Gangues forçam deslocamento de família em Honduras

16 junho 2011

Conheça a história de uma entre milhares de famílias na América Central obrigadas a deixar o país por causa de bandidos que aterrorizam a região; texto faz parte da nova campanha “1” do Acnur sobre conscientização global do tema.

Mariana Echandi, na Cidade do México, México.*

Quando a violência das gangues começou a perturbar a vida dos cidadãos da comunidade de San Pedro Sula, em Honduras, Miguel** decidiu tomar uma posição. Ele se juntou a um grupo de pessoas que se unem para formar um dos vários comitês de vigilância que começaram a surgir no país em 1996.

Estes grupos de cidadãos têm a esperança de convencer os integrantes das gangues a deixarem a vida de violência e participarem da construção de uma sociedade forte, com base na lei.

Caso Isolado?

Mas ao invés disso, as gangues se viraram contra as pessoas da comunidade. “As gangues mataram 18 cidadãos do grupo de vigilância da minha região”, lembra Miguel, dizendo que a decisão de fugir com a família veio após uma gangue tentar recrutá-lo como membro. “Eu disse que eu tinha família, filhos, que não podia fazer isso”, adiciona.

Este não é um caso isolado. O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, Acnur, registrou um aumento no número de pessoas procurando asilo no México, Canadá e Estados Unidos, citando como motivo a ameaça da violência das gangues e o recrutamento forçado em países como Guatemala, El Salvador e Honduras.

A ONU acredita que cerca de 70 mil jovens façam parte de gangues violentas na América Central. Estes grupos estão envolvidos em atividades que incluem tráfico de drogas, prostituição, assalto violento, roubo armado e assassinato.

Fogo Cruzado

As gangues são formadas basicamente por jovens, mas outros acabam envolvidos no fogo cruzado entre os grupos rivais. Muitas pessoas são obrigadas a pagar por proteção. Os grupos não simpatizam com pessoas como Miguel, que tentam enfrentar a forte influência e poder das gangues nas zonas urbanas.

Quando as gangues passaram a arruinar a vida da família, Miguel e a esposa, Josefina, levavam uma vida honesta, com planos para o futuro e para criar os dois filhos, um com oito e o outro com seis anos. Mas depois que Miguel tentou barrar os avanços das gangues, a situação ficou impossível.

Medo

“Você passa a viver diariamente com medo. Se as crianças fossem na loja da esquina, na feira, qualquer lugar, você fica preocupado que alguma coisa pode acontecer”, diz Josefina, que é de El Salvador. Ela estava grávida quando os problemas começaram e integrantes de uma gangue ameaçaram matar Miguel.

A família teve que mudar de casa várias vezes, mas a perseguição nunca parou. A gangue finalmente conseguiu localizar Miguel e atirou nele na frente da casa da família. Atingido por uma bala em um braço, ele só se salvou porque se jogou no chão.

A fuga

Miguel foi levado às pressas para o hospital. Ele deu queixa à polícia, mas teve conciência que a sorte estava acabando. Decidiu mandar as crianças para El Salvador para ficarem com a sogra.

A esposa e ele partiram logo depois para o país vizinho. Mesmo assim, Miguel ainda não conseguia se sentir seguro, sabendo que a mesma gangue também operava em El Salvador.

Rota de Imigração

Então veio a decisão de partir para o México, seguindo uma rota de imigração tomada por milhares de pessoas, entre eles refugiados e asilados, tentando chegar ao México ou a América do Norte.

Foram 10 dias de viagem, quase todo o trajeto caminhando, até chegarem ao sul do México, na cidade de Tapachula. “Nós passamos fome e cheguei a mendigar para dar comida para as crianças”, disse Josefina ao Acnur.

Roubo e Desespero

“Nós passamos a primeira noite no México em um hotel onde nos cobraram US$ 1 pela noite. Nós estávamos tão cansados”, relembra ela.

Quando a família acordou, eles descobriram que alguém tinha roubado todos os documentos e a pouca bagagem que carregavam, incluindo as roupas e sapatos das crianças. “Eu fiquei com tanto ódio, eu tinha tomado tanto cuidado com as roupas durante a viagem, aquelas eram as únicas coisas que tínhamos”, conta Josefina, com lágrimas nos olhos.

A família decidiu mudar para um albergue especial para imigrantes, onde foram informados pela Acnur que tinham o direito de solicitar status de refugiados. Foi durante o período em que esperavam os resultados do processo que Josefina deu à luz. Pela constituição, o bebê dela tem direito imediato à nacionalidade Mexicana.

Direito à Proteção

O Acnur acredita que pessoas fugindo da violência das gangues e perseguição de grupos de crime organizado têm direito à proteção. No ano passado, a agência de refugiados publicou um guia para ajudar os países a lidar com estes tipos de casos. Mas o Acnur também acredita que Um Refugiado Obrigado a Fugir é Muito.

Miguel e Josefina agora se concentram no futuro. Se receber o asilo, Miguel tem planos de encontrar um emprego e fazer um nova cirurgia no braço atingido pela bala.

Josefina tem esperança que as crianças voltem para a escola e que a família possa reconstruir a vida no México.

*Tradução: Daniela Gross, da Rádio ONU em Nova York.

**Os nomes na matéria foram modificados por motivos de proteção.

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