3ª Meta: Cabo Verde e Igualdade de Gênero (Português Brasil)

27 julho 2010

Ainda faltam cinco anos para o mundo cumprir os oito objetivos que prometeu. 2015 é o prazo final para o alcance das Metas do Milênio. Mas um balanço global dos avanços e ações que ainda precisam ser tomadas acontece este ano. Em uma série de programas especiais, a Rádio ONU vai analisar a situação mundial sob a perspectiva dos oito países de língua portuguesa. Os problemas e as soluções, as falhas e os progressos.No terceiro programa da nossa série especial, Cabo Verde e a 3ª meta: promoção da igualdade de gênero e capacitação das mulheres.

Carlos Araújo, da Rádio ONU em Nova York.*

"Uma mulher completamente disposta e disponível para fazer de tudo para conseguir a comida para sustento da casa. Uma mulher que não depende do parceiro para levar o seu dia adiante. Uma mulher que procura a cada dia superar os desafios e continuar a progredir".

Retrato

O retrato da mulher caboverdiana traçado por Vanilde Furtado. Essa profissional de 30 anos simboliza os avanços feitos pelas mulheres desde a independência do país, em 1975.

Os progressos foram tão significativos que cinco anos antes do prazo final para o cumprimento das Metas de Desenvolvimento do Milênio, Cabo Verde já cumpriu a meta número 3, sobre a promoção da igualdade de gênero e capacitação das mulheres.

O objetivo pede o acesso paritário em todos os níveis de ensino básico e secundário até 2005 e a outros níveis da educação até 2015.

Em Cabo Verde, a disparidade não só foi eliminada em todas as etapas, como existem agora mais meninas do que meninos nas escolas e nas universidades do país.

Mas para Cláudia Rodrigues, presidente do Instituto caboverdiano para a Igualdade e Equidade de Gênero, a igualdade entre homens e mulheres ultrapassa a simples paridade na educação.

"É a participação de mulheres na política, é o combate à violência baseada no gênero, são as oportunidades econômicas. Portanto, ainda temos estes desafios a enfrentar", afirmou.

Apesar dos avanços registrados na situação das mulheres em Cabo Verde, elas continuam a ser discriminadas no mercado do trabalho. Clara Barros é conselheira para questões de gênero do sistema da ONU na cidade da Praia.

"A taxa de desemprego é elevada de forma geral em Cabo Verde, 21%, e é muito mais alta entre as mulheres que entre os homens: 28% para as mulheres e 15% para os homens", disse.

Distribuição de Tarefas

Para Cláudia Rodrigues, a tradicional distribuição de tarefas familiares em Cabo Verde limita a participação feminina no mercado de trabalho.

"A conciliação da vida familiar é muito complicada ainda devido aos estereótipos sexistas que existem numa sociedade patriarcal, que condiciona muitas vezes as oportunidades das mulheres no mercado de trabalho", disse.

Essa opinião é partilhada por Clara Barros, que acrescenta um outro fator: a percepção cultural sobre qual é o papel das mulheres na sociedade.

"As mulheres com um papel mais reprodutivo, os homens com um papel mais produtivo. Tudo isto se traduz nas oportunidades de acesso aos cargos públicos, privados e ao que se espera das mulheres e dos homens", afirmou.

Vanilde Furtado reconhece estes obstáculos, mas aponta mudanças.

"Hoje, é tão comum encontrar mulheres na área da mecânica, como mulheres na administração pública ou mulheres ligadas à área de saúde", ressaltou.

No dominío da participação das mulheres na vida política, um outro indicador importante da Meta do Milênio número três, Cabo Verde fez progressos importantes em alguns setores, mas ainda tem um longo caminho a percorrer em outros, como afirma Cláudia Rodrigues.

"Cabo Verde é um exemplo mundial. A nível do governo nós somos o segundo país do mundo que conseguiu um governo paritário. Temos oito ministras mulheres e oito homens ministros. No entanto, nas câmaras municipais e no parlamento, a porcentagem é baixíssima", disse.

Feminização

A feminização da pobreza é uma outra questão que preocupa as autoridades de Cabo Verde, segundo Clara Barros, conselheira da ONU para questões de gênero.

"A pobreza afeta principalmente as famílias chefiadas por mulheres. Se nós tomarmos 100 famílias pobres, 56% são chefiadas por mulheres", afirmou.

Um outro desafio importante para as mulheres em Cabo Verde é o fim da violência de gênero. Segundo dados oficiais citados pela ONU, 1/5 da população feminina no país diz ter sido vítima de violência doméstica no ano passado. O parlamento caboverdiano vai debater no final de julho um projeto de lei especial de combate à violência baseada no gênero.

Vanilde Furtado reconhece a gravidade da situação.

"Há muitas mulheres que sofrem, que são vítimas de violência doméstica e é uma questão que está sendo tratada cada vez com maior afinco em Cabo Verde", afirmou.

O acesso paritário a todos os níveis de ensino é um indicador importante, mas a verdadeira igualdade de gênero em Cabo Verde vai além dessa medida. Para Cláudia Rodrigues, a capacitação das mulheres no país só será real quando as escolas se transformarem em catalizadores de boas práticas e de socialização dessas práticas para homens e mulheres.

"É no espaço escola que podemos mudar as mentalidades e quebrar os estereótipos sexistas que persistem ainda e acabam por perpetuar as discriminações contra as mulheres", disse.

Lacunas de Gênero

A cinco anos do prazo final de cumprimento das Metas do Milênio, as Nações Unidas revelam que as oportunidades de educação para meninas aumentaram em todas as regiões do mundo mas lacunas de gênero ainda persistem nos países pobres e de rendimento médio.

A ONU afirma também que mais mulheres entraram no mercado de trabalho, apesar de ocuparem os empregos mais vulneráveis. Revela ainda que mais mulheres estão em parlamentos e que os maiores avanços foram feitos no sul da Ásia e América Latina e Caribe, onde elas ocupam agora mais de 20% das cadeiras legislativas.

*Apresentação: Daniela Traldi, da Rádio ONU em Nova York.

Produção e Reportagens: Carlos Araújo

Coordenação de Projeto: Carlos Araújo

Direção Geral: Michele DuBach

 

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