17 maio 2019

O embaixador de Moçambique junto às Nações Unidas explica a segunda fase da ajuda humanitária, a fase de reconstrução. António Gumende acaba de chegar do país, onde acompanhou de perto o impacto dos dois ciclones que aconteceram em 45 dias. Na sede da ONU, o representante participou de uma reunião, na quarta-feira, para debater as formas de apoio da comunidade internacional.

Bem-vindo de Moçambique. Pode nos caracterizar um pouco o ambiente que encontrou em Moçambique, cerca de dois meses depois do primeiro ciclone?

Penso que o ambiente é de concentrar as atenções no processo de recuperação. Como disse bem, em pouco menos de dois meses tivemos dois ciclones. Um dos quais foi muito devastador na zona central, mas também o Kenneth que afetou o norte de Moçambique também teve um grande efeito sobre a região norte. Portanto, a concentração das atenções neste momento é não só continuar a mobilizar as atenções internacionais para esta fase que ainda continua a caracterizar-se como uma fase de emergência, até um certo ponto. Mas sobretudo olhar mais para a frente para a fase de reconstrução pós-ciclone. Neste momento está em preparação, portanto, a conferência de doadores para os compromissos que possam ser anunciados para o processo de reconstrução, que é uma fase muito importante, tendo em conta a escala e magnitude dos danos que foram causados por estes dois fenômenos, dois desastres naturais. Fala-se numa estimativa de 1.8 milhão de pessoas afetadas, mais de 800 mil hectares de terras com culturas alagadas. Como sabe, naquelas regiões a nossa população é maioritariamente camponesa, vive da agricultura, portanto uma área desta magnitude, que segundo as estimativas representa 13% da área plantada para esta estação agrícola, portanto, pode a partir daí depreender o impacto que estes dois desastres naturais tiveram no país. A informação oficial indica que, mesmo em termos de projeções do crescimento econômico que estava previsto para este ano, foi de certa forma revisto em baixa, dos cerca de 4,6% que se esperava de crescimento econômico, neste momento está-se a projetar que o crescimento ronde os 2.5% do Produto Interno Bruto.

 

É um grande revês para a economia. Mas nós tivemos aqui nas Nações Unidas há pouco tempo alguns sinais de esperança. Acaba de sair de um encontro no qual se estava a pedir mais ajuda e se dizia, por exemplo, falo da representante do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, dizia que os moçambicanos estão preparados agora para avançar. Eles querem ultrapassar esta fase. Então falava de uma fase que foi de emergência, agora é a fase da recuperação. O que é que saiu de promessa deste encontro? Deu para ler alguns sinais da comunidade internacional?

Penso que os sinais são sempre positivos. Apesar de se pensar que até agora temos uma resposta para o que foi lançado na ordem dos 30%, mas são valores substanciais. 90, 100 milhões de dólares são valores substanciais. Obviamente que tendo em conta a magnitude do desastre, são precisos mais recursos, isso é óbvio. Estes eventos regulares são importantes porque mantem, de certa forma, a atenção da comunidade internacional sobre a necessidade de continuar a olhar para as necessidades dos países, neste caso do ciclone Idai, Zimbábue, Malawi e Moçambique, mas também no nosso caso porque tivemos mais um desafio com o ciclone Kenneth na província de Cabo Delgado, continuarem a prestar atenção. Esta é uma oportunidade que o próprio sistema das Nações Unidas encontrou, obviamente com o nosso contributo, para podermos trocar informações sobre o estágio da resposta aos apelos que foram lançados. E também podermos, de certa forma, partilhar a informação daquilo que são as ações do nosso governo para a fase subsequente das nossas intervenções. Como pode depreender, das nossas intervenções e das intervenções da diretora do bureau africano do Pnud, que também esteve em Moçambique recentemente, o governo está empenhado em pôr as medidas necessárias para que o processo de recuperação comece. Há a conferência de doadores que se projeta para finais do mês, faz parte desse grande esforço. Não é fácil em tão pouco tempo fazer o levantamento das necessidades e para isso podemos contar com especialistas colocados pelo sistema das Nações Unidas e outros parceiros para nos ajudarem neste processo. E também a ação do governo, que criou um gabinete especifico para se responsabilizar por este processo. Portanto mostra que o governo está a pôr, digamos assim, os pilares necessários para podermos avançar para esta fase importante que é o início da reconstrução.  Já tivemos no passado eventos similares, como sabe, depois das cheias do ano 2000. Tivemos também uma conferência de doadores em Roma que resultou na mobilização de recursos que foram canalizados para o esforço de reconstrução. Esta é uma experiência da qual podemos recorrer. Mas, como disse, o governo está empenhado em preparar este evento para que os resultados sejam os que todos nós almejamos. 

 

Embaixador, vimos logo a seguir a estes eventos a presença de lusófonos como Angola a enviar equipas técnicas, enviar produtos, enviar ajuda de vários tipos. Vimos o Brasil que enviou os bombeiros que foram trabalhar lá no centro, e depois no segundo ciclone, no Norte. Vimos Portugal com as forças militares, com o material que ajudou as populações a purificar a água. O que é que conta ter deste grupo de países, aqui nas Nações Unidas e nesta caminhada de reconstrução de Moçambique?

Em primeiro lugar, agradecer o empenho e envolvimento direto dos países de língua oficial portuguesa, que tiveram uma atuação, digamos que exemplar na assistência imediata, incluindo nas buscas e salvamento, como bem reportou, e também com um contributo substancial em termos de tentativa de cobrir parte das necessidades que advinham de ter uma vasta área e um número significativo da população afetada, portanto, por este desastre. Esta é uma atuação que é de elogiar e mostra o espirito de solidariedade que, de certa forma, comungam os países que são membros da Cplp. Obviamente que os desafios se mantêm, é importante que continuemos a trabalhar em conjunto. Aqueles que tiverem possibilidades de participar nas próximas etapas, em particular na etapa de reconstrução, obviamente que o poderão fazer, mas há muitas formas de continuar a apoiar, incluindo a continuação da mobilização de recursos, por outras vias, quer da sociedade civil, quer do setor privado, quer de outros atores que possam ter um papel a jogar nesta etapa que é crucial para voltar, de certa forma, a pôr a economia das regiões afetadas sobre os carris.

PMA/Deborah Nguyen
Entrega de alimentos do PMA na ilha de Matemo, Moçambique, em 8 de maio de 2019.

 

Bom, lembrando que falamos aqui da sociedade civil mobilizada, temos Cabo Verde que também enviou fundo, tem organizado eventos para angariar fundos. Ainda vai valer a pena organizar este tipo de iniciativas para esta fase posterior?

Eu penso que toda ajuda é bem-vinda, o importante é olhar para aquilo que são as prioridades para cada fase. Houve uma fase de salvamento, e de cobertura de necessidades imediatas para as próximas fases é encontrar formas de ajudar as populações afetadas para reconstruir as suas vidas, sobretudo. Sabemos que grande parte dessas populações são populações que, de certa forma, com meios e recursos limitados, portanto qualquer apoio que lhes possa prometer a reconstruir as suas vidas também é um sinal positivo que será também de elogiar.  

Bombeiros do Brasil
Ciclone Kenneth: Bombeiros brasileiros em operação de busca e salvamento em Pemba, Moçambique.

 

Algo mais a dizer, embaixador, a respeito desta segunda fase de reconstrução de Moçambique. Após dois ciclones, o que vai continuar a levar à comunidade internacional?

O mais importante é conseguir manter o momento criado de continuar, digamos, a mobilizar os recursos para cada fase e penso que isso é a prioridade principal. Eu penso que esta conferência que está sendo preparada para finais do mês é um momento crucial, porque vai permitir, de certa forma, avaliar de forma objetiva o momento com que recursos podemos contar de imediato. É claro que o processo de reconstrução vai ser um processo de longo prazo, um processo que vai ser de um a dois anos. Portanto vai ser um processo contínuo, fala-se de cerca de que excede 3 bilhões de dólares. Esse valor a ser mobilizado obviamente que não será de uma aplicação imediata, somente para Moçambique, portanto vai ser um processo que vai levar o seu tempo e esperamos poder continuar, portanto, a contar com o apoio e a solidariedade da comunidade internacional como tem sido até agora.

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