15 junho 2022

Ministra dos Negócios Estrangeiros de Moçambique falou à ONU News após eleição de seu país, por unanimidade, a uma vaga no Conselho de Segurança. Verónica Macamo disse que a nação africana tem uma rede de aliados e parceiros na luta contra o terrorismo; para ela, agenda de desenvolvimento sustentável é elemento chave para fortalecer resistência interna no futuro, quando forças aliadas partirem. 

Ao comentar a Conferência dos Oceanos, em Portugal, Verónica Macamo afirmou que Moçambique precisa de um plano de conservação dos oceanos para investir ainda mais na economia azul e criar oportunidades para a juventude do país. Acompanhe a conversa com Monica Villela Grayley. 

ONU News: A ONU News em Nova Iorque conversa com a Ministra dos Negócios Estrangeiros de Moçambique, Verónica Macamo. É o que se fala em inglês: todo mundo está falando da ministra nesses dias. Porque ela e sua equipe conseguiram uma coisa muito rara: todos os votos da Assembleia Geral para um lugar no Conselho de Segurança. Ministra, é vitória por todos os lados, como é que foi esse resultado?

Verónica Macamo: É resultado das relações que, na nossa opinião, Moçambique tem com vários países do mundo. Nós temos como política fazer mais amigos e estabelecer parcerias, particularmente as estratégias. Este é um dos elementos que seguramente contou: amizade e solidariedade que Moçambique tem com os vários países do mundo.

Conselho de Segurança das Nações Unidas
UN Photo/Manuel Elias
Conselho de Segurança das Nações Unidas

 

A segunda é a definição de uma estratégia clara focalizada em objetivos. Fomos definindo, ou redefinido, a nossa estratégia em função dos objetivos no prosseguimento da candidatura. Deixe-me dizer que nós temos um presidente pragmático. Um presidente que, efetivamente, sabe orientar o país quando há desafios desta natureza. Nós, no Ministério dos Negócios Estrangeiros, contamos muito com essa mão firme do presidente.

Começamos por avançar no nível da Sadc (Comunidade de Desenvolvimento da África Austral) para saber se temos o caminho aberto. Conversamos com eventuais países interessados e, de facto, se chegou à conclusão de que Moçambique é que poderia avançar.

Depois de termos esse aval mandamos a documentação para Nova Iorque, como é de praxe, para ver se estávamos de caminho livre e saber se havia alguma preocupação. E quando chegamos à conclusão de que o grupo africano não tinha nenhum problema, então começamos a trabalhar para obter o endosso da África. E é verdade que era um desafio, pois é preciso convencer os países todos. Esse trabalho foi feito pelos diplomatas, por quadros do nosso Ministério e por membros do governo. Fomos multiplicando os esforços para garantir que a nossa candidatura poderia passar na União Africana.

Tendo passado na região austral, efetivamente a região que vai ser apresentada desta vez, passar na União Africana foi uma lufada de ar fresco.  Foi mesmo mais uma garantia de que tínhamos caminho para passar.  

ON: Ela vai sendo construída aos poucos. Começa na região africana e vai falando com outros pares. Ao mesmo tempo não é uma negociação fácil porque são 193 países. A senhora imaginou essa unanimidade?

VM: Pois. Depois de termos conseguido o endosso da África, nós somos membros da Cplp, e tivemos o endosso da Cplp. Nós fazemos parte do concerto dos Países de África, Caraíbas e Pacífico e falamos com os países da África, Caraíbas e Pacífico. Falamos com os países da Commonwealth.  Não houve endosso sim, mas efetivamente houve esse go ahead. E foi muito bom para nós avançarmos com essa segurança. Também trabalhamos no âmbito dos países da Conferência Islâmica. Não são poucos países e sentimos que havia de facto esse apoio.

O Brasil é um grande amigo, com quem temos uma cooperação de longa data. As relações são excelentes. Contamos com todos, mas particularmente com o Brasil que fala a língua

A União Europeia tem sido um parceiro praticamente do dia a dia. E não era tão complicado para nós trabalhar com a União Europeia, porque de mesmo antes de ir para a União Europeia nós já conversamos com a União Europeia. E disse que estava conosco. De facto, foi assim que nós conseguimos avançar.

O chefe de Estado escreveu uma carta para todos os chefes de Estado. Ao nível do Ministério dos Negócios Estrangeiros, eu escrevi para os meus homólogos e fomos recebendo as respostas. Ficámos felizes, porque recebemos respostas de todos os países. Até a nossa vinda a Nova Iorque só faltavam 12 países.

O desafio era, sabendo quais os países que não teriam mandado as cartas e o compromisso de que iriam votar em nós, fomos trabalhando com aqueles países. Depois viemos aqui e trabalhamos com os mais velhos, como chamamos aos membros permanentes do Conselho de Segurança. Penso que com modéstia, com responsabilidade, nós conseguimos convencer todo mundo a votar em nós.

ON: O professor de Harvard já aposentado, Joseph Nye, fala de soft power. E parece que Moçambique tem soft power. Falou na coordenação e na liderança do presidente Nyusi. Mas temos aí a liderança do presidente, Moçambique é um país querido e a liderança de uma mulher, não? Porque a senhora foi a primeira presidente da Assembleia do seu país. E isso sua ajuda, não?

VM: Ajuda sim. Tendo sido presidente da Assembleia de Moçambique conhecia vários líderes, quer na região, quer na União Interparlamentar. É como se fossem as Nações Unidas da área parlamentar. Isso também ajudou, sem dúvidas.

ON: Ministra, e a língua portuguesa? Hoje é Dia de Portugal e das Comunidades. Dos Países de Língua Portuguesa, a senhora falou na Cplp, esse bloco que vai das Américas à Ásia. Está na Europa, na Ásia e na África. Até que ponto essa língua portuguesa também ajuda nessas negociações?

VM: Ajuda, porque nós temos concertação de esforços visando determinados objetivos. Estivemos a ver a questão da língua e a questão da mobilidade. Já há um acordo nesse sentido, mas também estamos a pensar em catapultar as nossas ações da área económica. Porque os nossos povos querem ter uma vida melhor. Nós pensamos que os países da Cplp têm recursos e oportunidades que podem ser partilhados para lograr criar o bem-estar para os nossos povos.

 

ON: E falando em língua portuguesa, a senhora vai encontrar o Brasil no Conselho de Segurança no seu último ano.

VM: Seguramente vamo-nos consertar. Vamo-nos concertar sem dúvida. O Brasil é um grande amigo, com quem temos uma cooperação de longa data. As relações são excelentes. Contamos com todos, mas particularmente com o Brasil que fala a língua.

ON: A gente pode imaginar que num canto ali do Conselho de Segurança vai se falar português...

VM: De certa maneira, sim.

ON: Ministra foi a primeira vez de Moçambique (como candidato). Por que é que o país até agora não tinha pensado em se candidatar? Nessa primeira vez também a expectativa aumenta, não é?

VM: Realmente houve algum ensaio, mas os moçambicanos são muito prudentes. Quando veem que as condições ainda não estão criadas não avançam. Moçambique tem essa maneira de ser. Não força. Procura sensibilizar e explicar as vantagens de estar num certo órgão, mas quando sente que as condições ainda não são criadas, deixa que os outros avancem. Já deixamos Angola passar, por exemplo. Deixamos um outro país também avançar. Portanto, sentimos que desta vez a correlação de forças estava a nosso favor.

ON: Vamos falar um pouco de Cabo Delgado, porque a comunidade internacional esteve e está ainda engajada. A senhora pode falar um pouco mais desses desdobramentos mais recentes. Mas por quê, ministra, é que de repente em Moçambique, um país pacífico e como a senhora falou bem-posicionado, esses problemas começam a acontecer? E numa área rica em recursos naturais?

VM: Não podemos afirmar taxativamente que é só por causa de recursos. Seguramente os recursos são chamados ao coração. Seguramente. Não pode ser por acaso que aparece numa área com reservas de petróleo e gás enormes lá. Mas, efetivamente, o que é importante é que o país está a se preparar. Está a organizar-se com os seus parceiros.

Nós temos agora o Ruanda e a Samim (força regional da Sadc) que é a força da Sadc. Mas nós temos apoio praticamente de todos os países. Há uns que estão a treinar e outros oferecem um importante e outro tipo de apoio.  É verdade que não é letal, mas há muita disposição de apoiar o país a enfrentar.  Porque, de facto, todos nós estamos cônscios de que não há possibilidade de um país sozinho para enfrentar o terrorismo. É um cancro do mundo dos temos que nos organizar para eliminar, ou então vai se espalhar e a tornar a vida das nossas comunidades e dos nossos países um inferno.

Nós temos como política fazer mais amigos e estabelecer parcerias, particularmente as estratégias. Este é um dos elementos que seguramente contou: amizade e solidariedade que Moçambique tem com os vários países do mundo

ON: E pensando na resolução desse desafio, e na presença de vocês aqui no Conselho de Segurança, existe um cronograma ou uma espécie de plano no que pode ser feito daqui para frente? Vamos falar daqui aos próximos meses, a um ano?

VM: Quando estamos a falar do desafio de Cabo Delgado, nós olhamos e concluímos que não é um desafio que pode ser vencido com guerra. Nós concluímos que era preciso haver uma conjugação de esforços. Há guerra sim, mas é preciso modernizar as forças de defesa e segurança. É preciso capacitá-las, porque nós temos apoio, mas não vai ser sempre.

É preciso garantir que quando os nossos amigos saírem, as nossas forças de segurança e nossos filhos possam fazer face ao problema se porventura ele voltar a existir. Mas também sentimos que os terroristas usam, e não é o pretexto fundamental, algumas fragilidades de cariz económico. Por exemplo, a falta de emprego. Nós não temos emprego para os nossos filhos todos. Eles aliciam aos nossos filhos com dinheiros que veem do submundo: do tráfico de droga e só Deus sabe de que mais atos ilegais. Para radicalizá-los contra seu povo e país. Então, estamos preocupados com desenvolvimento do norte de Moçambique, que abrange as províncias de Cabo Delgado e as províncias ligadas de Nampula e Niassa.

Pensamos que isso é muito importante e criamos a Agência de Desenvolvimento do Norte para desenhar as ações de desenvolvimento e que permitam a ocupação de jovens e mulheres. Estamos neste caminho. Neste momento, estamos a tratar de reconstrução de Cabo Delgado. Nós tivemos um número de 850 mil deslocados. A situação está melhor e está regressando, de facto.

Nós estamos a monitorar para que não voltem aos locais com desafios de segurança ainda sensíveis. Mas é preciso reconstruir, porque os terroristas são mesmo terroristas. É mesmo para aterrorizar e destruir. Matar, degolar e esquartejar era mesmo seu modus operandi.  Agora não conseguem efetivamente. Estão em debandada. Aas vezes um grupo está a cometer um ato ou outro. Mas, efetivamente, a ação das forças de defesa e segurança e seus aliados está a fazer efeito. Então sentimos que a questão dos jovens é muito importante.

Outra coisa é o tratamento de deslocados eu estão a querer voltar. Então, desenhamos um plano holístico e pensamos que vai funcionar. Não só de continuar a combater, mas também garantir que as condições das forças de segurança estejam à altura de enfrentar o terrorismo. Nós sempre tivemos treinamento. Mas uma coisa é treinar e outra é treinar para a luta contra o terrorismo.  

 

A União Europeia está a fazer um treinamento para esse efeito, mas também temos outros países que estão ajudando nesse processo. Quando estamos a falar em reconstrução, nós estamos a contar com amigos.  Pensamos no Banco Mundial e agências das Nações Unidas. Mas estamos a falar de reconstrução a contar com os amigos. Estamos a falar num esforço que tem de resultar em repor escolas, hospitais a repor estradas de fundo idas a garantia do comércio volta fluir porque aquilo foi uma destruição maciça, de quem quer mal para pessoas e para o país. Foi mais ou menos isso. Há um plano, não estamos a andar ao acaso. Estamos a respeitar um plano.

Nós pensamos que estando no Conselho de Segurança não vamos tratar só de problemas de Moçambique. Mas os problemas de Moçambique fazem parte dos problemas do concerto das nações. Vamos ter apoio para efetivamente tratar daquele problema em concreto. para além do que já estamos a fazer. 

ON: Eu tenho mais uma pergunta antes das considerações finais. Eu sei que a senhora vai voltar bastante aqui nos próximos dois anos. Vamos falar de oceanos e jovens. Essa conferência em Portugal, no final deste mês, também importante para Moçambique, não?

VM: É muito importante para Moçambique. Como sabe, a nossa costa é enorme. Para nós, é muito importante porque a conferência vai se dedicar à proteção de oceanos e mares. Mas também vai se dedicar ao debate da exploração ou uso sustentável dos recursos marinhos. É a economia azul. É importante que estejamos lá. Nós vamos estar lá.

Nós pensamos que essa iniciativa, que junta Quénia e Portugal, é uma muito louvável. O último Crescendo Azul foi em Moçambique e para nós é irmos participar e continuarmos a contribuir. É importante olharmos para os oceanos com muita responsabilidade. Oceanos e mares. Mas também temos que explorar a pensar no amanhã.  Mas a pensarmos na consequência de uma exploração não cuidada e não regrada.

ON: A mudança climática tem afetado Moçambique e outros países com saída para o mar...

VM: Sem dúvida. Nós estamos preocupados com as mudanças climáticas. Aliás, um dos nossos propósitos, e uma das nossas agendas, é que efetivamente as Nações Unidas tenham que tratar desse problema de mudanças climáticas com muita responsabilidade. Conjugar os esforços e darmos uma resposta à altura, incluindo a proteção da biodiversidade. Temos que garantir um mundo para hoje e para amanhã e para gerações vindouras. Nós estamos com esse problema e precisamos de olhar para as mudanças climáticas com muita seriedade.

ON: Ministra Verónica Macamo, mais alguma coisa a acrescentar a esta entrevista. Eu tenho que dizer e agradecer por estar sendo feita em parceria com os nossos colegas da TV Pública em Moçambique?

VM: Nós estamos de facto com responsabilidade acrescida. Aliás quando eu estava na sala, quando ouvi os resultados senti um misto. Uma trilogia que mete satisfação, gratidão e responsabilidade acrescida. Satisfação por termos conseguido realizar o sonho. Para poder realizar os objetivos e nossas prioridades para podermos participar no Conselho.

Quando estamos a falar do desafio de Cabo Delgado, nós olhamos e concluímos que não é um desafio que pode ser vencido com guerra. Nós concluímos que era preciso haver uma conjugação de esforços

Mas também gratidão a toda a comunidade das. ações Unidade que botou em nós em...Que votou em nós em 100%. Finalmente, a última parte da trilogia, a responsabilidade que nos cabe. Nós estamos nos preparando para realizar a nossa missão com muita responsabilidade trazendo a nossa experiência, no âmbito da resolução de conflitos usando o diálogo.

Como sabe, nós vamos completar, em 4 outubro deste ano, 30 anos em que se assinou Acordo Geral de Paz.  Houve percalços pelo caminho, mas sempre utilizamos o diálogo. Por isso, essa é uma das armas que nós trazemos. É uma das iniciativas que vamos colocar à disposição das Nações Unidas, para vermos se o nosso mundo fica, de facto, um mundo de paz. Um mundo de segurança para podermos dedicar ao desenvolvimento sustentável olhando para o bem-estar de homens, mulheres, jovens, crianças e idosos. Muito obrigada.

FIM

Crise de Cabo Delgado, em particular, está a ter um impacto preocupante nas crianças e mulheres
© Unicef Moçambique/2021/Ricardo Franco
Crise de Cabo Delgado, em particular, está a ter um impacto preocupante nas crianças e mulheres

 

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