Bagdá: Sobrevivência & Memória

Bagdá: Sobrevivência & Memória

Em 19 de agosto fez quatro anos que um atentado a bomba à sede da ONU, em Bagdá, matou 22 funcionários da organização. Na sexta 17, o Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, depositou uma coroa de flores em memória das vítimas em Nova York.

Vamos começar com Salim Lone, que lembra os últimos momentos de Sérgio Vieira de Mello, considerado pelos colegas da ONU, uma estrela em ascensão.

Lone disse que na manhã do dia em que morreu, Sérgio estava feliz e tranqüilo. Ele conta que todos que conheciam Vieira de Mello podiam dizer que ele era charmoso, inteligente e trabalhador. Mas segundo o ex-diretor de comunicação da missão no Iraque, nas últimas semanas de vida, por causa da pressão do trabalho, Sérgio estava demonstrando sinais de estresse e tensão devido à violência no Iraque.

Lone explica que a situação no Iraque estava se deteriorando. Ele afirma que Vieira de Mello era a favor da transferência de poder imediata aos iraquianos para que eles próprios pudessem administrar o país. O ex-diretor de comunicação lembra que Sergio, um negociador experiente, visitou países vizinhos do Iraque para conversar com autoridades da região sobre o tema.

Nesta entrevista horas após a explosão, Salim descreveu o cenário de horror assim que o caminhão-bomba explodiu contra o Hotel Canal.

Lone conta que o vidro das janelas se partiu com a força da explosão. Ele lembra que viu muitas pessoas feridas e desnorteadas sem entender ao certo o que havia ocorrido.

Salim Lone afirma que uma uma das razões de ter escapado do ataque foi um pedido de Vieira de Mello para que ele redigisse um comunicado para imprensa naquela manhã.

O ex-diretor de comunicação de Sérgio Vieira de Mello lembra do chefe como alguém que ouvia sempre com atenção.

Lone conta que Sergio escutava sempre o que as pessoas em sua equipe tinham a dizer. Ele lembra que o grupo tinha bastante árabes e muçulmanos, o que ajudava Vieira de Mello a entender a cultura e a dinâmica do país.

E ao ser perguntado sobre a possibilidade de Sérgio Vieira de Mello, um dia vir a se tornar secretário-geral da ONU, Salim Lone respondeu.

Segundo ele, Sergio nunca se preocupou com se tornar secretário-geral. Mas segundo ele, um dia Sérgio chegaria com certeza ao posto pela sua competência e brilhantismo.

Um dia antes do ataque, Sérgio conversou com o então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e comentou que pretendia visitar a mãe, Gilda Vieira de Mello, no Rio de Janeiro, uma viagem que ele fazia, religiosamente, pelo menos uma vez por ano.

“Ele era carioquíssimo, adorava a praia do Arpoador onde eu moro. Uma vez, ele chegou aqui quase na hora do almoço e disse: ‘mãe, vou mudar a roupa e vou tomar um banho de mar rápido’. Era muito patriota. No meio de tudo isso que ele fazia pelos outros, ele não esquecia o Brasil e principalmente o Rio de Janeiro”, lembra.

Gilda Vieira de Mello conta que o interesse do filho por viajar e conhecer outras culturas começou desde pequeno quando acompanhava o pai diplomata pelas embaixadas mundo afora.

“Ele viajava conosco quando menino e depois ele deixou o Rio para estudar na Sorbonne, França, porque ele não se habituava mais ao estilo de estudos daqui. Faltavam muitos professores. O professor aqui é pago uma miséria. Ele estava num estilo de estudo muito duro, que era o francês. Em Roma nós estivemos cinco anos, ele foi ao Liceu Chateaubriand e sempre estudou em francês. Depois teve que voltar à França para estudar na Sorbonne, lá ele fez tudo, mestrado, doutorado, defendeu tese”, conta.

A mãe lembra de um dos maiores sucessos do filho, o Timor-Leste.

“No Timor-Leste foi ele que fez o país com todas as regras, com câmara, com congresso, tudo. Foi ele que fez o Timor-Leste. Ele encontrou um Timor-Leste queimado. Ele alugou um navio na Austrália para que tivessem lugar para comer, para dormir porque lá não havia nada”, afirma.

Em 33 anos de carreira na ONU, Sérgio Vieira de Mello ocupou várias funções de destaque. Antes de ir ao Iraque, ele era o alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos. Nesta entrevista à Rádio ONU em Português, em 1999, ele fala sobre a situação da época na província de Kosvo, na ex-Iugoslávia, onde ele ocupou o posto de representante especial do ex-secretário-geral, Kofi Annan.

“Não podemos tratar Kosovo isoladamente. É preciso integrar Kosovo num processo econômico e político que abarcaria os Bálcãs em geral. O que eu dizia de Kosovo também se aplica à Sérvia. Nenhum problema no sudeste europeu pode ser tratado fora do contexto regional. Não podemos resolver os problemas do Kosovo sem resolver os problemas dos países vizinhos, como também não podemos resolver o problema da Sérvia sem resolver ao mesmo tempo os problemas da Macedônia, de Kosovo, de Montenegro, da Albânia e até um certo ponto da Romênia e da Bulgária”, analisou.

Uma outra cerimônia em homenagem às vítimas ocorreu em 20 de agosto no Church Center, um espaço não-denominacional perto da sede da ONU em Nova York.

Reportagens e Destaques, programa da Rádio ONU em Nova York.

Apresentação: Mônica Valéria

Produção: Eduardo Costa e Helder Gomes

Direção técnica: Louis Bastion.