28 janeiro 2022

A coordenadora residente das Nações Unidas em Moçambique, Myrta Kaulard, falou à ONU News, de Maputo. A chefe humanitária descreve as ações junto à comunidade internacional após a destruição causada pela tempestade tropical Ana, em 24 de janeiro. 

Para a chefe do Sistema das Nações Unidas em Moçambique, Myrta Kaulard, as mortes, os danos à infraestrutura e os serviços interrompidos, que marcaram a última semana, são somente uma parte das preocupações sobre o que deve ser feito, coletivamente e em longo prazo, para mitigar os efeitos das alterações climáticas no país lusófono.

ONU News, ON: Qual é a  situação atual após a passagem da tempestade tropical Ana?

Myrta Kaulard, MK: A tempestade tropical Ana entrou em Moçambique pelo sul da província de Nampula, no dia 24. Então, em quatro dias passou direto até oeste, na província da Zambézia. Depois até à província de Tete e seguiu. 

Tempestade Tropical Ana passou por Moçambique causando mortes, alagamentos e destruição
UNICEF
Tempestade Tropical Ana passou por Moçambique causando mortes, alagamentos e destruição

 

O problema da tempestade tropical Ana é que trouxe chuva. Muita chuva e ventos bastante fortes na aérea costeira, mas depois no interior do país.  Esta é uma zona onde já tínhamos muita chuva. Também temos muito rios e barragens diferentes e importantes para Moçambique e Zimbabué. 

Foi destruída infraestrutura como estradas, pontes, e houve ainda o problema da comunicação por via telefônica. Ainda continua importante para a população para se poder comunicar: não podemos receber informações sobre as necessidades. Houve pessoas deslocadas. 

De momento, pensamos simplesmente nos primeiros dados. Mas temos que pensar que estamos todos afetados pelas dificuldades logísticas devido à destruição das estradas. As avaliações estão bastante complicadas por agora,  mas foram afetadas pelo menos 45 mil pessoas. Pelo menos 15 perderam a vida, mas pensamos que poderão chegar até meio milhão de pessoas afetadas por este desastre natural.

Temos que acelerar, porque essa é uma condição necessária: apoiar a adaptação ao câmbio climático em Moçambique. 

Uma coisa particularmente muito triste, e como Nações Unidas gostaríamos dar a condolências ao país e à população, é a perda de vidas incluindo a de um administrador de um distrito da província e Tete. Ele estava a fazer uma avaliação de danos e a ver como ajudar às pessoas. Isto dá uma ideia de quanto foi forte a água e de quanto foi força dedicação da administração e deste administrador, em particular. Não há ninguém que possa ficar protegido. 

A tempestade tropical afetou também todos os serviços básicos usados pelas populações: as escolas e os centros de saúde. Tudo isto de momento está suspenso, por razões óbvias, com todas estas complicações devido à água e ao problema de logística. Mas também temos que pensar que 80% da população vive da sua própria agricultura. Estamos  agora na época do cultivo, as culturas estão a crescer e a colheita vai ser no mês de abril mais ou menos. Se  estas pessoas perdem suas colheitas e a água fica mais tempo, elas vão perder. 

 

Estas pessoas terão que passar muitos mais meses (sem nada) até a próxima colheita. Isto é um problema de longo e médio prazos, que aumenta a vulnerabilidade e as necessidades humanitárias.

Então, não podemos pensar que, porque até agora o número de pessoas afetadas não é muito alto, as necessidades humanitárias não são.  Temos que pensar um pouco mais em quais vão ser as implicações. Também é absolutamente urgente trazer ajuda para poder reconstruir as estradas e as pontes. Sem essa ajuda, porque é um país de baixo rendimento, não podemos deixar as estradas interrompidas.  Isto vai aumentar a vulnerabilidade e as necessidades humanitárias das pessoas. 

ON: Como a ONU tem apoiado Moçambique a adaptar-se e a mitigar os efeitos?

MK: Para Moçambique, a adaptação a mudanças climáticas é essencial. Moçambique não pode ter um desenvolvimento sustentável sem ter uma adaptação às mudanças climáticas. 

Na COP-26, Moçambique participou no ano passado e apresentou sua contribuição nacional. Mas é o documento de estratégia do país pela adaptação ao câmbio climático. Foi elaborado também com o apoio técnico das Nações Unidas.  Estamos agora a fazer muita advocacia pela mobilização de recursos pela adaptação de Moçambique para poder financiar a implementação dos planos. É um país com rendimentos baixos e no qual a economia ainda tem que ser desenvolver. É importante que a economia possa se desenvolver de uma maneira adaptada ao câmbio climático. 

Ajuda humanitária em Moçambique após passagem da tempestade tropical Ana
UNICEF
Ajuda humanitária em Moçambique após passagem da tempestade tropical Ana

 

É um país que já tem um orçamento que tem que enfrentar muitos gastos que normalmente um país não o faz, como a grande crise humanitária no norte do país.

 É essencial pelo desenvolvimento de Moçambique ter acesso urgente e amplo a financiamentos pelo câmbio climático. Nisto, as Nações Unidas estão a colaborar com as instituições moçambicanas. 

Estamos a fazer muita advocacia, porque precisamos de uma atenção internacional, atenção global, para apoiar Moçambique nisto. Se pudermos ter sucesso, em Moçambique isso será muito positivo, na região e ser positivo para todo o mundo.

Nós colaboramos, como Nações Unidas, ao partilhar conhecimentos e técnicas para construir edifícios resilientes, escolas resilientes, centros de saúde, hospitais e casas das pessoas. Estamos a partilhar conhecimentos com as instituições e populações, porque isso pode ser integrado no sistema de construção do país.

Temos que pensar um pouco mais em quais vão ser as implicações. Também é absolutamente urgente trazer ajuda para poder reconstruir as estradas e as pontes.

Temos agora completada  a formulação do plano de desenvolvimento para a colaboração entre instituições moçambicanas e as Nações Unidas. É um plano de cinco anos, de 2022 a 2026. Esta é uma das quatro prioridades estratégicas de apoio  e adaptação ao câmbio climático e um apoio ao um uso sustentável dos recursos naturais.

Para nós, esta adaptação é essencial e uma prioridade. Esperamos que esta parte de nosso trabalho possa ser bem financiada pelos parceiros. Que sejamos um veículo, como Nações Unidas, muito importante de diálogo entre os parceiros e as instituições. Para partilhar conhecimentos e apoiar na formulação e na implementação de políticas, seja em nível nacional como em nível local.

Já estamos a trabalhar com administrações locais para se utilizar maneiras inclusivas de planificação dos investimentos na adaptação do clima, que envolvam as  pessoas e possam se beneficiar deste diálogo entre instituições e populações.

Fazemos também advocacia, uma das nossas prioridades, e esperamos muito que possa ser uma oportunidade para os parceiros de Moçambique trabalharem juntos e gerar  resultados de maneira acelerada. Temos que acelerar, porque essa é uma condição necessária: apoiar a adaptação ao câmbio climático em Moçambique. 

É uma questão de desenvolvimento sustentável e uma questão humanitária, porque esta excessiva vulnerabilidade aumenta as necessidades. 
 

 

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