Exclusiva: confissões de Mia Couto no Dia Mundial da Poesia
Escritor moçambicano, Mia Couto faz revelações sobre as fontes de inspiração para o estilo que o celebrizou: a prosa poética.
O vencedor do Prémio Camões e do Prémio Internacional Neustadt de Literatura conversou com a Rádio ONU sobre este 21 de março, Dia Mundial da Poesia declarado pela Unesco.
Com quatro publicações de poesia, o sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras conta quem foram os seus inspiradores lusófonos além da Espanha e da França.
Nesta conversa com Laura Gelbert, Mia diz haver um lado sagrado da poesia sem o qual “não seremos sociedades nem pessoas felizes".
Acompanhe.
Tempo: 02'27''
Rádio ONU (RO): Mia Couto, é Dia Mundial da Poesia e você tem diversos trabalhos publicados em prosa e também em poesia. Pode dizer qual é a importância da poesia para você?
Mia Couto (MC): Acho que a poesia é mais do que um género literário: é uma maneira de olhar o mundo. É uma maneira de manter uma sensibilidade que nos faz resgatar uma pertença e um parentesco com as coisas, com os seres e com as criaturas do mundo. Eu acho que nós perdemos muito quando ganhamos uma visão mais objetiva do mundo. Perdemos um pouco aquela coisa que seria o lado metafórico. Uma linguagem metafórica que permite, por outo lado, ter uma proximidade das coisas. Poesia não é apenas um género literário. É uma maneira de estar e de olhar o mundo.
RO: Quais sãos as suas principais inflências na poesia, de paises de língua portuguesa e dos outros?
MC: Principalmente são do Brasil, devo confessar que veem do outro lado do Atlântico. Com João Cabral de Mello Neto, com Drummond de Andrade, com Manuel Bandeira, com o Manuel de Barros, com Adélia Prado, a Cecília Meireles e o Vinicius. Também de Moçambique com o José Craveirinha. De Portugal, sobretudo, há dois nomes que acho que não é possível esquecer que é o Fernando Pessoa, o meu maior mestre, e também a Sophia de Mello Breyner que tem uma poesia que é muito marcada por uma espécie de linguagem muito luminosa e muito solar. Fui muito marcado pela Sophia de Mello Breyner.
RO: Algum poeta de países de línguas, além da portuguesa, que influenciaram o seu trabalho também?
MC: Sim, o meu pai era poeta. Quando eu nasci, nos finais da década 50 e anos 60, havia ainda uma marca de influência muito grande. A nossa casa tinha as estantes com bastantes obras de poesia e eu era marcado pela poesia francesa: Paul Éluard, René Char, André Breton e também alguns espanhóis. Eu acho comecei por aí, sem saber o que era a Espanha e a França. Porque nós vivíamos em Moçambique e sempre vivemos. Era uma coisa muito nebulosa mas a poesia era como se fosse uma nação. Era uma pátria onde toda essa gente vivia.
RO: Para concluirmos, você pode dizer para a gente e para os ouvintes da Rádio ONU um verso que você se lembre que seja um dos seus favoritos?
MC: É uma vergonha, porque escrevi versos e versos, tenho quatro livros de poesia e mesmo quando escrevo prosa estou a escrever poesia sempre. Eu nunca me recordo de alguma coisa que eu tivesse feito. É só uma pequena frase que é "eu sou um outro", do Rimbaud, que é uma coisa que me parece muito importante porque não é só um verso. É uma espécie de filosofia inteira que está dentro desse verso.
RO: E mais algum outro tópico que você queira abordar sobre esta questão?
MC: Seria bom resgatar esse lugar da poesia, a visão poética do mundo como alguma coisa que não é específica de uma certa sensibilidade de um artista. Deve ser retomado esse lado mais ou menos sagrado que a poesia nos pode devolver. Não seremos sociedades nem pessoas felizes se esse lugar central da poesia não estiver preenchido. Um abraço para todos, obrigado.
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