4 março 2020

Nesta segunda e última parte da entrevista, o novo embaixador do Brasil na ONU, Ronaldo Costa Filho, responde a perguntas sobre igualdade de gênero, participação de mulheres na carreira diplomática, oportunidades a serem geradas com expansão da plataforma continental e a criação de um instituto de ensino da língua portuguesa pelo Brasil, o Instituto Guimarães Rosa, a ser coordenado pelo Ministério das Relações Exteriores. Acompanhe a conversa com Monica Villela Grayley.

Essa pertença é verdade... Embaixador, agora falando um pouco de G-4 porque o grupo saiu um pouco das manchetes. Qua é a situação do grupo hoje. Tem avançado neste desejo, claro, mas também numa ação para a reforma?

Não, o G-4 continua trabalhando em conjunto, atuando em conjunto. O grupo, o IGN, que discute a reforma do Conselho de Segurança tem com o G-4 uma situação sempre coordenada. Há sempre um pronunciamento em nome do grupo. Então continuamos atuando em conjunto. Se você me permitir, Monica, agregar um elemento adicional que embasa este nosso entendimento de que o momento é chegado de fazer uma reforma é, simplesmente, olhar o que está acontecendo em outras organizações internacionais. E você vê que as outras organizações, os outros movimentos estão se adaptando a uma outra realidade. O G-7 que era o condutor, por excelência, da área macroeconômica no mundo, se rendeu à realidade de que sozinhos não podiam resolver e se ampliou pro G-20 na esteira da crise de 2008. As instituições de Bretton Woods estão fazendo um reequilíbrio do direito de voto. Então, há um reconhecimento de que o mundo e as organizações precisam se adaptar a essa realidade do século 21. E achamos que o Conselho de Segurança também tem que seguir esse caminho.

 

Totalmente. E uma realidade do século 21, segundo o próprio secretário-geral da ONU, é que deve haver igualdade de gêneros. O Objetivo número 5 (de Desenvolvimento Sustentável). A ONU trabalha até 2030 por um planeta 50:50. Metade gerido por mulheres, metade por homens. Aqui, nós iríamos ter na próxima semana uma reunião. Nós descrevemos essa reunião como o maior encontro internacional dos direitos das mulheres, a CSW, que por causa da ameaça do covid-19 passou para um formato reduzido de um dia. Qual é, embaixador, a atuação do Brasil na realização da defesa dos direitos das mulheres dentro da ONU, mas também fora da ONU?

Olha, é um tema ao qual o Brasil atribui grande importância, e se formos estritos, 50:50 não resolve porque as mulheres, se não me engano, já beiram 51% da população mundial. Então se fôssemos estritos, tinha que ter um pouquinho mais de representação feminina do que 50%.

 

E por que não tem, Embaixador?

É difícil dizer o porquê. Eu acho que é uma questão histórica, cultural, de desenvolvimento da sociedade. E é um processo que leva tempo. Não é algo que se resolve por um decreto. Tem que haver mudanças no pensamento e na percepção das pessoas. As pessoas têm que incorporar  novas realidades e novas maneiras de atuar. E eu sei que há frustração grande entre as mulheres pela demora ou uma percebida demora neste avanço.

 

O secretário-geral diz que esta é uma questão de poder. Ele diz que o poder não se cede, mas se toma. E que as mulheres teriam que tomar o poder. O sr. concorda?

Não acho que é a questão de tomar o poder porque tomar o poder gera ressentimento. Eu acho que não é esse o objetivo. Eu acho que tem que ser uma transição harmônica. E, simplesmente, eu vou falar um pouco da minha experiência pessoal. Eu fui, durante quatro anos, vice-presidente do nosso Sindicato dos Diplomatas no Brasil. E há uma certa insatisfação também das mulheres com o que percebem de discriminação que, na realidade, se você olhar os números não há essa discriminação. Há um fluxo comparável entre mulheres e homens na ascensão dentro da carreira. E eu sempre chamei a atenção das mulheres (dizendo): o problema que vocês têm é na entrada. Por que só 20%, 22% dos candidatos aprovados são mulheres? Quer dizer, o gargalo está na entrada.  Depois que a mulher entra, ela tem uma ascensão comparável a de qualquer homem. Então tem que se buscar qual é a razão.  E eu não sei por que tem esse entrave de acesso.

 

É um grande debate, não é embaixador? E é um Objetivo de Desenvolvimento Sustentável. Mas nós vamos pra uma pergunta. Vamos voltar um pouquinho aí no teleprompter... A próxima pergunta é sobre a vitória do Brasil, quase assegurada, de aumentar sua plataforma continental, passar de 200 milhas que o país já tem para 350 milhas.  E essa vitória ela ocorre na Comissão de Limites para a Plataforma Continental. O que esses recursos energéticos e os recursos de uma maneira geral, como eles podem se traduzir em receita, e como eles podem beneficiar o Brasil e o povo brasileiro?

Não sei se a palavra correta é vitória. Não é uma briga do Brasil contra qualquer outro Estado em que nós tenhamos ganho à custa de outro. A Convenção do Direito do Mar abre a possibilidade que para além das 200 milhas de zona econômica exclusiva, os países possam pleitear uma extensão dessa área de forma que acompanhe a sua plataforma continental. E o Brasil tem vindo aqui, participando de uma forma muito aberta e construtiva, temos feito um trabalho técnico, muito intenso, no Brasil, para delinear, exatamente, qual é o limite da nossa plataforma continental. E se verificou que em alguns pontos da nossa costa, a plataforma se estende além das 200 milhas. O processo está andando. Uma das regiões que nós pleiteamos, são três no total, o processo aqui já está terminado com reconhecimento do pleito brasileiro. E não é soberania, nesse caso, é o direito sobre os recursos econômicos daquela região. Isso já está assegurado. E a segunda região está em debate. Tivemos aqui, no mês passado, uma delegação técnica muito capacitada para discutir com o Comitê esse processo.  A questão tem duas óticas. A primeira, do lado econômico, que você pergunta. O que isso representa? Representa e podemos olhar os recursos vivos e os recursos minerais. Os vivos, o fato de se reconhecer o direito do Brasil àquele recurso de forma exclusiva é também uma maneira de contribuir para a preservação de estoques de recursos pesqueiros. Quer dizer não haverá nessa região pesca predatória de certas espécies. E no subsolo haverá também recursos minerais e petrolíferos, talvez, que possam ajudar no desenvolvimento do Brasil. Agora isso ainda é uma perspectiva teórica porque a tecnologia para a exploração dessas áreas ainda não garante o acesso pleno...

E aí entram parcerias internacionais nessa exploração?

Podem entrar... Mas a tecnologia global ainda está em desenvolvimento para acesso a esses recursos.

 

Nossa última pergunta antes de suas considerações finais. Aqui, como falávamos antes, transmitimos para todos os países de língua portuguesa e para as diásporas incluindo aqui nos Estados Unidos. E um dos nossos temas é a cooperação entre os países de língua portuguesa, o trabalho com a CPLP. Um desses caminhos de cooperação é, óbvio, a nossa língua em comum. E existe uma novidade, ou talvez, não tão mais novidade assim, eu tenho que confessar, que é a possível criação de um Instituto de Língua Portuguesa, pelo Brasil, o Instituto Guimarães Rosa. O que o sr. pode nos dizer sobre isso?

Bom, em primeiro lugar: a CPLP e a cooperação, o diálogo e a concertação entre os países de língua portuguesa é um elemento muito importante para o Brasil. É um espaço natural de diálogo, primeiro porque é fácil o diálogo, mas porque todos temos como substrato uma cultura de origem comum e o diálogo e o entendimento é muito fácil. Atuar nas Nações Unidas mesmo conjuntamente com países com os quais compartilhamos valores e objetivos. Esta cooperação, evidentemente, se estende para além das Nações Unidas. Temos muitas ideias, projetos em comum. O Brasil pra ampliar um pouco esta importância do português, este acesso global ao português está, enfim, em estágio ainda muito inicial de preparação, de criação, do Instituto Guimarães Rosa, que terá sede em outros países para difundir a cultura e a língua por outros países.

 

Muito obrigada, então, Embaixador Ronaldo Costa Filho. Mais alguma coisa que o sr. gostaria de acrescentar a essa entrevista. A sua primeira aqui para a ONU News de muitas?

Espero que sejam muitas. Só agradecer a você, Monica, o espaço e a permanente exposição de estar aqui e conversar com os telespectadores de língua portuguesa que buscam informações sobre a ONU.

 

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