16 junho 2022

Às vésperas da realização da Conferência dos Oceanos, em Lisboa, Portugal, que começa neste 27 de junho, a ONU News conversou com Pedro Conceição; ele é o diretor do Escritório de Desenvolvimento Humano. Para o economista, o evento pode despertar a necessidade de investimentos por todos os países nos mares e a promoção da sustentabilidade e da economia azul num caminho que beneficiará a todos. Acompanhe a conversa com Eleutério Guevane.

ONU News: Olá, a ONU News está a estabelecer uma série de conversas que abordam a Conferência dos Oceanos, marcada para este mês em Lisboa. E tenho aqui comigo Pedro Conceição, diretor do Escritório de Desenvolvimento Humano, do Pnud. É muito bem-vindo a nossa conversa. Vamos começar por falar das principais questões em volta desta relação: degradação dos oceanos e efeito sobre a sobrevivência principalmente dos mais necessitados.

Pedro Conceição: Muito obrigado, Eleutério. É um prazer. Eu penso que é importante começar por salientar a importância que os oceanos têm para a vida das pessoas, eu diria em três dimensões e para o desenvolvimento de uma forma mais geral. Em primeiro lugar, os oceanos são uma fonte de oportunidades econômicas para uma grande parte da população mundial. São também uma fonte de alimentação. Quatro em cada 10 pessoas no mundo dependem dos oceanos para suas necessidades de proteínas, especificamente.

Os oceanos são também importantes para as pessoas porque representam uma forma de lidar com as alterações climáticas, por exemplo. Os oceanos absorvem uma grande quantidade de emissões de carbono e conseguem ajudar-nos a lidar com o aquecimento. Por isso, têm uma contribuição essencial para muitos aspectos da vida das pessoas. Eu diria também que nos ajudam na medida em que essa dependência dos oceanos não é igual para toda gente. Há países que são muitos mais dependentes dos oceanos que outros. E se não tivermos atenção à degradação dos oceanos, podemos correr o risco destes países, destes grupos, essas populações mais dependentes dos oceanos ficarem ainda mais para trás e aumentarem as desigualdades. Por isso, os oceanos são importantes para a vida das pessoas, para a economia, para alimentação, para redução das desigualdades e também para nos ajudar a lidar com as alterações climáticas.

 

ON: Temos oito países lusófonos dependentes inteiramente dos mares, é dali donde se tira os recursos. O que se espera de um evento como esse?

PC: Eu acho que esse evento vai ser muito importante porque nos vai ajudar a fazer duas coisas essencialmente: primeiro vai nos ajudar a investir mais nos oceanos. Se olharmos para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, aquele que está relacionado com os oceanos, o Objetivo 14, é aquele que tem tido menos investimento, que tem tido menos atenção por partes das autoridades. Por isso, essa conferência vai nos ajudar a investir mais nos oceanos, a ter mais recursos e vai ajudar-nos a combater a degradação dos animais marinhos e a degradação dos oceanos de uma forma mais geral.

 

ON: Então, continuando com as metas globais. Até que ponto o momento pós-pandemia que estamos aqui a viver, e a crise que se seguiu podem atrasar esse processo? Esta é a década decisiva?

PC: Podem atrasar ou podem nos dar um estímulo acrescido de fazer precisamente esses investimentos que são necessários porque se há uma coisa que a pandemia nos ajudou a perceber, foi que a forma como nós lidamos com a natureza apresenta riscos. Sabemos que a Covid 19 terá sido a última de uma série de doenças que saltam dos animais para humanos, e muito do aumento desse tipo de doenças  está relacionado com a pressão que nós estamos a pôr na natureza. Portanto, eu penso que este contexto que estamos a pensar naquilo que é importante fazer pós-Covid 19 pode nos dar um estímulo acrescido a fazer os investimentos que são necessários para proteger os oceanos.

Quase 3 bilhões de pessoas no mundo, a maioria em países em desenvolvimento, tiram seu sustento dos oceanos
© Beqa Adventure Divers
Quase 3 bilhões de pessoas no mundo, a maioria em países em desenvolvimento, tiram seu sustento dos oceanos

 

ON: Há vários grupos que se vão encontrar em Lisboa. E os jovens são dos que mais se expressam hoje. Acredita que estejam a ser mais ouvidos pelos líderes. O que falta para que esta interação aconteça e suas opiniões sejam levadas em conta principalmente nestas questões dos oceanos que são essenciais para a vida do planeta?

PC: Eu acho que a população mais jovem está muito mais ciente que a generalidade da população da importância que tem não só para as nossas vidas hoje em dia, mas especialmente para o futuro, a importância de combater as alterações climáticas, de proteger os oceanos. Eu acho que a voz da juventude tem que ser mais ouvida, eu acho que ainda não é suficientemente ouvida. E eu acho que a conferência vai ser também, mais uma vez, oportunidade para que toda a população mais jovem seja ouvida.

 

ON: Chegados a este ponto, no fim dessa conferência, uma declaração será suficiente, o que será preciso para se caminhar em direção a essa preservação que se deseja, nos próximos anos, e o mais cedo possível, como a ONU defende?

PC: A conferência não é um ponto de chegada. A conferência é um ponto no caminho de continuar a fazer investimentos na proteção dos oceanos. Eu julgo que se se a conferência nos ajudar a investir mais nos oceanos, por um lado, e por outro lado, nos ajudar a saber mais sobre os oceanos sobre a importância dos oceanos, e conhecê-los também melhor, a garantir que as pessoas conheçam a dependência que nós temos dos oceanos, vai ser um ponto importante neste caminho que nos vai levar a gerir melhor todos os desafios que enfrentamos no que diz respeito às pressões que estamos a pôr no nosso planeta no seu todo. Os oceanos são uma dimensão, as alterações climáticas são outras e todas essas pressões que estamos a pôr no planeta e estão a ser ameaças cada vez maiores às perspectivas que temos para o desenvolvimento de futuro, mas também começam a afetar muitas das populações em todo o mundo, hoje em dia.

Expectativa da ONU é que economia dos oceanos cresça para o dobro até 2030
Pnud/Pierre Michel Jean
Expectativa da ONU é que economia dos oceanos cresça para o dobro até 2030

 

ON: Algo mais a acrescentar?

PC: Eu diria que a conferência é também uma oportunidade para salientar, mais uma vez, a ideia de que proteger a natureza não é algo que está em conflito com o desenvolvimento econômico. Durante muitos anos, pensou-se que era um custo proteger a natureza, proteger os oceanos, que isso podia ser um impedimento ao crescimento econômico. E agora sabemos que isso não é assim. Que proteger a natureza, proteger os oceanos é acima de tudo um investimento. É algo que nos permite viver melhor hoje e especialmente permitirá às gerações futuras continuar a viver pelo menos tão bem como muita gente vive hoje em dia.

 

ON: Muito obrigado.

 

 

 

 

 

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