3 outubro 2019

A ONU News em Nova Iorque conversou com o ex-diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO. O brasileiro aponta a má nutrição e outras formas de deficiência nutricional como “fome escondida”.

José Graziano da Silva ocupou a chefia da FAO até 31 de julho, após cumprir dois mandatos à frente da agência das Nações Unidas. A entrevista à ONU News foi feita de Brasília.

ONU News, ON: Ex-diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO, José Graziano da Silva, lançou a obra “do Fome Zero à Zero Hunger – Uma Perspectiva Global”.  Este é um livro que retrata a sua gestão da agência entre 2012 e 2019. Porque é importante contar esta história?

José Graziano da Silva, JGS: Eu procurei reorientar a FAO para voltar às suas origens. A razão fundamental pela qual a FAO foi criada no imediato pós-guerra foi para acabar com a fome. Erradicar a fome era a atividade principal. Até 2015, com os Objetivos do Milênio, nós tínhamos um objetivo de reduzir a fome à metade. E era uma situação difícil porque, como disseram as outras pessoas, o que nós teríamos a dizer à outra metade? Que continuaria a passar fome? Não era essa a nossa missão.

Então, eu procurei orientar sempre a organização a lutar pela erradicação total da fome. Acabar com a fome. Isso se materializou justamente nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. O objetivo número 2, como todos sabem, é erradicar a fome. Mas não parou aí. O objetivo número 2, como todos sabem, é erradicar a fome e todas as formas de má nutrição, além de promover o desenvolvimento sustentável da agricultura. Essa outra parte, todas as formas de má nutrição, é ainda mais importante nos dias de hoje. Que nós combatemos hoje não é mais a fome, mas também a obesidade e outras formas de deficiência nutricional que a gente chama de fome escondida.

Muito bem, esse foi um espírito que eu reuni no livro. Essa trajetória de um programa brasileiro que deu resultados excepcionais. O Brasil logrou erradicar a fome em menos de uma década. E foi de alguma maneira inspiração de outros países para que pudesse implantar políticas de segurança alimentar similares e seguir um modelo de erradicação da fome. O livro procura também destacar que hoje não basta só combater a fome. Tem que tratar também o tema da má nutrição, principalmente o tema da obesidade. Se hoje, fôssemos fazer algum programa “Fome Zero” teria de ser um programa “Fome Zero e Gordo Zero”.

Acabar com a obesidade é o grande desafio que nós temos de momento, sem falar da questão de promover uma agricultura sustentável porque os temas da fome, da obesidade e da mudança climática estão profundamente interligados. Uma interligação muito explícita, fácil de ver, é o desperdício dos alimentos, a perda dos alimentos. Hoje, nós jogamos fora um terço da nossa produção de alimentos. Se nós conseguíssemos diminuir isso, diminuiria muito a pressão sobre os recursos naturais, principalmente o uso da terra e da água, que são cada vez mais escassos.

E é a sociedade que decide erradicar a fome e a má nutrição

ON: Hoje, já do outro lado deste combate, vê as coisas de forma diferente?

JGS: O combate à fome reuniu, no caso do Brasil, um conjunto de práticas que já eram implementadas em nível de cidades. Ele estabeleceu um mecanismo de coordenação. A importância do programa Fome Zero foi estabelecer um estado de governança entre o caso brasileiro, no nível de governança, entre governo federal, estados federativos e os municípios. Além disso, envolver também a sociedade civil e o setor privado. Sem o setor privado não se consegue progressos na erradicação da fome e muito menos da obesidade e formas de má nutrição. Então, eu vejo hoje a dificuldade muito mais em estabelecer essa liderança. Em estabelecer esse pacto político de uma sociedade. É a sociedade que decide erradicar a fome e a má nutrição. É muito mais difícil fazer isso do que, de fato, implementar o programa. Muita gente fica pensando que não tem dinheiro, não é um problema de dinheiro. O dinheiro aparece e custa muito menos do que a gente imagina.

 

ON: A sua obra já está online e é possível descarregar, gratuitamente, uma cópia com prefácio do diretor-geral Qu Dongyu. Há um outro tema para o qual deu seu impulso: a estratégia contra a fome e insegurança na Cplp. Agora, o que dizer desse projeto? 

JGS: Olha, eu diria que o compromisso do novo diretor-geral, doutor Qu, é o mesmo: de continuar perseguindo essa ambição de erradicar a fome e todas as formas de má nutrição e promover o desenvolvimento de uma agricultura sustentável. Ele foi eleito com esta plataforma e ganhou esse mandato. De modo, que eu não tenho nenhuma dúvida que o programa da CPLP vai continuar andando porque é hoje um programa modelo também nos Estados africanos que o estão adotando. Desde a Resolução de Moçambique, em 2013, isso andou para outros países como Angola, as pequenas ilhas de fala lusófona como Cabo Verde, como São Tomé e Príncipe. De modo que eu estou muito otimista de que continuaremos a progredir. Um exemplo importante de progresso existente na direção do fome zero é o pequeno país encravado na Ásia, ao lado da Indonésia, que é Timor-Leste. Timor-Leste criou um Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional. Os Ministérios trabalham ombro a ombro: Agricultura, Desenvolvimento, Saúde, Irrigação para promover o desenvolvimento de uma agricultura sustentável e acabar com a fome e a má nutrição.

Então, o Timor-Leste é hoje um exemplo hoje de como um país de recursos escassos e de dificuldades imensas pode adotar uma estratégia desenvolvimentista de promover agricultura familiar e desenvolver as suas potencialidades domésticas, e ao mesmo tempo, e erradicar a fome a má nutrição que são incompatíveis com uma sociedade moderna.

Eu estou muito preocupado com a interligação entre o tema da fome e da obesidade e das mudanças climáticas

ON: Alguma coisa mais a dizer sobre estes momentos dentro e fora da FAO agora da forma como vê o mundo e os progressos no combate à fome?

JGS: Eu estou muito preocupado com a interligação entre o tema da fome e da obesidade e das mudanças climáticas. As mudanças climáticas têm complicado muito esta equação que – de alguma maneira - estava resolvida. Promover a produção de alimentos mais nutritivos etc, hoje esbarra nas secas prolongadas, na falta de disponibilidade de água, enfim, tudo isso que estamos vendo se repetir sem que os agricultores tenham, principalmente os agricultores familiares, mais pobres e pequenos, tenham recursos, financiamento para enfrentar este problema. De modo, que mais do que nunca é preciso uma coordenação internacional através das agências, da FAO, do Programa Mundial de Alimentos, e do Fida e que eles tenham um papel fundamental nesse desenvolvimento sustentável da agricultura. Sem se lograr um financiamento ao qual os agricultores mais pobres, menores, possam ter acesso não conseguiremos isso. E o Fida está, na minha opinião fazendo um esforço extraordinário para isso, e merece o apoio internacional. 

Foto: FAOALC
Obesidade e subnutrição são dois problemas

FIM

 

♦ Receba atualizações diretamente no seu email - Assine aqui a newsletter da ONU News
♦ Baixe o aplicativo/aplicação para - iOS ou Android
♦ Assista aos vídeos no Youtube e ouça a rádio no Soundcloud