20 agosto 2021

A diretora-geral assistente da Organização Mundial da Saúde para Medicamentos, Vacinação e Fármacos, destaca que a agência é contra a vacina ser pré-requisitos para viagens. De Genebra, a médica brasileira Mariângela Simão destaca que os países não devem criar ainda mais barreiras numa fase em que o acesso à vacinação contra a Covid-19 está muito desigual. Ela também falou com a ONU News sobre a imunização de adolescentes e destaca que ainda é preciso esperar para vacinar as crianças. 
 

 

ONU News (ON): A ONU News entrevista a diretora-geral assistente da Organização Mundial da Saúde para Medicamentos, Vacinação, dra. Mariângela Simão, falando conosco diretamente de Genebra. Eu queria fazer a primeira pergunta destacando um ponto interessante que a senhora mencionou em uma conferência de imprensa da OMS. A senhora disse que a terceira dose da vacina contra a Covid está causando um dilema ético. Países em desenvolvimento ou de baixa renda estão com a vacinação atrasada, mas nações desenvolvidas já consideram aplicar uma terceira dose. A senhora pode comentar este ponto?

Mariângela Simão (MS): Pergunta super interessante, porque está na mídia todos os dias. Não existem ainda estudos científicos comprovando que uma terceira dose vai ser necessária. E o segundo ponto é o que você mencionou, que eu havia falado, sobre a questão ética. Você tem um quantitativo extremamente grande de pessoas em países em desenvolvimento, em especial países de baixa renda, que tem maior risco de adoecer e de morrer por conta do SARS-Coronavírus, que não têm acesso à vacina. Ao mesmo tempo, você já está falando em países de alta renda em fornecer uma terceira dose que ainda a gente não tem a certeza de que será necessária. Uma boa parte dos países que estão discutindo a terceira dose, estão priorizando algumas populações. Saiu nos Estados Unidos, e também na semana passada na Alemanha, que estão priorizando pessoas que têm imunosupressão, que essas pessoas precisariam de uma terceira dose. Pode ser que ela seja necessária, a gente não sabe, inclusive para grupos bem específicos. Mas como medida de saúde pública geral, ainda não têm a evidência necessária para que isso ocorra.

 

ON: Aqui na Europa e alguns países da América do Norte, a vacinação já está num ritmo bastante acelerado, mas por exemplo, a África tem menos de 2% da população vacinada. É importante falarmos dessa divisão e não esquecermos de países africanos que precisam receber mais doses e avançar com esse processo.

MS: Esse é um ponto super importante. Nós temos 74 países que têm menos de 10% de cobertura e há países com 60%, 70% de cobertura, falando de duas doses, da cobertura completa, já que só uma das vacinas precisa de apenas uma dose, que é a vacina Janssen. A gente tem que levar isso em consideração. A grande predominância de países com muito baixa cobertura são países no continente africano, infelizmente. 

A OMS continua chamando a atenção para a desigualdade no acesso às vacinas de Covid
Aeia/Dean Calma
A OMS continua chamando a atenção para a desigualdade no acesso às vacinas de Covid

 

ON: Vamos falar agora sobre a vacinação para os mais jovens, no caso os adolescentes. Vou citar como exemplo Portugal, que acaba de dar a luz verde para que adolescentes a partir dos 12 anos possam receber a vacina contra a Covid-19. Muitos pais ainda têm dúvidas, receio, o que a Organização Mundial da Saúde tem a dizer sobre a vacinação de adolescentes e sobre estudos para vacinação de crianças no futuro?

MS: Muita gente pergunta: por que não vacina criança? Qualquer estudo clínico para colocar um medicamento ou uma vacina no mercado não são feitos com crianças, eles são primeiro feitos com adultos e mais tarde, com crianças, adolescentes e mulheres grávidas, uma vez que tenha sido comprovado que é seguro em adultos. Às vezes demora anos, depois que um medicamento foi lançado para adultos para chegar os dados sobre crianças. Tem que levar com cuidado, principalmente por questão de segurança.
A posição da OMS em relação à vacinação de adolescentes: claro que crianças e adolescentes têm um menor risco de complicações severas pela Covid-19. Mas a gente tem duas vacinas que já têm estudos em relação à segurança em adolescentes, a vacina da Pfizer-BioNtech e a vacina da Moderna, essas duas já tem estudos. A OMS tem uma reflexão, uma recomendação de que se deve ter um cuidado com os adolescentes que têm condições associadas, doenças associadas e que por conta dessas doenças, possam ter um maior risco de desenvolver uma doença severa, um Covid severo. Então esses adolescentes que têm pré-disposição deveriam ser incluídos no estágio 2 da vacinação naqueles países onde a transmissão é alta ou onde você vê que a transmissão comunitária está aumentando. Não há indicação ainda para crianças. Eu sou pediatra e a relação de benefício e de custo em relação a aplicar vacinas em crianças ainda não está comprovada. Então é preciso ter mais dados e mais estudos em relação à segurança dessas vacinas na faixa etária menor. Vamos ter que esperar um pouco. 

Segundo o chefe da ONU, são necessárias 11 bilhões de doses para vacinar 70% da população mundial e assim, acabar com a pandemia de Covid-19
© Unicef/PAHO/Karina Zambrana
Segundo o chefe da ONU, são necessárias 11 bilhões de doses para vacinar 70% da população mundial e assim, acabar com a pandemia de Covid-19

 

ON: Depois de um ano e meio de pandemia, todo mundo ficou confinado durante vários meses, há pessoas que tomam a vacina por um outro motivo, porque querem viajar, querem sair de onde estão.  Quais são as diretrizes da Organização Mundial da Saúde neste sentido? Cito como exemplo os países europeus, que aprovaram as vacinas da Pfizer, Moderna, Janssen. Alguns países da Europa já estipularam que não irão receber turistas que não tomaram estas vacinas. Será que isto poderá criar ainda mais divisão?

MS: Em primeiro lugar, a OMS é absolutamente contrária à vacinação ser pré-requisito para viagens. Porque dada a essa enorme inequidade no acesso à vacina, você não está num ponto em que todo mundo tem acesso, todos os países têm acesso. Então a OMS tem reforçado, encorajado os países a não criarem mais barreiras do que necessário, porque tem outras formas. Antes das vacinas, você tinha países, por exemplo, que exigiam um teste rápido, um PCR para poder entrar no país, fazer outras medidas como quarentena e tudo o mais. Eu acho que este é um primeiro fator de que exigir um certificado de vacina num mundo tão desigual, com acesso tão desigual, só exacerba as inequidades e as desigualdades. Este é um ponto. O outro ponto é que o Parlamento Europeu aprovou uma regulamentação para facilitar o livre trânsito entre os países da União Europeia. A situação do passaporte europeu com as vacinas que são autorizadas pela Agência Europeia de Medicamentos. E aí teve um entendimento de muitos países de que só seriam as autorizadas pela Agência Europeia, mas isso é na verdade para o trânsito entre os países da Europa. O próprio Parlamento Europeu fez uma recomendação para que os países considerassem, para autorização de entrada de pessoas de outros países que não da União Europeia, que considerassem a autorização para vacinas que estão autorizadas, emergencialmente listadas pela OMS. Vários países europeus fizeram isso. Para entrada no Espaço Schengen, cada país do espaço é livre para decidir o que aceita de fora da União Europeia e muitos deles aceitaram as vacinas listadas pela OMS. No caso do Brasil, inclui a Coronavac, que é a vacina da empresa Sinovac. 
 

 

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