Série Mudança Climática: Acordo em Copenhague? (3)

10 dezembro 2009

Carlos Araújo, da Rádio ONU em Nova York*.

No terceiro episódio da série da Rádio ONU sobre Mudança Climática, vamos analisar as possibilidades de sucesso na conferência de Copenhague. Quais os principais obstáculos que dificultam um acordo, como as alterações climáticas estão afetando os mais pobres e vulneráveis e o que vai estar em jogo na reunião das Nações Unidas na capital dinamarquesa?

Há muitas gerações, os antepassados de Mustapha Adamou costumavam pescar no Lago Chade sem qualquer problema. Ele cobria 25 mil km2 de extensão e era um dos maiores do mundo.

Maré Baixa

Hoje em dia, Mustapha e os seus irmãos tem de lutar contra a falta de água e o desaparecimento de muitas espécies de peixes.

Mustapha Adamou diz que quando a maré está baixa eles podem ainda pescar, mas o maior problema é a incapacidade para usar botes a remos.

O Lago Chade perdeu 80% da sua capacidade nos últimos anos. As condições climáticas mudaram e a subida da temperatura acelerou a evaporação das suas águas.

Andes

Enquanto isto, nos Andes, os glaciais estão derretendo.

Felipe Crispín Candori, um agricultor que vive em Pucurami, ao lado do Glacial Ausagante no Perú, diz que o futuro da sua família está em risco.

Ele afirma que teme pelos seus filhos quando o Ausagante e as suas neves desaparecerem.

Nem Mustapha nem Felipe tem qualquer dúvida sobre a ocorrência de mudanças climáticas. No entanto, o que agora é óbvio, antes era visto com ceticismo.

Revolução Industrial

A comunidade científica lançou o alarme pela primeira vez há cerca de 40 anos. Mas o fenômeno teve início no século 19.

A revolução industrial conduziu à queima crescente de combustíveis fósseis, desmatamento e certos métodos de cultivo da terra.

Isto contribuiu para quantidades cada vez maiores de gases que provocam o efeito estufa na atmosfera, especialmente dióxido de carbono, metano e óxido nitroso.

Tais gases ocorrem com naturalidade e são cruciais para a vida no planeta. Eles impedem a reflexão no espaço de parte do calor solar e sem eles o mundo seria um local frio e árido.

Aumento da temperatura

Mas quando a sua quantidade na atmosfera aumenta de forma assustadora, eles podem provocar a subida da temperatura para níveis artificiais elevados e alterar o clima.

Desde o fim do século 19 a temperatura média na face da Terra sofreu um aumento de 0,74ºC. Essa mudança levou quase um século para se concretizar. Os cientistas esperam que a temperatura volte a subir entre 1,8ºC e 4ºC até o ano 2100.

Em outras palavras, mesmo se a previsão mais otimista se concretizar, o aumento será maior em um século do que nos últimos 10 mil anos.

De acordo com cientistas, um aumento na temperatura da terra superior a 2ºC acima dos níveis pré-industriais, desencadearia alterações climáticas maiores do que os que ocorrem hoje em dia. Rajendra Pachauri, o chefe da Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, disse que algumas das alterações são irreversíveis. O órgão da ONU foi recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2007.

Refugiados

Segundo Pachauri, qualquer aumento acima de 1,5ºC até 2,5ºC poderia levar à extinção de 20% a 30% de todas as espécies animais no planeta. Ele diz que outro desenvolvimento perigoso é a possiblidade do colapso da Groenlândia e das geleiras do Antárctico Ocidental. Se isto acontecer, afirma Pachauri, o nível da água do mar subirá vários metros provocando dezenas, senão centenas de milhões de refugiados do clima.

Governos estão atualmente reunidos em Copenhague em uma conferência patrocinada pela ONU para concordarem sobre a redução de gases que causam o efeito estufa.

Cerca de 100 países apoiam a tomada de medidas para evitar que a subida de temperatura seja superior a 2ºC.

Mario Molina é um cientista mexicano que ganhou o Prêmio Nobel de Química em 1995.

Riscos

Ele afirma que a ciência apenas estabelece o que vai acontecer com o aumento de certos gases que provocam o efeito estufa. Para Molina, cabe aos políticos decidir que riscos seriam aceitáveis. Para o pesquisador mexicano existe consenso sobre um aumento de 2ºC. Na sua opinião, trata-se de um objetivo realizável, mas seria prudente não ultrapassá-lo.

O debate sobre fórmulas para mitigar o impacto de alterações climáticas é intenso e acalorado. Por um lado, os países em desenvolvimento pedem às nações industrializadas para reduzirem as suas emissões, afirmando que elas são as principais responsáveis pela situação atual.

Os Estados industrializados estão dispostos a fazer algumas reduções. Mas também querem que nações emergentes, como a China e a Índia, assumam o compromisso de diminuírem os gases que emitem.

Impactos

Enquanto caminha sobre um lago seco, Samuel Kikoso, um membro da etnia Massai, na aldeia Ndope, em Gagadi, no Quênia, interroga-se sobre o impacto real das mudanças climáticas.

Ele afirma que há muitos anos, a vida era muito melhor. Havia água suficiente e pasto para as vacas. Mas agora o tempo é imprevisível e as vacas morrem devido a seca. Kikoso diz que no futuro não haverá mais vacas pois a estação seca é cada vez mais longa e elas não irão sobreviver.

No último século, a maior parte das mudanças climáticas que ocorreram no planeta foram causadas por atividades humanas.

As manifestações deste processo tornam-se mais óbvias todos os dias. Para alguns, essas preocupações são exageradas. Para outros, fenômenos como o aumento do nível do mar devem ser levados a sério. Um país como as Ilhas Maldivas, no Oceano Índico, por exemplo, pode vir a submergir num futuro não muito distante.

Maldivas

Em 24 de outubro, o governo das Maldivas reuniu-se no fundo do mar. O presidente Mohammed Nasheed e seus ministros vestiram equipamento de mergulho e efetuaram uma reunião submarina para debater a ameaça que o aquecimento global representa para o país.

Foi a primeira reunião oficial subaquática de um governo. O objetivo deste golpe publicitário foi relembrar aos participantes da conferência de Copenhague que o arquipélago poderá ser totalmente submergido em 2100 se ações concretas não forem tomadas.

Para resolver algumas dessas ameaças ao clima, a atenção da comunidade internacional tem estado concentrada na redução de gases que provocam o efeito estufa através do uso de energias renováveis eficientes.

Urgência

A ciência já demonstrou que o dióxido de carbono leva séculos para desaparecer da atmosfera. É por isso que é urgente resolver a questão das emissões o mais depressa possível.

A reunião de Copenhague será crucial para o futuro do planeta. Os glaciais do Ártico continuam a derreter, as secas e as tempestades são cada vez mais extremas e

O tic tac irreversível dos ponteiros do relógio soa cada vez mais alto.

*Apresentação: Daniela Traldi, Rádio ONU, Nova York.

Produção: Jorge Myiares

Direção Geral: Michelle DuBach

 

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