"Escala chocante de violência sexual" revelada em relatório sobre Sudão do Sul

11 março 2016

Mais de 1,3 mil casos de estupro ocorreram em apenas um estado; Escritório de Direitos Humanos cita crianças e pessoas com deficiência queimadas ou sufocadas em contentores; abusos podem ser considerados crimes de guerra e contra a humanidade.

Eleutério Guevane, da Rádio ONU em Nova Iorque.

Um relatório publicado esta sexta-feira pelas Nações Unidas cita violações de direitos humanos que incluem uma "política de terra queimada" do governo e o ataque deliberado a civis para matar, estuprar e pilhar no Sudão do Sul.

O estudo revela relatos dados por civis suspeitos de apoiar a oposição, sobre crianças e pessoas com deficiência que morreram "queimadas, sufocadas em contentores, com tiros, enforcadas em árvores ou cortadas em pedaços".

Unidade

O Escritório dos Direitos Humanos descreve a "escala da violência sexual particularmente chocante" ao indicar um registo de mais de 1,3 mil relatos de estupro no estado de Unidade, rico em petróleo, entre abril e setembro de 2015.

O informe cita "fontes credíveis a dar conta de grupos aliados ao governo autorizados a violar mulheres em substituição de salários". O documento frisa que mulheres e meninas também são alvos de grupos da oposição e criminosos.

O Escritório destaca que a prevalência do estupro sugere que o seu uso no conflito tornou-se uma prática aceitável pelos soldados do Spla e das milícias armadas afiliadas.

Responsabilidade pelos Crimes

A equipa que elaborou o estudo esteve no Sudão do Sul entre outubro e janeiro, e indica que a maior responsabilidade pelos crimes coube a "atores estatais".

O documento destaca atos como ataques contra civis, desaparecimentos forçados, violações e outros abusos que poderiam ser considerados crimes de guerra e contra a humanidade.

O conflito no Sudão do Sul iniciou em dezembro de 2013, após divergências entre o presidente Salva Kiir e o então vice-presidente e líder rebelde Riek Machar. Estima-se que milhares de pessoas tenham morrido e mais de 2,3 milhões foram deslocadas.

Todas as partes são responsabilizadas por ataques a civis, estupros e outros crimes de violência sexual, prisões e detenções arbitrárias, raptos, privação de liberdade e desaparecimentos forçados. As ações incluem ataques contra o pessoal das Nações Unidas e instalações de manutenção da paz.

Violações Coletivas

O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos disse que a quantidade de estupros e das violações coletivas descritas no relatório deve ser "apenas um retrato do real total".

Zeid Al Hussein disse tratar-se de uma das situações mais horríveis dos direitos humanos no mundo com o estupro massivo como instrumento de terror e arma de guerra ainda que tenha sido mais ou menos fora do radar internacional.

Desde o ano passado, crianças suportam o peso da violência tendo sido "mutiladas, violadas, recrutadas para hostilidades”. Houve um aumento acentuado nos relatos de abusos.

Vítimas de Estupro

As Nações Unidas tiveram relatos de 702 menores afetados por incidentes de violência sexual desde o início do conflito, que incluem casos de vítimas de estupro com nove anos.

O governo e a oposição são responsabilizados pelo uso de grupos de jovens armados com adolescentes. Os relatos apontam para 617 crianças-soldado recrutadas em 2014.

Destruição Sistemática

Imagens de satélite confirmaram relatos da destruição sistemática das cidades e vilas em toda a área do sul e do centro do estado de Unidade pelas forças governamentais e milícias em 2014 e 2015.

O relatório sublinha que a situação "sugere uma estratégia deliberada de privar os civis que vivem na área de qualquer forma de subsistência ou de apoio material".

Pelo menos "9.878 estruturas residenciais foram destruídas" em Malakal, no estado do Alto Nilo em 2014. Os danos foram causados a cerca de um quarto da capital do estado.

 

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