19 julho 2019

O diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, FAO, deverá deixar o cargo no final deste mês. Acompanhe a entrevista de despedida de José Graziano da Silva à ONU News, em Nova Iorque. O brasileiro fala da questão da fome, da obesidade e da marca que gostaria de deixar para a posteridade.

 

Acaba de sair um relatório sobre 820 milhões de pessoas passando fome. O que a FAO tem a dizer sobre isso?

Eu diria que esse nosso relatório, que nós produzimos todos os anos, sobre o estado da insegurança alimentar no mundo e nutricional no mundo, apresentou três, eu não vou dizer surpresas, mas novidades. A primeira foi esse número de 820 milhões de pessoas que continuam famintas. Nós esperávamos, desde que definimos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, progredir no caminho de zerar a fome no mundo. A Fome Zero virou o objetivo de todos. E é inacreditável que desde que nós decidimos mirar no Fome Zero, a fome tem aumentado. E nós temos insistido que tem aumentado por causa dos conflitos, por causa do impacto das mudanças climáticas, e agora esse ano o nosso relatório apresentou que ainda o tema da recessão econômica, da falta de crescimento nos países em desenvolvimento é a grande causa. 85% dos países em desenvolvimento tiveram aumento no número de famintos porque têm uma situação econômica difícil internamente nesses países. Então, não há dúvida que é a economia que está nos levando para trás. Mas há dois novos números que eu queria aproveitar e chamar a atenção. Nós apresentamos pela primeira vez os resultados da escala de segurança nutricional e essa escala, que é um dos indicadores do milênio utilizado, e a FAO é responsável pela sua elaboração, apresentou um número surpreendente. 2 bilhões de pessoas no mundo têm alguma forma de insegurança alimentar. Não apenas a forma severa que é a fome, mas além dos 820 milhões que passam fome, temos mais quase 1,2 bilhão que têm formas moderadas de insegurança alimentar. O que são estas formas moderadas. A insegurança dos que não têm emprego e não sabem se vão ter dinheiro para comer. A insegurança dos que ganham muito mal e não sabem se terão dinheiro até o final da semana para comer. A insegurança das pessoas que estão em áreas de conflitos e não sabem se vão ter acesso aos alimentos. Enfim, uma série de inseguranças que se somam e provocam essa incerteza de haver comida ao alcance de quase 2 bilhões de pessoas. Isso é muito, eu disse que parece que estamos voltando ao tempo que nós éramos caçadores, pescadores, coletores de frutas, na pré-história da humanidade, antes da agricultura mesmo. Porque, a agricultura nasce com o desejo de assegurar a alimentação, de dar segurança alimentar. E é próprio desse momento essa insegurança. É parte dessa grande insegurança que vive o mundo. Há um terceiro número que eu queria destacar. Um número que nos surpreendeu. Feitos os ajustes, na tendência, nós descobrimos que desde 2016, já temos mais pessoas obesas no mundo do que pessoas passando fome. É uma contradição, e hoje, projetado o número para 2018, posso dizer que nós temos 10 milhões a mais de pessoas obesas que o número de pessoas passando fome. Então, o grande número é 830 milhões de pessoas obesas num mundo que tem ainda 820 milhões passando fome.

 

Qual seria a solução?

A solução é ter sistemas alimentares melhores. Nossos sistemas alimentares estão falhando. Estão entregando o acesso a uma comida de baixo valor nutricional. Barata, mas de baixo valor nutricional. As pessoas comem, acham que estão bem alimentadas, mas não, não estão. Estão saciadas de fome, porque comeram muito sal, muito açúcar, muitos óleos, graxas, gorduras saturadas. Então, é uma verdadeira epidemia. Estamos comendo cada vez mais produtos ultra processados que a gente nem sabe o que contém. Quem é que sabe o que tem dentro de uma salsicha? Quem sabe os aditivos químicos que estão ali? São produtos artificiais que estão levando a essa epidemia de obesidade no mundo.

FAO/Alessandra Benedetti
Qu Dongyu, da China, sucedeu o brasileiro Graziano da Silva no comando da FAO.

 

Qual acha que foi a sua grande batalha nesse período à frente da agência?

 A grande batalha foi fazer a FAO voltar a suas origens. A FAO foi criada no pós-guerra para erradicar a fome. Naquele momento, no pós-guerra, pensava-se que precisava aumentar a produção de alimentos, porque havia muita fome por falta de produção de alimentos, por falta de alimentação. E houve um grande passo com a revolução verde que aumentou tremendamente e produção de alimentos no mundo e evitou fomes na Ásia, sobre tudo, Índia, Paquistão, mas, começou a produzir mais alimentos do que necessário. Nós começamos a jogar fora os alimentos que produzíamos em grande parte. E a FAO continuou empurrando a produção. Continuou dizendo que precisava produzir mais. Então, reorientar a FAO para olhar mais para o acesso dos alimentos e não apenas para a produção. Mais o lado do consumidor, a qualidade nutricional dos produtos, foi a grande guinada que eu acho que a FAO deu nesses últimos anos.

 

Como gostaria de ser lembrado?

Eu gostaria de ser lembrado como a pessoa que todo o tempo acreditou que podemos erradicar a fome no mundo.

Eu gostaria de ser lembrado como a pessoa que todo o tempo acreditou que podemos erradicar a fome no mundo.

Algo mais que queira falar para encerrar a entrevista?

Eu queria dizer que estamos passando um momento muito difícil, o sistema das Nações Unidas, com esse ataque às Organizações Multilaterais, à redução dos recursos financeiros. O mundo precisa das organizações internacionais. Pensar que os problemas que nós temos, do clima, dos conflitos, de obter uma produção mais saudável, possa a ser alcançada a nível do país, é uma ilusão. Nós precisamos desses grandes acordos, nós precisamos impulsar a cooperação internacional. Então, eu deixo aqui uma mensagem de apelo para os países serem mais ativos em sustentar o sistema das Nações Unidas.

 

Vai continuar na ONU ou vai voltar para o Brasil?

Eu volto para o Chile. É uma decisão tomada pela minha mulher. Nós compramos um pequeno apartamento quando eu era diretor da Oficina Regional do Caribe. E ela considera que lá é o nosso home (casa). Então, vamos voltar ao Chile. Por um tempo, eu diria, até a situação melhorar um pouco no Brasil.

 

 

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