31 maio 2019

O policial militar ocupa o cargo de Gerente de Missão e é membro da Equipe de Crimes Transnacionais e Organizados, na Divisão Policial do Escritório de Estado de Direito e Instituições de Segurança do Departamento de Operações de Paz da ONU. O boina-azul é o primeiro policial militar brasileiro a trabalhar na sede da ONU, em Nova Iorque.

Para começar, eu gostaria que o senhor nos falasse um pouco desse trabalho que o senhor está desenvolvendo aqui na sede da ONU em Nova Iorque.

Bem, eu estou aqui já no meu segundo ano, o contrato inicial é de dois anos, e o nosso trabalho na sessão, na unidade de crimes transnacionais e organizados, ele atua num nível mais estratégico com diversos atores tanto no âmbito das Nações Unidas, no âmbito do sistema interno da ONU, mas também com atores e parceiros bilaterais e multilaterais em diversas áreas de atuação. Então, nós trabalhamos com o Unodc, o Unoct, nós trabalhamos com Estados-membros no desenvolvimento de algumas políticas na área que envolve todo o tipo de tráfico, todo o tipo de escravo moderno, então, é uma gama muito ampla diversificada de atuação. A nossa equipe contém especialistas de alguns países e nós estamos, nós representamos a divisão policial das Nações Unidas, toda vez que tem algum assunto relacionado com esse tipo de temática.

 

O senhor também já trabalhou em três missões da ONU anteriormente e duas delas em campo. Eu queria que o senhor nos falasse um pouco desse trabalho, e como que esse trabalho em campo se compara com o trabalho que o senhor está realizando agora aqui.

É sempre muito interessante, a minha primeira missão foi em 2006 no Haiti, eu trabalhei na área operacional. Então, de fato você estar ali no field, no terreno, em operações na época, que estava no início da Minustah ainda, desenvolvendo muito trabalho conjunto de monitoramento da polícia nacional haitiana, que estava no seu processo de reestruturação, desenvolvendo atividades de prisões e de planejamentos operacionais nessa primeiro ano, e ali realmente a gente tem um contato com a polícia nacional, com a polícia de mais de 40 países naquele âmbito. É uma experiência muito rica e em prol da sociedade e do povo, naquele caso o haitiano, que tanto necessitava do apoio internacional, da comunidade internacional representada pelas Nações Unidas. Depois do terremoto, isso foi antes do terremoto, depois do terremoto eu retornei numa área mais acadêmica, na área de desenvolver currículos na academia de polícia nacional haitiana. E depois trabalhei um bom período de tempo fazendo também seleções de policiais para trabalhar em missões das Nações Unidas em vários países do mundo, e também promovendo treinamentos para os policiais da ONU, tanto básicos com nos desenvolvimentos mais específicos, como em ações de violência contra as mulheres, menores, e outras, que são hoje, proteção de civis, que são hoje fundamentais atividades da ONU no terreno. E em comparação com a atividade aqui no quartel-general, a gente pode ver de um nível mais estratégico, ocupando um cargo estratégico depois de um longo processo seletivo para poder chegar até aqui. As diferenças, como as decisões tomadas aqui afetam aqueles que estão diretamente trabalhando no terreno, e é muito enriquecedor como profissional da área por mais de 20 anos, poder fazer essa comparação da minha experiência profissional no Brasil, minha experiência internacional em áreas de conflito e pós-conflito, e hoje, numa área, trabalhando num cargo considerado de um nível estratégico. Então, fazer essa comparação e essa análise é muito enriquecedor e com certeza eu posso colocar ali a minha pequena contribuição em todo esse processo.

 

Na sua opinião, quais as maiores dificuldades enfrentadas pelas missões da ONU e também, quais as maiores contribuições no campo para as comunidades.

Geralmente as comunidades num período pós-conflito, elas são muito carentes. E são muito sensíveis e relutantes as vezes até com o, a pessoa uniformizada, porque vem de um confronto armado, de guerrilhas e outros contextos. Depende muito também da área onde a gente atua. Mas, a partir do momento que a gente desenvolve, principalmente no componente policial, políticas de policiamento comunitário, policiamento de aproximação com a comunidade, desenvolvimento de estratégias onde aproxima as autoridades estatais da comunidade e desenvolva projetos em benefício, e articulação com outras agências humanitárias, agências do sistema das Nações Unidas, agências outras e ONGs internacionais que também atuam em comparação com as missões de paz. Então, a gente poder ver o sorriso na criança, ver o sorriso de uma pessoa muito carente que tem uma vida muito sofrida na maioria dos casos, e poder simplesmente ter um abraço, perceber, sentir que tem muita gente que está ali somente em prol de prover uma estabilidade, uma paz e uma segurança para que aquele país possa com o tempo se estabilizar e ser sustentável tanto na sua paz como politicamente, economicamente. Então, isso é muito positivo. E os ganhos, para mim, são inúmeros. A gama de conhecimentos adquiridos, que a gente trabalha com policiais civis e militares, de várias nacionalidades. Então a gente aprende doutrinas diferentes, formas de pensar diferentes. Temos que nos adaptar muitas vezes. Aquilo que a gente tem como correto, às vezes não é necessariamente correto para o outro. Então a ONU ela propõe essa possibilidade de não apenas enriquecimento cultural e técnico-profissional, mas também de nos tornar pessoas mais flexíveis e abertas a questões que às vezes não temos na nossa realidade em nosso país de origem. Mas isso nos permite com certeza trazer de volta pro nosso país e poder aplicar aquilo que for possível dentro do nosso contexto social.

ONU/Rick Bajornas
Ministra discursou em evento na sede das Nações Unidas em Nova Iorque.

 

Excelente. Algum outro ponto que gostaria de acrescentar antes de encerrarmos nossa entrevista?  

Eu agradeço muitíssimo a oportunidade. Eu espero que como primeiro, e não último porque eu espero que muitos outros policiais brasileiros também tenham essa oportunidade em encontrar-se aqui. E dizer que o trabalho nas Nações Unidas oferece no mundo, ele é muito importante. E hoje a polícia, inclusive através de resoluções do Secretário-geral, do Conselho de Segurança, têm mostrado o quão importante o trabalho da polícia é, porque trabalha diretamente nas questões do crime comum. E isso é algo prazeroso, saber que a minha profissão, aquela que eu escolhi, ela é projetada universalmente e tem uma significância. Sempre que a gente pode prevenir um crime ou tentar coibir ações que venham prejudicar a vida e a estabilidade de uma sociedade.

 

Sérgio, muito obrigada. Parabéns pelo Dia Internacional dos Boinas-azuis e parabéns também pelo trabalho desenvolvido. Eu agradeço muito.

Eu que agradeço.

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