesão social e consolidação da paz.

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