14 setembro 2021

Presidente da Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre o país, Paulo Sérgio Pinheiro, falou à ONU News sobre o mais recente relatório que desaconselha o retorno de refugiados à nãção marcada pela violência.

Nesta entrevista a Eleuterio Guevane, a partir de Genebra, o líder do grupo de especialistas das Nações Unidas destaca o sofrimento de civis com a atuação de vários exércitos, organizações armadas e não estatais. A conversa começa com a descrição do atual cenário de direitos humanos que vem destacado na nova publicação.

Paulo Sérgio Pinheiro, PSP: Na realidade a esperança era que com a diminuição dos bombardeios aéreos em todo o território, e com a reconquista de território pelo governo da Síria, que a situação da população civil progressivamente fosse melhorando em termos das condições de vida. Ainda que em termos materiais seja um pouco irrealista esperar uma melhoria imediata. 

Especialistas da ONU ressaltam responsabilidade do governo e de organizações não estatais armadas pelos danos do conflito
Unesco/Prof. Abdulkarim
Especialistas da ONU ressaltam responsabilidade do governo e de organizações não estatais armadas pelos danos do conflito

 

Mas o que falamos que era uma guerra contra civis é que, na verdade, o governo continua praticando detenções arbitrárias, tortura e, enfim, as violações que sempre foram cometidas continuam ocorrendo.Evidentemente, para a sobrevivência e condições da população ela não se agravou. Em alguns casos, ela está mais agravada.

ONU News, ON: Ainda não há perspectivas da entrada da comissão lá no terreno?

PSP: Não, nenhuma. Se olhar no relatório, ele tem 45 páginas. E 21 páginas são cartas que nós enviamos ao Governo da Síria sobre todos os incidentes que nós descrevemos e nós não tivemos nenhuma resposta. Nós continuamos insistindo. Mas não vejo nenhuma perspectiva. 
Nós continuamos porque, na verdade, a guerra continua em três regiões do país: no noroeste, no nordeste e no sul continua a guerra, inclusive com bombardeios aéreos por parte do governo e das suas forças aliadas.

Ao lado desses cinco exércitos você coloca organizações terroristas e organizações não estatais armadas que fazem ataques indiscriminados com foguetes, colocam bombas de controle remoto. 

ON: Como resumir os 10 anos do trabalho da comissão?

PSP: Nesses 10 anos, cada ano foi diferente. Foi um ano de aumento de sofrimentos, de violações e escalada no número de refugiados. Hoje, depois de 10 anos, você tem cinco exércitos atuando na Síria.  Você tem o governo sírio, você tem o governo russo, o governo americano que controla a situação no nordeste, depois você tem milicias iranianas e libanesas. Então é uma situação extremamente complexa para a população. 

Sírios deslocados cozinham uma refeição no acampamento Qah, perto da fronteira com a Turquia.
Irin/Jodi Hilton
Sírios deslocados cozinham uma refeição no acampamento Qah, perto da fronteira com a Turquia.

 

A população não está só submetida ao governo. Ao lado desses cinco exércitos você coloca organizações terroristas e organizações não estatais armadas que fazem ataques indiscriminados com foguetes, colocam bombas de controle remoto. Você vê o dia a dia da população enfrentando todas essas forças em combates entre si. 

As populações leais ao governo também são submetidas a essas ações desses grupos armados não estatais. O trágico da situação não é só o que é da responsabilidade da Estado. Certamente é grande responsabilidade. Mas a responsabilidade é também das organizações não estatais armadas, patrocinadas por Estados. Nós sempre fazemos lembranças nos relatórios das responsabilidades dos países envolvidos no conflito pelas violações que esses grupos praticam. 

FIM
 

Comissão Internacional Independente de Inquérito para a Síria, presidida pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, tem documentado graves violações de direitos humanos.
Acnur/Christopher Reardon
Comissão Internacional Independente de Inquérito para a Síria, presidida pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, tem documentado graves violações de direitos humanos.

 

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