Entrevista: Federico Villegas, presidente do Conselho de Direitos Humanos da ONU BR

O presidente do Conselho de Direitos Humanos, Federico Villegas, em coletiva de imprensa no Escritório das Nações Unidas, em Genebra

A saída da Rússia do Conselho da Europa é um fator muito significante, mas o que precisamos é mais multilateralismo nesse momento

Federico Villegas , Presidente do Conselho de Direitos Humanos

Partha Konwar/ONU Genebra
O presidente do Conselho de Direitos Humanos, Federico Villegas, em coletiva de imprensa no Escritório das Nações Unidas, em Genebra

Entrevista: Federico Villegas, presidente do Conselho de Direitos Humanos da ONU

Direitos humanos

Embaixador da Argentina junto às Nações Unidas, em Genebra, ocupa posto desde dezembro, quando foi eleito para mandato de um ano; ele esteve em Nova Iorque, onde falou à ONU News sobre a Comissão de Inquérito para Ucrânia, que apura violações de direitos humanos e atrocidades desde a invasão da Rússia;  mudanças no sistema multilateral e a necessidade de mais diálogo entre ONGs e governos em várias partes do mundo.

Federico Villegas Beltrán conversou com Monica Villela Grayley, para o Destaque ONU News Especial.

ONU News: Vamos começar falando sobre a Comissão de Inquérito para a Ucrânia. O que já se sabe até agora dessa Comissão?

Federico Villegas: Temos que pensar que o aconteceu em Genebra é muito importante. Quando o Conselho de Segurança aqui foi bloqueado pelo veto da Federação Russa, nós tivemos a oportunidade de ser a parte do sistema multilateral que esteve à altura das circunstâncias. E, por isso, aprovamos a Comissão que imediatamente começou a trabalhar entre eles, os peritos que foram designados, com a Comissão de Monitoramento, que já está na Ucrânia, da alta comissária (de Direitos Humanos). Esperamos que essa Comissão seja a mais importante para fazer um diagnóstico das atrocidades que estão a acontecer no conflito a partir da invasão da Rússia à Ucrânia.

Entrevista: Federico Villegas, presidente do Conselho de Direitos Humanos da ONU

 

ON: E como é esse acesso, Embaixador? Porque o país está em guerra. Qual é o acesso que eles têm?

FV: Com muita prudência. Temos que ajudar a uma equipe que está no terreno, temos que ajudar naturalmente, mas as três pessoas são muito experientes. O juiz da Noruega (Erik Mose), que foi juiz no Tribunal Europeu, foi o presidente do Tribunal de Ruanda. Ele tem experiência no terreno e sabe o que é estar e fazer inquéritos em situações difíceis. O Pablo de Greiff esteve no Burundi, ele foi o primeiro relator de memória, verdade de justiça das Nações Unidas. E naturalmente, a Jasminka Džumhur, da Bósnia-Herzegóvina, ela tem muito experiência com desaparecimentos forçados etc. Então, eu acho que eles vão poder. Naturalmente, as zonas que são da Ucrânia são de mais fácil acesso, onde a Ucrânia tem o controle. E, temos que naquelas outras zonas, estar seguros de que eles podem viajar.

 

ON: O sr. no seu discurso de posse falou de um tema muito recorrente hoje que é a polarização. O que a gente vê é uma polarização em cenários internacionais, consensos que às vezes, ou muitas vezes, não chegam. Isso também ocorre em nível nacional.   Eu queria saber do senhor se o multilateralismo está em crise neste momento?

FV: Eu acho que é ambivalente. Está em crise naturalmente porque em um mês, nós tivemos duas ordens mundiais que foram quebradas. A primeira ordem da Segunda Guerra Mundial com a invasão. E um mês depois, a ordem do Pós-Guerra Fria, que é a dos direitos humanos.
A saída da Rússia do Conselho da Europa é um fator muito significante, mas o que precisamos é mais multilateralismo nesse momento. E por isso, eu acho que as Nações Unidas têm a oportunidade de estar num momento histórico. As pessoas que falam... O embaixador falou algo ontem, e eu pedi permissão para utilizar, que é o tempo de São Francisco (a cidade na Califórnia, onde foi firmada a Carta da ONU). Estamos num momento de São Francisco. Então, o multilateralismo tem que estar tão presente como esteve sem São Francisco.

Assembleia Geral da ONU durante a Sessão Especial de Emergência sobre a Ucrânia na qual membros votaram pela suspensão dos direitos da Federação Russa no Conselho de Direitos Humanos.
UN Photo/Manuel Elias
Assembleia Geral da ONU durante a Sessão Especial de Emergência sobre a Ucrânia na qual membros votaram pela suspensão dos direitos da Federação Russa no Conselho de Direitos Humanos.

 

ON: E o sr. também falou sobre um Conselho de Direitos Humanos com mais direitos humanos e menos discriminação. O que o senhor pretende mudar, principalmente em parceria com a sociedade civil e com os Estados, neste um ano de mandato?

FV: Eu acho que nós temos que achar uma forma de conhecer as organizações da sociedade civil como sócios dos Estados para o desenvolvimento com a perspectiva dos direitos humanos. Porque o problema que temos é que há muitos países, por exemplo a Argentina, onde estamos muito, muito habituados a trabalhar com organizações. E para nós, é muito comum, ter uma organização da sociedade civil, que de manhã critica o governo, e à tarde está com o governo a ajudar a desenvolver uma política pública. Tem dois (roles) papéis. E os dois papéis são válidos.  E nós respeitamos. Mas muitos países não têm essa experiência. Só veem as ONGs como aquelas que criticam, que são financiadas por outros países etc. Mas temos que ajudar, no Conselho, a descobrir este outro papel das ONGs. Assim é como se pode mudar padrões de discriminação e outras questões.

 

ON: Ou seja: um estreitar de pontes para mais entendimento entre países e organizações da sociedade civil. Presidente Federico Villegas, muito obrigada pela sua entrevista. 

FV: É um prazer. Obrigado.