Retrospectiva 2012: Capítulo 3

20 dezembro 2012

Relembre os fatos que marcaram as Nações Unidas e o mundo entre julho e setembro deste ano, no terceiro capítulo da série especial.

A reportagem destaca a renúncia de Kofi Annan como enviado especial para a Síria, a visita da Prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi às Nações Unidas e a 67ª sessão da Assembleia Geral.
Eleutério Guevane, da Rádio ONU em Nova York. 
A segunda metade do ano começa com um novo líder no Egito. Mohammed Mursi assume funções como primeiro presidente-eleito, após queda de Hosni Mubarak que governou o país por 30 anos. A ONU elogiou o povo egípcio pelo pleito pacífico.

Soam ritmos de Timor-Leste. A 7 de Julho, o destaque foram as eleições legislativas aplaudidas pela ONU. O pleito foi vencido pelo partido de Xanana Gusmão, Cnrt, no país de língua portuguesa tido por modelo de sucesso de missões de paz.

Líbia

Na mesma data, a Líbia também realizou um pleito parlamentar apoiado pelas Nações Unidas.  Cerca de 2,8 milhões de pessoas votaram nas primeiras legislativas em 48 anos.

Num mês distinguido por eventos históricos, uma festa para celebrar o primeiro aniversário da independência do Sudão do Sul.

Após décadas de conflito com o Sudão, 9 de Julho assinalou um ano do nascer da mais jovem nação africana que marcou o culminar de um processo de paz facilitado pelas Nações Unidas.

Na cidade holandesa de Haia, 10 de Julho abrigou a primeira sentença do Tribunal Penal Internacional, TPI, em uma década de existência. Foi o desfecho do caso de Thomas Lubanga,  tido como senhor da guerra da República Democrática do Congo.

O juíz Adrian Fulford sentencia a prisão de Lubanga, a 14 anos pelo recrutamento e uso de crianças-soldado nas forças rebeldes no nordeste do país africano, em 2002 e 2003.

Cplp

Ainda em Julho, Moçambique assume a presidência rotativa da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, Cplp. Ao receber o testemunho, de Angola, as autoridades moçambicanas herdam o dossier Guiné-Bissau.

Três meses após o golpe militar no país-membro, a reunião de Chefes de Estado e de governo, em Maputo, marcou o continuar da busca de uma solução, após expectativas avançadas pelo embaixador de Moçambique junto da ONU, como explicou o embaixador do país, António Gumende.

“Está-se a trabalhar no sentido de se estabelecer as medidas sancionatórias, mas prevejo que medidas como sanções poderiam ser acomodadas como acontece noutras organizações.”

Mas foi a estratégia de Combate à Fome da Cplp que veio a marcar a Cimeira de Maputo. A parceria entre o bloco e a Organização da ONU para Agricultura e Alimentação, FAO, pretende ter impacto em 28 milhões de pessoas nos países de língua portuguesa.

Fome

Inspirado no combate à fome, Gilberto Gil apresentou o Concerto de Cordas e Máquinas de Ritmo.

Gilberto Gil em concerto em Roma

O músico brasileiro e embaixador da Boa Vontade da FAO escolheu o tema para dar a volta ao mundo, no ano em que celebrou 70 anos. As motivações foram dadas a conhecer à Rádio ONU, antes do astro subir ao palco, em Roma.

“O sistema não tem sido capaz de alimentar todo o mundo. Muita gente abaixo da linha de pobreza, então não é mais só uma preocupação das famílias, dos pais, das mães de dois, três ou quatro filhos. Senão da família planetária, porque  é uma questão grave.”

Em Agosto, o enviado especial da ONU e da Liga Árabe à Síria anuncia que deixa o cargo, seis meses após ter sido nomeado.

Renúncia 

Kofi Annan explicou que a decisão deveu-se ao que chamou  clara falta de união no Conselho de Segurança e também devido ao escalar da campanha militar.

Ao reagir à renúncia, o Secretário-Geral da ONU disse que Annan merece profunda admiração pelos esforços  ao lidar com o que chamou “uma das tarefas mais difíceis e ingratas.”

No Médio Oriente, repetiam-se relatos da saga de refugiados, como testemunhou à Rádio ONU  a libanesa-brasileira Amuli Abdouni.

“Tem muitos refugiados, várias pessoas abrindo as casas para receber outras pessoas.Os libaneses estão recebendo os Sírios que estão passando bastante necessidade e comida, roupa.”

Por outro lado, o chefe da Comissão da ONU para investigar os Direitos Humanos na Síria, Paulo Sérgio Pinheiro, deplorou o que chamou “situação desesperadora”.

“Em termos de terreno, em termos militares houve uma escalada, tanto por parte do governo como da oposição. Por consequência disso, aumentaram também as violações dos direitos humanos. Nós não podemos entrar no país, o que é um sério obstáculo”, defendeu.

Até então, a estimativa de mortos no conflito sírio era de 17 mil.

Mulheres 

Em entrevista à Rádio ONU, a chefe da entidade das Nações Unidas que promove maior autonomia feminina, Michelle Bachelet, convidou os homens a fazer parte dos êxitos no combate à violência contra a mulher e a promover o seu acesso ao empreendedorismo, com base nas tecnologias.

“Os homens são muito importantes na luta pelos direitos da mulher. Precisamos de homens que elevam a voz para dizer que a violência contra a mulher não é uma coisa aceitável.”

O frente-a-frente entre a Rádio ONU e a antiga presidente chilena analisou os desafios da ONU Mulheres, pouco mais de um ano após a sua fundação.

Beyoncé na Assembleia Geral da ONU

O ritmo, a voz e o rosto da estrela da música norte-americana Beyoncé marcaram a campanha global para chamar a atenção para o trabalho humanitário, a 19 de Setembro.

Foi com uma plateia ao vivo na Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque, que Beyoncé gravou o videoclipe "I Was Here", ou Estive Aqui.

Mais de 1 mil milhão de pessoas aderiram à iniciativa, através das redes sociais, para encorajar o envolvimento internacional em fazer "algo bom para os outros."

Ainda em Setembro, a defensora dos direitos humanos birmanesa e Prémio Nobel da Paz, Aung San Suu Kyi, percorreu a sede da ONU e encontrou-se com o Secretário-Geral, Ban Ki-moon.

Falando a jornalistas, Aung San Suu Kyi disse que a paz começa nos corações das pessoas. A parlamentar declarou que quando o interesse é a paz, há que afastar o ódio.

Assembleia Geral  

O fim de Setembro marcou o arranque dos debates de alto nível do considerado fórum central da diplomacia mundial. A 67ª. Sessão da Assembleia Geral da ONU é aberta pelo presidente do órgão, o sérvio Vuk Jeremic. 

Ban Ki-moon maior esforço aos líderes mundiais para resolver crises. O Secretário-Geral afirmou que o tempo é de tumulto, e fez alusão à publicação de um vídeo anti-islâmico que gerou reações violentas em vários países.

Para Ban, muitos são tolerantes à intolerância. O dirigente apelou à comunidade internacional a não olhar para nenhum lado perante a violência.

Mais de 100 líderes mundiais que participaram no encontro, mencionaram o conflito na Síria. O Brasil deu atenção à questão nas declarações da presidente brasileira, Dilma Rousseff, à Rádio ONU, após discursar no plenário.

Dilma Rousseff em entrevista à Rádio ONU

“Não há solução militar na Síria. A única solução é diálogo e diplomacia. Essa é a grande contribuição que o  Brasil pode dar.”

A fome, a crise económica, a política monetária e o protecionismo marcaram o segundo pronunciamento de Dilma Rousseff no órgão, desde que foi eleita.

Na sua estreia no pódio da Assembleia-Geral, o presidente de Cabo Verde,  Jorge Carlos Fonseca, pediu uma maior presença internacional para promover a paz em África.

“A opção pela política de paz, de diálogo e de entendimento é a emanação do modo de ser e de estar dos cabo-verdianos”, defendeu.

Países Lusófonos 

O líder cabo-verdiano falou do combate ao tráfico de drogas na África Ocidental, da qual o país faz parte, e a situação pós-golpe na Guiné-Bissau.

O então primeiro-ministro são-tomense, Patrice Trovoada, pediu uma interação internacional mais forte na resolução de conflitos.

Moçambique defendeu que sejam revistas operações de paz para dar mais atenção ao papel de entidades regionais e sub-regionais. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Oldemiro Balói,  destacou necessidade de reformas nas Nações Unidas.

“Urge prosseguirmos com maior vigor a agenda de reforma do sistema da ONU em particular do Conselho de Segurança e a revitalização do funcionamento da Assembleia Geral”, sublinhou.

No ano em que celebrou 10 anos de paz, Angola referiu-se aos ganhos do fim da guerra civil e os desafios de transformação de recursos em riqueza.

A finalizar, Portugal a realçar o caráter do português como veículo para cultura, comércio e cooperação globais, na voz do embaixador junto das Nações Unidas, José Filipe Moraes Cabral.

“Continuaremos a trabalhar em conjunto para que o português venha a ser reconhecido como língua oficial das Nações Unidas”, declarou.

José Filipe Moraes Cabral

A última nação lusófona a usar a tribuna da Assembleia Geral, durante a semana de debates, disse que não iria baixar a guarda com o fim da sua jornada como membro não-permanente do Conselho de Segurança, em Dezembro.

O tema é tratado no próximo capítulo desta retrospetiva, que aborda o último trimestre de 2012.

Apresentação e Reportagem: Eleutério Guevane

Produção: Leda Letra.

Edição: Mônica Villela Grayley.

Assistência de Produção: Denise Costa.

Técnica: Rosie Starr. 

Ouça Também:

Retrospectiva: Capítulo 1

Retrospectiva: Capítulo 2 

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