1ª Meta: O Brasil e a Fome (Português África)

8 junho 2010

Ainda faltam cinco anos para o mundo cumprir os oito objetivos que prometeu. 2015 é o prazo final para o alcance das Metas do Milénio. Mas um balanço global dos avanços e ações que ainda precisam ser tomadas acontece este ano. Em uma série de programas especiais, a Rádio ONU vai analisar a situação mundial sob a perspectiva dos oito países de língua portuguesa. Os problemas e as soluções, as falhas e os progressos. Na primeira reportagem, o Brasil e a fome.

[caption id="attachment_165814" align="alignleft" width="175" caption="Luta contra a fome"]

Daniela Traldi e Eduardo Costa Mendonça, da Rádio ONU em Nova Iorque.*

"Nós estamos vindo do serviço no momento".

São duas horas de caminhada diária na estrada. Argemiro Torres Filho vai para o serviço equipado com o facão na cintura, a cesta de palha nas costas e um par de chinelo nos pés. O trabalho no campo exige fôlego, uma rotina de 14 horas.

"Nós plantamos mandioca, milho, feijão, arroz. O que dá pra gente comer a gente vai plantando", afirma.

Sobrevivência

Argemiro mora e trabalha em região próxima a Alcântara, cidade do estado brasileiro do Maranhão, um dos mais pobres do país, a uma hora e meia de barco da capital São Luís. O trabalho na roça é para a própria sobrevivência. Ás vezes ele consegue dois dias de serviço remunerado por semana.

"É R$ 20 a diária. A gente trabalha uma diária ou duas e ganha só esses R$ 20 ou R$ 40", diz.

Mesmo ganhando pouco, ele diz que não passa fome. Mas o risco é constante. Argemiro está à margem de uma estatística assustadora. Estimativas do Banco Mundial mostram que 1,4 mil milhão de pessoas em países em desenvolvimento viviam em extrema pobreza em 2005.

Indivíduos que ganhavam menos de US$ 1,25 por dia, como explica à Rádio ONU, de Santiago, o representante regional da FAO para a América Latina e Caraíbas, José Graziano da Silva.

"Há duas maneiras de medir a fome. Pela insuficiência de alimentos que as pessoas comem e pela renda que as pessoas recebem, que permite ou não comprar pelo menos uma cesta básica", diz.

Dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação mostram redução de 8 milhões de pessoas famintas na América Latina e Caraíbas entre 1990 e 2005. Mas a recente crise financeira no mundo provocou um retrocesso na região nos últimos anos.

"A situação é mais dramática na América Central, que além da crise no preço dos alimentos sofreu o impacto de uma forte seca. E também um forte impacto nas Caraíbas, afectada por muitos furacões", afirma.

Já os países da América do Sul conseguiram um melhor desempenho devido à exportação de alimentos e à pouca dependência da importação de petróleo. No caso do Brasil, o cenário positivo caminhou em conjunto com políticas públicas, na avaliação de Graziano.

Políticas Públicas

"O Brasil tem uma série de leis que asseguram direitos aos cidadãos, direitos de forte repercussão social, como é o caso do programa de aposentadoria, dos programas de assistência social, mas principalmente o caso recente do Bolsa Família e das políticas do programa Fome Zero", ressalta.

O Brasil já cumpriu a meta número 1, que prevê a redução pela metade da fome e da extrema pobreza, segundo o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome do país, Romulo Paes de Sousa.

"Nós vamos muito além do que é a Meta do Milénio para os outros países. Nós vamos chegar a 1/4 apenas de famílias extremamente pobres", diz.

Mas, apesar dos avanços, o país ainda tem população de 11,9 milhões de subnutridos, de acordo com estatísticas da FAO.

"A pobreza no Brasil hoje se distribui simultaneamente em municípios muito pequenos onde há parcela expressiva da população vivendo em áreas rurais e também nas grandes cidades".

A origem do problema, segundo José Graziano da Silva, está na distribuição de renda.

Segurança Alimentar

"Nós temos a pior distribuição possível na região, pior distribuição de renda, pior distribuição na posse da terra. Um grande número de pessoas vivendo no campo sem terra. Isso faz do Brasil um campeão da desigualdade na América Latina", afirma.

A desigualdade também tem seu peso na situação mundial. 10 milhões de pessoas morrem todos os anos de fome e doenças associadas, e a escalada nos preços dos alimentos pode empurrar mais 100 milhões de pessoas para o flagelo absoluto. O progresso é menor na África Subsaariana, que ainda regista taxa de pobreza de 50%.

A FAO diz acreditar que o cumprimento global da primeira meta, com a redução da pobreza extrema e da fome pela metade, só será alcançado até 2015 se houver um esforço dos países para a garantia do rendimento e da segurança alimentar dos cidadãos.

*Apresentação: Carlos Araújo, da Rádio ONU em Nova Iorque.

 

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