19 maio 2021

A ONU News conversou com o assessor Victor Pavarino, do Escritório Regional das Américas da Organização Mundial da Saúde, Opas.  Até 23 de maio, a Organização Mundial da Saúde celebra a 6ª Semana Mundial das Nações Unidas pela Segurança Viária; Agência quer sustentar avanço significativo da última década que, no Brasil, levou a uma redução de 30% destes sinistros.

ONU News (ON): A ONU News conversa com o assessor Victor Pavarino, do Escritório Regional das Américas da Organização Mundial da Saúde, Opas. Semana Mundial da Segurança Viária das Nações Unidas. Esta é a sexta comemoração. Primeiro, vamos abordar a questão de impacto que tem vindo a ter o tema que se têm vindo a trazer esta semana: a desaceleração da velocidade para 30 quilômetros por hora em centros urbanos.

Victor Pavarino, (VP): Mais especificamente há uma demanda para essa redução dos limites de velocidade, particularmente em áreas específicas das cidades onde há um misto de tráfego mais significativo. Onde os veículos motorizados se misturam mais com o deslocamento de pedestres, ou de peões como se diz no português de Portugal, e os ciclistas e os demais usuários da via. Então, particularmente nos pontos da cidade onde esse mix é mais pronunciado. Não são em todos os lugares da cidade.  
Há, obviamente, espaços em que nós temos as vias que chamadas coletoras, as vias arteriais em que os limites de velocidade permitidos têm que ser maiores. Mas, especificamente nas áreas urbanas onde esse misto dos usuários da via é mais pronunciado é que está se demandado um limite de até 30 quilômetros por hora.

 

ON: E falando se segurança viária. Em termos de impacto qual o número de mortos no Brasil, onde acompanha as atividades, e em nível mundial?

VP: Entre todos os fatores de risco implicados na segurança viária, e neles temos beber e dirigir, a negligência ao uso dos capacetes ou aos mecanismos de retenção, como cinto de segurança, as cadeirinhas para as crianças, o uso de telefone celular e a direção distraída e todos eles, a velocidade de longe segue sendo em geral o principal fator de risco.  Até porque ela tem uma relação muito grande com a potencialização dos danos quando relacionada a outros fatores de risco. 
Em outras palavras, se alguém bebeu e dirigiu, que já é um fator de risco, e está em alta velocidade tanto pior. Se alguém está sem fazer o uso do cinto de segurança, ou dos capacetes, e está em alta velocidade tanto pior. Podem ser as colisões, além de que a velocidade em maior escala  não só aumenta o número de acidentes, mas a possibilidade de termos acidentes, quanto à gravidade quando eles ocorrem. 
Por isso, este é um fator de risco muito significativo e está sendo focado durante essa semana. O que perguntaste também relação à situação da segurança viária, tanto em nível global quanto localmente, aqui no Brasil. Em nível global, a gente estima que há 1,3 milhão de pessoas que morrem, anualmente, nos chamados acidentes de trânsito. Viemos chamando ultimamente no Brasil e em países de língua espanhola também, de sinistros de trânsito. Porque de acidentes eles não têm nada na maioria. 
São eventos que, em sua imensa maioria, são previsíveis  e, portanto, evitáveis. São 1,35 milhão de mortos por ano. E veja bem, isso a gente está falando apenas a ponta do iceberg. Apenas daquele topo da pirâmide. Além desses 1,35 milhão de pessoas que morrem anualmente, estima-se que até 50 milhões sobrevivem feridos ou com alguma sequela. Ou seja, é muito mais grave do que apenas, entre aspas, os óbitos. Mas a situação dos que sobrevivem e dos que vivem com os que sobrevivem.  
Aqui estamos falando da possibilidade de um pai ou uma mãe de família que, às vezes, deixam de ser um provedor e passam a ser um ônus, passam a ser um custo para a família. Um filho, um amigo da família ou alguém em que se depositou muitas esperanças. É, em resumo, como se fosse uma bomba que cai em uma família e nas suas redes sociais mais próximas. Particularmente no Brasil, estima-se que temos no momento cerca de 30 mil pessoas morrendo ao ano. Isso porque tivemos um progresso significativo na última década. Tivemos uma redução de 45 mil para 30 mil mortes no trânsito, que representa uma queda de cerca de 30%, o que é uma conquista a ser celebrada sem dúvidas, mas jamais vamos conformar-nos com isso. Por que ainda que tenha caído para 30 mil pessoas por ano, ainda são 30 mil pessoas. São 30 mil vidas de que estamos falando. Algo que repito é previsível e, portanto, evitável. Em nível global como colocaste é 1,35 milh ão. É mais ou menos o número que tínhamos em 2011. E o que a Organização Mundial da Saúde, quando recebeu esse mandato das Nações Unidas para coordenar esses esforços no sistema da ONU, previa que até 2020 se nada fosse feito chegaríamos a 1,9 milhão de mortes por ano. E mantivemos, em nível global, esse número de 1,35 milhão. Por um lado, logrou-se essa meta de se estabilizar as mortes no trânsito. Vidas foram efetivamente salvas em relação à linha de base que tínhamos em 2020. E o fato de não ter aumentado. Estabilizou, mas convenhamos, estabilizou em um patamar muito alto e, novamente, eu sempre repito, inaceitável para algo é previsível e evitável.

 Semana Global de Segurança no Trânsito promove Década de Ação para Segurança no Trânsito 2021-2030
Trinn Suwannapha/Banco Mundial
Semana Global de Segurança no Trânsito promove Década de Ação para Segurança no Trânsito 2021-2030

 

ON: Falou de várias vertentes ligadas à segurança viária: uso do cinto de segurança, uso do telefone celular e dos assentos dos bebês. Como é que a OMS atua junto das partes envolvidas nesses aspetos todos para seguir contendo esses números ligados aos acidentes de trânsito de forma contínua?

VP: Para entendermos isso é importante remeter ao começo disso tudo, no ano 2004, quando a Organização Mundial da Saúde recebeu das Nações Unidas esse mandato para coordenar, no sistema da ONU, os esforços globais relacionados à segurança viária. Ainda que a OMS já tivesse um envolvimento com tema, com os seus escritórios regionais, desde os anos 50 e 70 do século passado, é principalmente a partir dos anos 2000 que esse envolvimento se torna mais pronunciado em função do aumento dos índices de motorização dos países em desenvolvimento, que não obstante terem aumentado a frota motorizada nem sempre contavam, tão pouco contam, com a parte de uma estrutura institucional e organizacional, como a polícia e vários outros e outras instâncias que implicam a segurança viária, Então, foi dado esse mandato para Organização Mundial da Saúde. E temos várias outras agências com você sabe nas Nações Unidas. Mas o fato de isso ter sido especificamente a dado à Organização Mundial da Saúde já é algo significativo para que eles têm que atentar.
O que salta aos olhos é o fato de ter havido um aumento significativo das mortes e lesões no trânsito com esse aumento da motorização a que eu me referi. Então, outro ponto que eu acho que vale a pena a gente relacionar à questão é que o fato dessa escolha tem muito a ver com essa capacidade que me parece única muito singular do setor de Saúde de amealhar as outras áreas envolvidas. Por que a segurança viária, o trânsito e a mobilidade de uma maneira geral, é um tema por definição setorial. Vai envolver as áreas policiais, de fiscalização e gestão do trânsito, da engenharia, da educação e tantas outras. 
A área da saúde, e eu falo com a tranquilidade de quem não é da área da saúde, eu passei a trabalhar na área da saúde, mas a minha área de origem é a dos transportes. Então, eu falo especialmente enfatizado demais a saúde como uma visão externa de quem vê essa capacidade única do setor saúde de trazer as outras áreas. É exatamente nisso que a OMS acaba trabalhando. Primeiro trazendo seu expertise em relação à qualificação da informação, que é algo que traz muito das áreas epidemiologia. Mas o que a OMS continua fazendo é coordenar os esforços que veem de várias outras áreas e juntar as informações necessárias, coordenar o conhecimento nas demais áreas e fazer essa classificação do trabalho intersetorial, que é um dom muito específico da Saúde.

Países de baixa e média rendas concentram 90% das vítimas de lesões no trânsito.
Foto ONU/Albert González Farran
Países de baixa e média rendas concentram 90% das vítimas de lesões no trânsito.

 

ON: Acontece que nesta semana se destaca a desaceleração em algumas áreas das cidades e centros urbanos. Com isso devem  surgir talvez queixas/reclamações porque os hábitos foram surgindo com a urbanização. O que dizer sobre estas queixas, reclamações, o impacto sobre o maior uso da bicicleta, das caminhadas ou outras formas da retoma da ocupação do espaço público pela população de pedestres?

VP: Um ponto muito interessante. É que se gente for ver historicamente, no início do século passado, as ruas, as vias todas eram fundamentalmente ocupadas por pedestres, pelos peões e pelos ciclistas. E começaram a ser ocupadas pelo transporte individual motorizado com o advento dos automóveis que começaram a ocupar as vias no início do século passado e eram muito mal vistos. Eram vistos como arruaceiros que estavam invadindo a paz e a mobilidade das pessoas que ocupavam essas vias. E isso trouxe um desconforto, obviamente, até que progressivamente o automóvel acabou ocupando as vias e expulsando os demais usuários para os cantos das vias,  as calçadas, nos  lugares que é possível  ter as calçadas. E isso trouxe desconforto. Da mesma forma, agora os pedestres e ciclistas estão fazendo essa retoma, como te referiste, causa exatamente esse mesmo de conforto que foi causado no início do século passado, mas com justiça. Porque, como se diz, a cidade tem que ser para as pessoas e não para os carros. Ainda que isso reflita um pouco da desigualdade que a gente tem. Então, obviamente, em princípio você tem esse mesmo desconforto agora que tínhamos no século passado. Mas aos poucos os comerciantes de alguns lugares que às vezes reclamavam que os carros e o  espaço dos seus clientes estavam a ser tomados, estão percebendo agora que isso pode ser uma vantagem. Porque está tendo uma atração maior de outras pessoas. Então, em princípio, você para seus estabelecimentos comerciais. O que na verdade os pedestres e os ciclistas estão fazendo não é tomando o lugar dos automóveis, mas colocando os automóveis e os veículos motorizados nos seus devidos lugares.

As bicicletas são confiáveis, ambientalmente corretas e podem ser adquiridas, em muitas partes do mundo, por um preço acessível.
ONU Ucrânia/Shuvaev
As bicicletas são confiáveis, ambientalmente corretas e podem ser adquiridas, em muitas partes do mundo, por um preço acessível.

 

ON: Muito obrigado por esta conversa com a ONU News. Victor Pavarino, assessor da OMS para o Brasil. Algo mais  a dizer com respeito a esta semana e com as atividades que vão correndo cada uma em seu centro urbano?

VP: Se me permite, esta 6ª Semana Global de Segurança Viária das Nações Unidas ela iniciou-se em 2007. E depois, com uma certa regularidade bianual, ela sempre se repete sempre trazendo um tema que reflete um contexto do momento. 
E aqui temos, nesse ano de 2021, o que ela acaba refletindo o que foram os acordos da 3ª Reunião Ministerial Global sobre Segurança Viária sob os auspícios das Nações Unidas, que ocorreu em Estocolmo. E de uma forma muito emblemática é muito simbólica, ela acaba saindo um dos encaminhamentos muito específicos que tivemos nesse encontro em Estocolmo: procurar não dissociar as questões do trânsito das macro questões de política, das questões de sustentabilidade, das questões de mudança climática e, enfim, encerra uma ideia dos próprios Objetivos de Desenvolvimento Dustentável.
Essa vias acalmadas em boa medida acabam refletindo, de uma forma simbólica, e resumem esse esse conceito que foi exaltado em Estocolmo: essa relação do trânsito relacionadas aos ODSs. Porque essas vias calmas, ao passo que elas reduzem menos mortalidade por acidentes de trânsito, não se limitam a isso. Mais do que isso, elas estão proporcionando a qualidade de vida, o espaço mais verde, menos emissão de poluentes e proporcionando também mais atividade física e uma redução do stress que tem uma relação também com a saúde mental. Ou seja, ela acaba de certa forma resumindo a ideia dos Objetivos Desenvolvimento Sustentável.

 

 

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