20 janeiro 2020

No dia 22 de janeiro, o general Costa Neves assume o comando na Missão das Nações Unidas na República Democrática do Congo, a Monusco. Em entrevista exclusiva para a ONU News, o militar brasileiro fala sobre os planos para comandar a maior missão de paz da ONU no mundo com 14 mil integrantes.

Qual é a sua expectativa para esta Missão e também para a estabilização da paz na RD Congo?

Primeiro é uma grande honra pra mim e também para o Brasil ter oportunidade de ter um Force Commander do nosso país. É uma perspectiva muito positiva. Uma oportunidade muito boa. Tanto pessoalmente, profissionalmente, como também para o nosso país. E a expectativa é de desafio muito interessante. É muita atividade no terreno e a missão vivem um momento especial. E eu acredito que com a minha chegada, eu vou chegar para juntar forças. Eu gosto muito de trabalhar em equipe, gosto de integrar esforços. Então, a perspectiva de trabalhar num ambiente multidimensional com vários, todos os componentes da Missão. E com todos os setores inclusive do próprio Congo, para que nós possamos entregar para o próprio Congo para que nós possamos entregar para a população do Congo uma situação mais adequada e mais compatível com o que eles precisam.

 

A gente tem que lembrar que o sr. está, nesse momento, a caminho da RD Congo, o sr. ainda obviamente não chegou e ainda vai conhecer o terreno.  Mas o sr. foi boina-azul em Angola nos anos 90. De lá para cá muita coisa mudou em missões de paz, na maneira como a ONU atua terreno.  Mas como o sr. espera esta próxima experiência, baseada na sua experiência em Angola nos anos 90?

São perspectivas diferentes, contextos diferentes, circunstâncias bem diversas. Mas existe obviamente um fundo comum a todos. Primeiro, os grandes objetivos das Nações Unidas. Quais são as principais metas, as estratégias a serem implementadas e isto é uma constante. E nós temos que estar, como está dito até  no próprio mandato da Monusco, a proteção dos civis como uma prioridade absoluta para a conduta das atividades. Mas, lá na década de 90 e pra agora, os métodos, os processos, os mecanismos da ONU para alcançar os seus objetivos previstos nos mandatos são diferentes. Mas, o que eu vejo sempre é a possibilidade de trabalhar nessa diversidade cultural. Na diversidade dos pontos de vista que todos buscando os mesmos objetivos, mas olhando o problema com perspectivas diferentes, e isso é um desafio interessante. Construir, colocar junto todas essas visões, as diversidades culturais e alcançar os objetivos que são propostos. Esse talvez tenha sido o grande ensinamento que eu tive na década de 90 ao trabalhar na África, em Angola, o quanto isso é importante. O quanto os relacionamentos são importantes para se alcançar os objetivos comuns traçados.

 

Mais alguns desafios que o senhor espera nessa missão?

Logicamente, que o desafio mais premente é de acabar (com a violência) e avançar  a pacificação do país. Hoje, logicamente, que a ONU fez um excepcional trabalho, tem feito um trabalho excepcional, 70%, 75% do país já está pacificado, com alguns problemas de segurança. Mas, de uma maneira geral, pacificado. E agora essas seis províncias do oeste que precisam de uma melhor atenção. Precisam de uma sinergia de todos os componentes, da Missão e com as autoridades do Congo, para que primeiro se trace objetivos comuns muito bem definidos e muito claros, e depois é realmente juntar esforços para se alcançar esses objetivos.

ONU/Michael Ali
Costa Neves lembrou que a força de paz da ONU na República Democrática do Congo tem um contingente total de 15% de mulheres.

 

O senhor falou do seu tempo em Angola, obviamente a gente já pensa imediatamente, que havia um ponto super importante que era a língua em comum, a língua portuguesa. E o senhor, na RD Congo, vai contar com mais de 20 militares brasileiros que estão ali fazendo um treinamento que já foi inclusive muito elogiado. Um treinamento na selva. O senhor pretende continuar com essa iniciativa, alargá-la, ter mais brasileiros?

Essa é uma iniciativa que foi tomada, no ano passado, é excepcional. Nós no Exército Brasileiro, nós temos uma expertise fenomenal da capacidade de operar na selva. Os nossos guerreiros de selva, que são formados no nosso Centro de Instrução de Guerra na Selva são internacionalmente reconhecidos pela sua qualidade, sua capacidade e a sua eficiência naquele ambiente operacional. No leste do Congo, o ambiente operacional se assemelha muito àquele da nossa Amazônia brasileira. Por isso, que o nosso grupo tem sido tão elogiado e tem alcançado tão bons resultados. Trabalharam com o FIB, as forças de intervenção, e estão trabalhando agora com as Forças Armadas. Sem dúvida nenhuma, estão acrescentando muito, trazendo muita qualidade à forma como nós temos que enfrentar os desafios de lutar contra os grupos armados naquela região. E obviamente, todo o momento que for observada a necessidade de um treinamento específico para o ambiente operacional do oeste do Congo, serão levantados. E vamos fazer esforços junto com a representante especial do secretário-geral, para que nós possamos trazer essas capacidades e essas competências para a missão e para o Congo de uma maneira geral, para que nós possamos acabar com a tarefa de proteção dos civis e a pacificação do leste.

 

E falando em civis e em pacificação a gente lembra, por exemplo, que um dos objetivos das Nações Unidas na questão das operações de paz é aumentar a participação de mulheres. Queria saber do senhor como é que vai ficar esse objetivo sob a sua liderança e que diferença essas mulheres podem fazer.

 

Esse é um aspecto que é considerado de primeira prioridade para as Nações Unidas, é um assunto que é considerado até transversal a todas as ações das Nações Unidas. Não há dúvida que contar com as mulheres nas operações de paz, nas mediações, nas prevenções e nas soluções e das Nações Unidas tem se mostrado extremamente eficiente. extremamente eficientes. A perspectiva que a mulher traz para a análise e a condução dessas atividades é uma coisa inquestionável. portanto, eu obviamente vou dar todo o apoio e me esforçar para que nós tenhamos cada vez mais participação das mulheres dessas missões de paz. Todas as atividades em que elas estão presentes a marca de qualidade também se faz presente. Eu fiquei estudando os números da Monusco e fiquei muito satisfeito em saber que  o objetivo numérico para este ano foi alcançado. A Monusco estava com objetivo de ter 15% de participação feminina e ultrapassou essa marca. Por enquanto está melhor, mas ainda temos ainda mais a ser feito. Vamos contar com as capacidades, com as competências e as perspectivas das mulheres para a solução dos problemas que vamos enfrentar este ano no Congo. 

E a gente lembra que esta marca é bem superior à média global de participação de mulheres militares. Infelizmente, a nossa entrevista vai chegar ao fim e eu gostaria de deixar o microfone aberto para as suas últimas considerações.

Estou muito feliz, satisfeito com essa oportunidade de me juntar a este time das Nações Unidas. E mais especificamente no time da missão do Congo, na Monusco. E fico muito satisfeito em poder trazer alguma experiência e juntar os meus esforços para que nós possamos ter uma missão cada vez mais efetiva.

 

 

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