29 março 2019

A capitão de corveta brasileira Márcia Andrade Braga é a vencedora do Prêmio de Defensora Militar do Gênero das Nações Unidas. A boina-azul serve na Missão da ONU na República Centro-Africana, Minusca, desde 2018.

Pode nos contar um pouco da sua trajetória?

Minha trajetória, eu trabalhei um tempo como professora, em escola pública, tinha uns sete anos, e depois eu entrei para a Marinha. Tenho 18 anos na Marinha, foi uma atividade que eu trabalhei com atividades mais operativas dentro da força, então, minha carreira ficou um pouco atípica. Então, eu trabalhei muito tempo como controle de tráfico marítimo. 

Márcia Andrade Braga foi professora e também ajudou a treinar e a aumentar a consciência dos seus colegas boinas-azuis sobre a dinâmica de gênero na operação de paz, by Minusca/Hervé Serefio

Sobre a ONU, era um sonho para mim, fazer parte da ONU, mas também, era um pouco, não tinham informações. Eu queria, mas tinha um pouco de receio porque eu não sabia como seria. Mas, chegou um momento que eu falei, não, eu quero, e vai dar certo. Então, assim, saiu o documento da Marinha, falando sobre o voluntariado para fazer parte da Missão. No mesmo instante, eu fui voluntária. E aí começou o processo.

A partir do momento em que eu fui voluntária, apareceu uma vaga, a vaga de conselheiro de gênero comandante da força da Minusca, que tinha alguns requisitos. Por exemplo, falar inglês, desejavelmente falar francês, que são idiomas que eu falo. Isso já facilitou e a Marinha falou, você gostaria de concorrer à vaga, e eu disse, sim. Então eu concorri à vaga com outra oficial do Exército, uma tenente coronel. Participámos de um curso no Uganda, curso de gênero da ONU, e a outra oficial participou do mesmo curso, mas no centro nórdico, na Suécia.

Depois do curso, passamos por uma entrevista, por telefone, em inglês, para testar o inglês, e ao mesmo tempo para testar os conhecimentos de gênero. Aí, eu fiquei na liderança e, aí, recebi a informação de que eu iria para a Missão. Na realidade, para mim, a missão foi a realização de um sonho. Eu queria muito, eu sempre acreditei muito na importância da ONU. E sempre acreditei que é um símbolo de esperança. Então, eu fiquei muito honrada e muito feliz por poder ir para a Missão. Então foi um momento de muita alegria e de realização.

O que eu posso falar da minha experiência, é que as militares femininas têm muito comprometimento e trabalham duro e estão muito engajadas com a comunidade e realmente se sensibilizam com o problema

Como é o trabalho que desenvolve na Missão, esse trabalho pelo qual foi reconhecida e conquistou esse prêmio? E como é ter esse tipo de reconhecimento?

O trabalho que eu desenvolvo é um trabalho militar, dentro do componente militar, entretanto eu tenho uma interação com os outros componentes da missão, componentes civil, policial e também muito com a população local.

É um trabalho que eu gosto muito, embora não seja um trabalho fácil, e que exige uma dedicação. Mesmo quando eu não estou no quartel-general, eu estou na minha casa, eu estou preparando, estou recebendo os relatórios, estou preparando toda a parte de aconselhamento para cada assessora de gênero que eu tenho nos setores. É um trabalho que exige uma dedicação para que ele aconteça.

É um trabalho que foi crescendo e a tendência é que não pare. Quando eu cheguei na Minusca, na realidade só havia a posição do assessor ligado ao comandante da força. Então nós temos generais em cada setor, não tinha as funções e não tinha pontos focais nos batalhões. Então, todo o trabalho, foi preparado um plano de ação estabelecendo o pessoal, treinando, mostrando a metodologia de trabalho. Receber a premiação, para mim, é uma grande honra. Eu vejo como um reconhecimento das Nações Unidas. Vejo também como uma sinalização do trabalho das militares mulheres nas missões de paz. Vejo também como uma sinalização da importância de termos mais mulheres, o número ainda está bem longe do ideal.

Ao saber do prêmio, Braga disse estar muito orgulhosa por sua seleção , by Minusca/Hervé Serefio

Então, assim, eu vejo como um momento único para que a gente possa reivindicar uma participação maior feminina. E mostrar que sim, que nós, mulheres, a gente tem total condição de assumir uma missão, de ir até ao fim, e de ser muito bem-sucedida.

O que eu posso falar da minha experiência, é que as militares femininas têm muito comprometimento e trabalham duro e estão muito engajadas com a comunidade e realmente se sensibilizam com o problema. Então, eu acho que é o momento para a gente ter mais mulheres e incentivar para que cada vez mais a gente possa ter mais engajamento com a comunidade.

A parte mais difícil, realmente, é lidar com as violações, com os problemas. 

Qual seria a parte mais difícil do seu trabalho na Missão? E o que gosta mais?

A parte mais difícil, realmente, é lidar com as violações, com os problemas. E o que eu mais gosto é a minha interação, justamente com as mulheres locais. É um momento em que entendo o que está se passando, um momento em que eu consigo me por no lugar delas e obter informações que eu sei que são importantes para prevenir as violações.

Algum ponto que gostaria de adicionar?

Eu gostaria de adicionar para sempre ouvir as mulheres. As líderes locais. Porque as pessoas irão se surpreender. Primeiro, porque elas são muito mais comprometidas com o processo de paz. Segundo, porque são informações extremamente preciosas para proteção de civis.

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