“Salvando o barco: uma resposta global para refugiados e migrantes”
BR

16 setembro 2016

Em editorial para o jornal americano The Boston Globe, secretário-geral da ONU afirma que questão é suscetível “à manipulação por parte de demagogos”; leia a íntegra do texto de Ban Ki-moon.

Ban Ki-moon, secretário-geral das Nações Unidas.*

Entre os assuntos da agenda global, talvez não haja nenhum que seja mais suscetível à manipulação da retórica dos demagogos do que a questão dos refugiados e migrantes.

“Nós” contra “eles” é um fator de unificação tão antigo quanto irresponsável, usado ao longo da história por aqueles que buscam ocultar nossa humanidade comum em benefício de seus perigosos interesses pessoais.

Violência

A diferença é que hoje existem mais pessoas deslocadas do que nunca e, numa época em que os relatos se propagam com a rapidez de um vírus, vemos como cresce a xenofobia e como isso, com frequência, causa o aumento da violência.

A Conferência das Nações Unidas sobre Refugiados e Migrantes, que acontece na segunda-feira, 19, representa um avanço significativo em um momento crucial. Diante de tantas vozes estridentes dominando o debate, governos de todo o mundo estão respondendo em tons comedidos, que podem dar resultados reais se as promessas forem cumpridas.

No Encontro de Cúpula, os líderes mundiais estarão reunidos pela primeira vez para tratar de forma específica a questão dos refugiados e migrantes. Será adotado um acordo inovador: a Declaração de Nova York.

Diversidade vibrante

É muito apropriado que esse documento preste homenagem a uma cidade conhecida por sua diversidade vibrante, simbolizada pela Estátua da Liberdade em seu pedestal na baía de Nova York. É importante realçar que a Declaração tem uma abordagem pragmática e de princípios para tratar os desafios das pessoas desalojadas e ao mesmo tempo, defender nossos valores mais apreciados.

Existe muito em jogo. Existem 244 milhões de migrantes no mundo. Mais de 65 milhões de pessoas foram deslocadas à força, a metade delas crianças. Os refugiados fogem para salvar suas vidas, mas com muita frequência enfrentam perigos durante sua jornada em busca de segurança. Quando chegam, muitos sofrem discriminação e alguns são até presos.

Chance arriscada

Enfrentando dificuldades num mundo móvel, eles viajam para mais longe em busca de segurança e estabilidade. Mas os meios de conseguir refúgio legal são escassos, e traficantes sem escrúpulos aproveitam para levar vantagem, cobrando uma quantia exorbitante para uma chance arriscada de escapar.

As guerras estão durando mais tempo e os refugiados estão achando difícil retornar para casa – em alguns casos, o período de deslocamento se prolonga por várias gerações.

Ao contrário da impressão geral, a maioria dos refugiados não está em países ricos; 86% estão no mundo em desenvolvimento. E os países mais pobres que abrigam refugiados não estão recebendo ajuda suficiente. No ano passado, as Nações Unidas receberam somente um pouco mais da metade do financiamento pedido nos apelos humanitários.

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Ban Ki-moon. Foto: ONU/Mark Garten

ReassentamentoOpções de reassentamento são uma fração do que deveriam ser. No ano passado, foram identificadas quase 1 milhão de pessoas que precisavam de reassentamento, mas somente 100 mil foram transferidas.

Os desafios são enormes – mas não podemos esquecer os benefícios. Com a abordagem certa, refugiados e migrantes podem trazer benefícios para as sociedades que os adotarem e para os seus países de origem. Essa vantagem tão bem documentada não pode ser esquecida nos debates.

A Declaração de Nova York deve ser vista num contexto maior de novos e ambiciosos esforços internacionais para melhorar as condições onde as pessoas vivem, para que elas não sejam obrigadas a fugir.

Um ponto central para isso é a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, nosso plano global para paz e prosperidade em um planeta saudável. Também estamos pressionando para evitar e resolver conflitos – e para manter a paz quando as armas forem silenciadas.

Jogos Olímpicos

A reunião de alto nível contará com testemunhos daqueles afetados diretamente. Tenho um interesse especial em reencontrar uma jovem extraordinária que eu conheci no mês passado durante os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro.

Yusra Mardini é síria – mas ela competiu no novo time de refugiados criado com atletas que, assim como milhões de pessoas no mundo, foram obrigados a deixar sua terra natal.

Antes de nadar em competições, Yusra estava numa corrida para salvar vidas. No ano passado, ela deixou a Síria em um barco superlotado. Quando o motor do barco parou de funcionar, ela pulou no Mar Egeu e começou a empurrar a embarcação, junto com outras pessoas do grupo que sabiam nadar.

Solidariedade

Foram três horas até alcançarem a costa. Eles chegaram exaustos, mas provaram o poder da solidariedade humana para nos guiar a um lugar seguro.

A humanidade está junta em um só barco. Se temos medo, se culpamos “os outros” ou utilizamos as minorias como bodes expiatórios, apenas estaremos aumentando os riscos para todos.

Líderes inteligentes entendem que o mais correto é salvar a todos, otimizar as contribuições de cada um e conduzir nosso navio para um destino comum: um futuro de oportunidades e de dignidade para todos.

*Tradução: Leda Letra, Rádio ONU.

 

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