26 junho 2020

A Organização Mundial da Saúde, OMS, apresentará marco regulatório sobre alocação de uma vacina contra Covid-19 quando disponível; anúncio deve ser feito ainda este mês, segundo a médica brasileira Mariângela Simão, responsável pela área de Acesso a Medicamentos, Vacinas e Produtos Farmacêuticos da agência.

Nesta entrevista exclusiva à ONU News, vice-diretora-geral da OMS, Mariângela Simão, aborda esforços e desafios na corrida pela produção da imunização, fala sobre grupos prioritários, medicamentos que estão funcionando, transparência nas comunicações e os riscos de notícias falsas sobre a Covid-19, a propagação do vírus no Hemisfério Sul e outros pontos.

ONU NEWS: Quando poderá sair oficialmente a primeira vacina e que passos faltam para que ela chegue a quem precisa? A testagem da Universidade de Oxford estaria mais avançada?

Pesquisas para desenvolver uma vacina contra o coronavírus estão em andamento, by Unsplash

Mariângela Simão: O processo de pesquisa e desenvolvimento de uma vacina é geralmente muito lento e pode demorar de cinco até 10 anos. O que está ocorrendo no momento é um investimento global enorme, tanto no sentido financeiro quanto também no compartilhamento de informações em acordos bilaterais entre companhias que podem produzir, que estão pesquisando o desenvolvimento de um candidato a vacina e, ao mesmo tempo, tentando aumentar a capacidade de produção se essa vacina for comprovadamente eficaz, quer dizer se ela funciona, e se ela for segura, se ela não causa mal para as pessoas.

Então, na verdade já são 15 candidatos de vacina de um total de 140 candidatos a vacina, 15 já estão no que a gente fala numa fase mais adiantada. Quer dizer que já saíram do laboratório para fazer pesquisa em seres humanos. Então há muita expectativa que até o final do ano, a gente já tenha pelo menos duas ou três vacinas fazendo estudo clínico em humanos com uma quantidade maior de pessoas com estudos mais robustos em fases mais adiantadas. E que em torno de um ano, a partir de agora, nós possamos ter uma quantidade limitada de uma, duas ou eventualmente três vacinas que tenham comprovadamente demonstrado que são seguras e são eficazes. Essa é a expectativa com a qual, em termos de tempo, a OMS e os outros parceiros vêm trabalhando. Daria em torno de um ano e um ano e meio entre a pesquisa, o desenvolvimento e a disponibilização do quantitativo para a população.

ON: Como as questões de investimentos e distribuição estão sendo consideradas agora para evitar lacunas depois?

MS: É muito importante ressaltar que, no primeiro momento, quando se tiver qualquer um desses candidatos de vacina, que tenha comprovado ser segura e eficaz, a gente tem uma certeza nesse momento é que a quantidade não será suficiente no primeiro ano para vacinar a população mundial. Em todo mundo em todos os lugares. Então, o que a Organização Mundial de Saúde, junto com outros parceiros, está trabalhando no momento são critérios de alocação que possam orientar os países na medida em que vão recebendo as doses sobre quais são as populações prioritárias para serem vacinadas primeiro. Por exemplo, há muito consenso em torno de que profissionais de saúde é uma população prioritária. Porque são as pessoas que estão na linha de frente que garantem a infraestrutura do sistema de saúde no caso de uma segunda onda ou do ressurgimento ou como nós estamos ainda em progressão, na primeira onda em muitos países. Um segundo critério poderia ser, dependendo da situação epidemiológica no país, por exemplo as pessoas maiores de 65 anos. É um critério para diminuir a mortalidade, porque já está observado que pessoas acima de 65 anos, ou com alguma doença preexistente que a gente chama de comorbilidade, que essas pessoas uma vez contraindo o coronavírus têm um risco maior de desenvolver doença severa e eventualmente morrer.

A OMS aponta profissionais de saúde como grupo prioritário., by Giles Clarke

Então, a Organização Mundial de Saúde está trabalhando com os países, e já teve duas reuniões com os países membros da OMS, em que foram apresentados os critérios primários e a semana que vem nós devemos apresentar um marco regulatório de como essa alocação deveria ocorrer uma vez que a vacina esteja disponível. A certeza é que uma vez que ela esteja disponível, não é possível vacinar todo mundo e nem precisa vacinar todo mundo numa primeira etapa. A gente já fez isso com outras vacinas e funcionou bem.

ON: O que deve garantir 100% de eficiência?

MS: É impossível determinar nesse momento em que ainda não se tem nenhuma vacina que tenha comprovado ser eficaz. Então, os estudos vão sendo realizados em diferentes grupos populacionais. Pode ser que você tenha uma vacina que funcione melhor para adultos jovens ou funcione melhor para adultos mais velhos. Ainda é impossível determinar, porque os estudos ainda estão em fase mais inicial.

ON: Países que não participaram do consórcio terão acesso a ela?

MS: Sobre o acesso equitativo a vacinas, existem algumas discussões ocorrendo no mundo. Uma vez que você tenha uma vacina, como é que um país vai ter acesso a ela? Muitos de vocês devem conhecer a Gavi, que é a Iniciativa Global de Vacinas. Tradicionalmente trabalha com países de renda baixa e renda média baixa fornecendo vacinas de rotina e suporte para o sistema de saúde para imunização. O Gavi está organizando nesse momento um mecanismo, que utilizando o marco determinado pela OMS quanto à alocação de grupos prioritários, abriria a oportunidade para todos os países do mundo para se associarem a essa iniciativa de modo que possa ter um pool de produtores: o mecanismo Kovacs. Que os países possam se associar, fazer um pagamento adiantado e colocar esse recurso num pool de recursos que poderia, uma vez que um dos candidatos de vacina se demonstrar eficazes e seguros, que o país teria direito às doses necessárias para cobrir às populações prioritárias, no primeiro instante, e posteriormente demais populações.

A Opas oferece treinamento em testes de covid-19 para especialistas de laboratório na Guiana., by ONU Guyana

Então, é bastante importante que haja uma convergência dos países na América Latina, a Organização Pan-Americana de Saúde já está trabalhando com o Gavi, para discutir como seria o acesso para os 41 países das Américas. Mais que essa discussão também se dê em outros continentes e em outras regiões do mundo. Há também uma iniciativa da União Europeia que visa organizar um sistema semelhante para os países europeus. Então, há que esperar um pouco, mais ficar bastante atento, para que os países possam utilizar a melhor oportunidade possível. No momento, a gente entende que vai ser mais interessante participar de uma iniciativa global e se associar para que, à medida que as vacinas forem disponíveis, elas sejam alocadas de forma equitativa.

ON: Além da vacina, algum remédio que possa ajudar a salvar vidas nesse momento dos 200 analisados?

MS: Sobre medicamentos que podem salvar vidas, nesse momento a gente têm dois tipos de medicamento. Na verdade, vocês vão ver que a gente está procurando em várias pesquisas, em torno de 200 drogas que estão em pesquisa nesse momento. A maior parte delas está relacionada a drogas desenvolvidas contra o vírus. Mas também teve a saída de um estudo recente da Inglaterra, o estudo recovery, que demonstrou que por exemplo com corticosteroides potentes como dexametasona, que não é contra o vírus é contra a reação hiper-inflamatória que o vírus produz no organismo em especial nos pulmões. Esse medicamento associado a outros medicamentos nas unidades de terapia intensiva ajudou a reduzir a mortalidade de pacientes que estavam em respirador com oxigênio em até 30%. O que é um dado muito importante nesse momento. Mostra que enquanto se busca um medicamento que ataca o vírus diretamente, outras medidas complementares nos cuidados intensivos podem ser associadas para que haja diminuição no caso de mortes.

ON: Américas e África estão agora observando transmissão rápida. Quais as lições aprendidas da primeira onda no resto do mundo?

Técnico de laboratório realiza um teste, by Banco Mundial/Simone D. McCourtie

MS: Um fator importante nas regiões que estão agora na fase de crescimento, como as Américas na verdade, o Caribe e também o continente africano, é importante observar o que foram as lições aprendidas em outros países e que deram certo. Tanto as coisas que deram certo quanto as que deram errado para que não se possam cometer os mesmos erros. Por exemplo, essa é uma pandemia que é cercada de desinformação e é extremamente importante que os governos possam repassar para a comunidade em geral informações que sejam baseadas em ciência, baseados em evidências. As informações corretas sobre como prevenir a transmissão, sobre as medidas de distanciamento social e as medidas de buscar os contatos e o que deve ser feito se você por acaso tiver um teste positivo. Transparência na comunicação com a população é extremamente importante. Nesse ponto, os meios de comunicação também têm um papel importante em não disseminar informação falsa ou errada sobre essa pandemia que é tão severa no mundo. Outra questão que tem se mostrado bastante importante é que todos os níveis do governo, eles estejam trabalhando conjuntamente. Que os governos das cidades, das províncias ou dos estados, juntos o governo nacional, possam estar alinhados para que haja uma continuidade não só nas mensagens, mas também no reforço necessário à estrutura de saúde pública que passa pela testagem e pelo encaminhamento dos pacientes com maior gravidade para serviço médico com maior complexidade, por exemplo, como hospitais.

ON: Algo mais que queira acrescentar?

MS: Alguns países, principalmente a América Latina que estão passando por uma fase bastante acentuada na transmissão comunitária, estão observando também que a chegada de casos em cidades do interior que tradicionalmente têm menor acesso a serviços são de maior complexidade. Então, essas questões foram vistas em outros países anteriormente e as lições aprendidas são importantes para que se possa orientar os gestores de saúde, aqueles que têm a responsabilidade sobre a saúde da população, sobre como tentar evitar que o sistema de saúde entre em colapso ou tentar tomar todas as medidas possíveis para que as pessoas não fiquem desassistidas uma vez que ficarem doentes. Ou que as medidas do que a gente chama de vigilância epidemiológica, quer dizer se você uma pessoa testou positivo essa pessoa tem que ser isolada e eventualmente precisar ir para o hospital se for o caso mais grave. Mas também todos os contatos da pessoa que testou positivo têm que ser testados isolados também. É só assim você diminui a cadeia de transmissão nesse momento há uma mensagem muito importante para que não haja resistência. Testou positivo tem que entrar em isolamento. Testou positivo, um parente ou seu amigo, alguém tem que procurar fazer um teste e cercar as possíveis fontes de transmissão subsequente a um caso inicial.

Aiea/FAO
Expectativa é que leve até um ano e meio entre a pesquisa, o desenvolvimento e a disponibilização de vacina.

 

♦ Receba atualizações diretamente no seu email - Assine aqui a newsletter da ONU News
♦ Baixe o aplicativo/aplicação para - iOS ou Android
♦ Assista aos vídeos no Youtube e ouça a rádio no Soundcloud