15 dezembro 2020

Zahira Virani, a nova coordenadora residente das Nações Unidas em Angola fala sobre cooperação, desenvolvimento sustentável e combate à pandemia - chefe do Sistema ONU no país conversou com a ONU News após o aniversário de independência da nação africana. Assista à primeira parte da entrevista gravada no dia 12 de novembro.

Monica Grayley: A ONU News em Português tem o grande prazer de receber aqui Zahira Virani.  Ela fala conosco diretamente de Luanda e é a nova coordenadora residente ou a nova chefe do Sistema das Nações Unidas em Angola.  Zahira, muito prazer em conhecê-la virtualmente e parabéns pela sua nomeação. Nós gostaríamos de começar perguntando, brevemente, por onde a senhora passou dentro do Sistema das Nações Unidas até chegar a este posto em Angola. E logo depois, o meu colega Eleutério Guevane tem a primeira pergunta para a senhora.

Zahira Virani: Nunca, na minha vida, pensei que iria estar tão ligada ao mundo lusófono porque há menos de quatro anos, eu não falava uma palavra de português sequer. Então, quando cheguei lá me dei conta de que tinha de aprender o português rapidamente. E foi assim: aprendi. Eu cheguei às Nações Unidas através de um programa, que se chamada Lead. Eu trabalhei no Panamá, em Genebra, Tadjiquistão, Afeganistão, Bósnia-Herzegovina, São Tomé e Príncipe, como coordenadora. E aqui tenho grande prazer e honra. Sinceramente, é uma honra estar aqui na qualidade de coordenadora-residente do sistema, em Angola.

 

MG: O prazer é todo nosso de recebê-la nas Nações Unidas dentro deste grande mundo da lusofonia. Eu queria só saber, foi difícil, foi fácil, como foi aprender português?

ZV: Mas ainda não podemos falar no passado (risos), pois ainda estou aprendendo. Não foi fácil, mas não foi difícil também não.  A língua portuguesa é uma língua tão bonita. Eu gosto muito. Tem palavras tão suaves. E os portugueses têm uma maneira de falar, de pensar, o sentimento é diferente.  E adorei. Eu fiquei em São Tomé quase quatro anos. E foi uma boa oportunidade para aprofundar a minha relação com o português. E espero que aqui também, eu vou ter esta oportunidade de aprender mais e melhorar ainda mais.

 

MG: Excelente. Já fala muito bem. E agora vou passar ao meu colega, Eleutério Guevane.

Eleutério Guevane: E vamos continuar nessa dica do melhorar... Em Angola, quando chega, encontra um país que pretende melhorar, em termos econômicos, pretende recuperar. Sabemos que Angola está a transitar para economia de rendimento médio. Eu vou passar mesmo para esta questão dos desafios. Até agora, o que acha que é o maior desafio do país, 45 anos depois da independência?

ZV: É uma pergunta muto boa, mas também uma pergunta complicada. Um país tão grande, com uma história pós-conflito, um país que é mais jovem que eu. Tem só 45 anos então é um país jovem. Mas infelizmente, durante quase 20 anos, durante a guerra civil, o país e o povo sofreram muito. E depois do crescimento econômico, depois que chegou paz, infelizmente a economia do país cresceu só baseada em petróleo e em recursos naturais. E infelizmente agora estamos a sofrer. Como todos sabemos, o preço do petróleo global está a baixar todos os dias. E o país, por exemplo, 90% da economia, do orçamento do Estado vem do petróleo. E isso não dá. Então, um dos desafios grandes é como diversificar a economia, como desenvolver, e como encorajar o crescimento econômico, mas de uma maneira que não vai prejudicar o meio ambiente, por exemplo.  E o mais importante: crescer a economia, mas de uma maneira que vai baixar as taxas de desigualdade, que neste momento, em Angola, é um dos maiores desafios que encontramos. Além disso, se olharmos o resto do continente da África, Angola tem uma população jovem, mas jovem mesmo. Ontem, o presidente estava a falar num dos discursos da celebração de 45 anos. Ele disse que 65% da população de Angola, neste momento, têm menos de 25 anos. Esta juventude tem direito a estudar, para ter emprego, e para crescer e ter um futuro baseados nos direitos humanos, na democracia, mas também numa economia sustentável. Então, na minha opinião, esses são os maiores desafios que enfrentamos neste momento em Angola.

 

EG: Não fugindo muito do contexto, este também é um ano especial para Angola dentro das Nações Unidas. São 45 anos desde a independência, e o mesmo tempo dentro das comunidades das Nações. Como é que vê esta ligação e percebe que esta ligação, enfim, de alguma forma é considerada pelo governo de Angola?

ZV: Sabe, que hoje de manhã, eu estive com o governo, com o presidente, com o Corpo Diplomático porque o presidente inaugurou a Academia de Diplomacia aqui em Angola. O que eu, claro, é sempre bom investir em recursos humanos e em fortalecer capacidades dos técnicos, dos funcionários, em qualquer país. Mas neste caso, em particular, eu fiquei contente que o governo de Angola está a priorizar a diplomacia. E o papel que Angola tem no mundo: regional, sub-regional, seja África Central, seja no sul da África com a Sadc, seja Grandes Lagos, União Africana e mesmo dentro das Nações Unidas. Angola está a tentar a tomar uma liderança, um papel mais forte, e acho que é fantástico para nós, para as Nações Unidas, e para o multilateralismo e também para o continente de África. Porque todos os países têm muito a aprender de Angola. Angola aprendeu lições de uma maneira dura, depois da independência, durante a guerra. Acho que Angola, neste momento, tem um papel forte não só para promover os interesses de Angola, por exemplo em comércio, em investimento estrangeiro, mas também para partilhar estas lições, e para partilhas os valores de democracia, paz, estabilidade. Então, aqui, o Escritório da Coordenadora, nós vamos trabalhar com o Governo, com o Ministério das Relações Exteriores para fortalecer e para promover este papel que Angola pretende neste momento.

FAO/Estevão Benedito
Angola faz parte da área de intervenção da iniciativa que vai criar políticas de promoção do desenvolvimento de comunidades

 

MG: A sra. falou no chamado dividendo demográfico, ao falar dos jovens. E a senhora também é uma coordenadora jovem. E depois também falou sobre a parceria com o governo. Eu gostaria saber como a sra. vai fazer a parceria com as mulheres angolanas. Muitas com tradição na luta de libertação, engajamento político.  Como elas podem ajudar a sra. no seu trabalho, e ao desenvolvimento de Angola, e no trabalho da ONU em Angola como um todo?

ZV: Uma pergunta fantástica. Como mulher é sempre bom pensar nesta questão. Felizmente, aqui em Angola, o governo está a tentar a promover as mulheres. Não tenho aqui a taxa, mas por exemplo, no governo há mulheres ministras, há mulheres secretárias de Estado, diretoras, líderes que estão a liderar, que estão a criar políticas com pensamento de uma mulher. O governo está a tentar, neste momento também a apoiar, por exemplo, a economia de mercado informal. Aqui em Angola, mas em todos os países do mundo, a economia informal é normalmente dominada pelas mulheres. Então, acho que nós aqui nas Nações Unidas, nós temos que trabalhar com as líderes do governo, as mulheres, mas também com os homens que têm este pensamento. Nós devemos trabalhar com ONGs, porque existem ONGs e sociedade civil forte, e devemos trabalhar com eles para promover e dar oportunidades às mulheres, empreendedorismo, proteção social etc.
E devemos trabalhar com parceiros. Aqui, nós temos um clube das embaixadoras mulheres. E nós podemos também trabalhar com parceiros, neste sentido. Daqui a pouco, vamos começar aquela campanha contra a violência a mulheres. Os 16 Dias de Ativismo contra a Violência de Gênero. Vamos começar não só com a ONU, mas como parceiros, União Europeia, Estados Unidos, nós todos estamos juntos. Acho que as Nações Unidas podem avançar com o Objetivo de Igualdade de Gênero.

ONU Photo/Loey Felipe
Chefe do Sistema ONU no país conversou com a ONU News após o aniversário de independência da nação africana

 

EG: Uma outra questão que deixaria aqui é a pandemia, que não nos poderia escapar. As Nações Unidas estão em Angola, que também está afetada pelo problema. Num momento em que a ONU ajuda a combater a fome no sul, ajuda a campanha contra a pólio, ajuda enfim a promover mais atividades juvenis, a promover a economia.  Como é que o Covid veio e interrompeu esta ação? Como  é que, neste momento, se está a trabalhar tendo esta realidade, enfim, como algo que veio para ficar? 

ZV: Infelizmente, Angola não é o único país. Nós todos estamos no mesmo barco. Infelizmente, Angola tem bastantes desafios. E as agências, o Sistema das Nações Unidas, aqui, temos 19 agências que estão a trabalhar em Angola. E o Sistema está a fazer várias coisas.  Sejam atividades de resposta, prevenção e também olhar para a recuperação. Especialmente, a recuperação socioeconômica.
A parte de saúde está, claro, liderada pela OMS. E chegou ao país uma nova representante fantástica da OMS, que chegou de Moçambique. Ela está a liderar a OMS, que está a trabalhar com o Ministério da Saúde para dar resposta, e elaborar uma estratégia, uma estratégia de resposta, mas também de mobilizar recursos. O Pnud trabalhou como outras agências, setores no governo e com os parceiros para elaborar o plano de recuperação socioeconômica. Estamos a tentar, neste momento, a mobilizar recursos.  Felizmente, há parceiros que vão nos apoiar neste sentido. A Noruega vai apoiar em criar emprego para os jovens juntamente com o Pnud e o Unicef. O Unicef também tem um programa de proteção social. Estão a trabalhar com o governo e também com o Banco Mundial, neste sentido. E nós temos uma coordenação aqui liderada pela coordenadora residente das Nações Unidas que incluem também outros parceiros: Usaid, China, FMI, Banco Mundial. E todos estamos a tentar, pelo menos estamos a tentar a dar uma resposta concreta, coordenada, coordenar as nossas atividades e para olhar em frente para a recuperação socioeconômica também.

 

FAO/Celestino Vonjila Essuvo
Agricultora da província angolana do Huambo recebe mensagens sobre propagação da Covid-19.

 

EG: E qual é o espaço de tempo que esse espera desta recuperação pelo menos no plano? Quais são os valores que se esperam para apoiar esta recuperação?

ZV: Eu acho que já começou. Acho que não há linhas distintas entre resposta e recuperação. Então, já começamos porque tudo é interligado, não? Saúde, emprego, educação, tudo é interligado. Então, as agências estão a trabalhar agora mesmo.
Nós reprogramamos nossos recursos do programa normal “entre aspas” para dar uma resposta, mas para preparar também o terreno para a recuperação.  Então, acho que, neste momento, já começamos com essa recuperação especialmente econômica.

 

MG: Em nome da ONU News, eu gostaria de agradecer à Zahira Virani. Ela que é a coordenadora residente, chefe do Sistema ONU, representante das Nações Unidas em Angola. E perguntar se tem mais alguma coisa que a senhora gostaria de acrescentar a esta conversa?

ZV: Não. Só para agradecer à ONU News. Foi um prazer para mim. Espero que tenha sido a primeira vez, mas não última vez que vamos conversar. Então, muito obrigada.

 

 

 

 

 

 

♦ Receba atualizações diretamente no seu email - Assine aqui a newsletter da ONU News
♦ Baixe o aplicativo/aplicação para - iOS ou Android
♦ Siga-nos no Twitter! Assista aos vídeos no Youtube e ouça a rádio no Soundcloud